Os caranguejos-eremitas terrestres têm recorrido a tampas de garrafas, peças de lâmpadas antigas e garrafas de vidro partidas como alternativa às conchas.
Uma nova investigação realizada por cientistas polacos analisou 386 imagens de caranguejos-eremitas instalados nestas conchas artificiais. As fotografias tinham sido partilhadas por utilizadores em plataformas na Internet e foram depois examinadas através de uma abordagem de investigação conhecida como iEcologia.
Nas 386 fotografias, a grande maioria dos casos, 326, mostrava caranguejos-eremitas abrigados em objetos de plástico.
À primeira vista, trata-se de um exemplo impressionante de como as atividades humanas podem modificar o comportamento dos animais selvagens e, consequentemente, a forma como as populações e os ecossistemas funcionam.
No entanto, há muitos fatores envolvidos e, embora seja fácil tirar conclusões precipitadas, importa ponderar o que poderá estar efetivamente por detrás desta mudança.
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Como os caranguejos-eremitas escolhem as conchas
Os caranguejos-eremitas são excelentes organismos-modelo para investigação: apresentam comportamentos muito variados e as diferenças entre eles são fáceis de medir.
Ao contrário de um caranguejo comum ou de uma lagosta, que fazem crescer continuamente a própria carapaça para proteger o corpo, estes animais utilizam conchas vazias deixadas por caracóis mortos. A concha protege-lhes o abdómen mole enquanto se deslocam e, quando se sentem ameaçados, recolhem todo o corpo para o seu interior. Funciona, assim, como um abrigo portátil.
Dispor de uma concha suficientemente boa é essencial à sobrevivência de cada indivíduo. Por isso, os caranguejos adquirem e trocam de concha à medida que crescem. Disputam-nas com outros caranguejos-eremitas e avaliam se as novas conchas que encontram são adequadas.
Procuram sobretudo conchas grandes o suficiente para os proteger, mas a escolha depende também do tipo de concha de caracol, do seu estado e até da cor, que pode influenciar a visibilidade do animal.
A disponibilidade efetiva de conchas adequadas é outro limite à escolha. Como mostra este estudo recente, uma parte dos caranguejos-eremitas terrestres está a optar por ocupar objetos de plástico em vez de conchas naturais, por uma razão que ainda se desconhece.
Crise de alojamento ou nova solução engenhosa?
Ao longo de milénios, os seres humanos alteraram deliberadamente o comportamento dos animais através da domesticação. As alterações comportamentais não intencionais em populações de animais selvagens são potencialmente preocupantes, mas até que ponto nos deve inquietar o uso de resíduos de plástico como abrigo pelos caranguejos-eremitas?
A investigação polaca levanta várias questões. A primeira é saber até que ponto está disseminada a utilização de resíduos de plástico em vez de conchas.
Embora 326 caranguejos a usar plástico pareçam muitos, esse valor será provavelmente inferior ao número real, uma vez que os utilizadores tendem a encontrar animais apenas nas zonas acessíveis das populações.
Por outro lado, é provável que os utilizadores tenham maior tendência para partilhar imagens invulgares ou impressionantes. Assim, a abordagem da iEcologia poderá dar uma ideia exagerada da proporção de indivíduos de uma população que escolhe plástico em vez de conchas naturais. São necessários levantamentos de campo estruturados para esclarecer a questão.
A segunda pergunta é por que razão alguns caranguejos utilizam plástico.
Uma hipótese é que sejam obrigados a fazê-lo por falta de conchas naturais. Contudo, não é possível testá-la sem mais informações sobre a demografia das populações locais de caracóis.
Ou será que os caranguejos preferem o plástico ou o encontram mais facilmente do que as conchas verdadeiras?
Como referem os autores, o plástico poderá ser mais leve do que as conchas equivalentes, proporcionando a mesma proteção com um custo energético menor no transporte. Curiosamente, sabe-se que as substâncias químicas libertadas pelo plástico atraem caranguejos-eremitas marinhos por imitarem o cheiro dos alimentos.
Surge daqui uma terceira questão: quais são as possíveis desvantagens de usar plástico? Em comparação com as conchas verdadeiras, os resíduos de plástico tendem a ser mais brilhantes e podem contrastar mais com o meio envolvente, tornando os caranguejos mais vulneráveis aos predadores.
Além disso, sabe-se que a exposição a microplásticos e a compostos libertados pelo plástico pode alterar o comportamento dos caranguejos-eremitas. Pode torná-los menos exigentes na escolha das conchas, menos capazes de as disputar e até modificar a sua personalidade, levando-os a correr mais riscos. Para responder às perguntas sobre as causas e as consequências desta utilização de resíduos de plástico, é necessário investigar o seu comportamento na escolha de conchas através de uma série de experiências laboratoriais.
A poluição altera o comportamento
A poluição por plástico é apenas uma das formas como estamos a alterar o ambiente. É, de longe, a forma de resíduos introduzidos nos ambientes marinhos mais frequentemente referida. Mas o comportamento dos animais também é afetado por outras formas de poluição, incluindo microplásticos, produtos farmacêuticos, luz e ruído, além da subida das temperaturas e da acidificação dos oceanos provocadas pelas alterações climáticas.
Investigar o uso de resíduos de plástico pelos caranguejos-eremitas poderá, assim, ajudar-nos a compreender melhor as consequências de determinados impactos humanos no ambiente. Contudo, não revela exatamente como os animais se adaptarão ao Antropocénico, a era em que a atividade humana tem tido um impacto significativo no planeta. Conseguirão lidar com estas mudanças através de respostas comportamentais flexíveis, evoluirão ao longo de gerações ou acontecerão ambas as coisas?
Na minha opinião, a abordagem da iEcologia não consegue responder a perguntas deste género. Este estudo funciona antes como um sinal de alarme, chamando a atenção para possíveis mudanças que agora precisam de ser plenamente investigadas.
Mark Briffa, professor de Comportamento Animal, Universidade de Plymouth
Este artigo é republicado a partir de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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