Quanto mais se descobre sobre os alimentos ultraprocessados, menos apetite parecem deixar-nos.
Estes produtos alimentares de formulação industrial têm poucos nutrientes e muitos aditivos de natureza duvidosa, estando cada vez mais a dominar a alimentação moderna.
O problema é que os cientistas continuam a revelar novas evidências dos riscos para a saúde associados aos alimentos ultraprocessados, que têm sido associados ao cancro, a doenças neurodegenerativas e a muito mais.
Porém, os perigos dos alimentos ultraprocessados não se limitam a quem os consome. Segundo a investigação, podem até afectar a geração seguinte.
Alimentos ultraprocessados e a saúde dos futuros bebés
Um novo estudo publicado na Nutrition Research, conduzido por cientistas no Brasil, indica que o consumo de alimentos ultraprocessados pelos pais pode influenciar a distribuição de gordura dos seus futuros filhos, sendo esses efeitos estabelecidos antes mesmo da concepção.
"A nutrição e a saúde maternas antes, durante e após o nascimento do bebé têm recebido sempre atenção, mas pouco se fala sobre o papel da alimentação do pai", afirma a epidemiologista nutricional Daniela Sartorelli, da Universidade de São Paulo.
"O nosso estudo mostra que ela também é muito importante para a saúde do bebé."

Os riscos dos alimentos ultraprocessados não dizem respeito apenas a quem os ingere, sugere a investigação. (Rizky Ade Jonathan/Getty Images)
No estudo, a equipa de Sartorelli avaliou 43 unidades familiares, cada uma composta por mãe, pai e recém-nascido. Os investigadores recrutaram inicialmente mulheres grávidas e, mais tarde, convidaram os respectivos companheiros a participar.
Ao longo da investigação, os progenitores foram entrevistados em duas ocasiões sobre os alimentos e bebidas consumidos nas 24 horas anteriores. Depois, os investigadores calcularam que proporção da ingestão energética de cada participante provinha de alimentos ultraprocessados.
Depois do nascimento de cada bebé, a equipa recolheu medições detalhadas do corpo da criança, incluindo peso e comprimento à nascença, perímetros corporais, medições das pregas cutâneas e avaliações da composição corporal.
A análise posterior revelou que um maior consumo de alimentos ultraprocessados pelos pais estava associado a bebés com maior peso à nascença, mais peso em relação à altura e pregas cutâneas mais espessas nas coxas e em redor das ancas.
"Embora o estudo não tenha identificado um aumento da gordura corporal total, mas apenas acumulação de gordura em determinadas regiões do corpo do bebé, os resultados sugerem que a qualidade da alimentação do pai também pode influenciar o desenvolvimento fetal", explica Sartorelli.
"Isto é importante porque, em média, os alimentos ultraprocessados representavam 30 percent da energia total consumida pelos pais cujas dietas foram analisadas no estudo, em particular carnes processadas, bebidas açucaradas e bolachas."
O que o estudo revela - e o que ainda não prova
Importa salientar que este estudo apenas mostra uma correlação nos dados; não demonstra que o consumo de alimentos ultraprocessados pelos pais altere a composição corporal da descendência.
Ainda assim, a conclusão junta-se às evidências crescentes de que a saúde e os estilos de vida dos pais podem influenciar o desenvolvimento dos filhos antes do nascimento, possivelmente por via de alterações epigenéticas transportadas no esperma.
"A má nutrição paterna tem sido associada a alterações na qualidade do esperma e nos marcadores epigenéticos, levando a uma elevada probabilidade de perturbações metabólicas", escrevem os investigadores no artigo.
"Os alimentos ultraprocessados são conhecidos pelo seu potencial inflamatório, pois aumentam a produção de espécies reactivas de oxigénio (ROS) que medeiam a inflamação, podendo afectar directamente a qualidade e a motilidade do esperma.
"As alterações epigenéticas, em particular a metilação do ADN, transportadas pelo esperma são um possível mecanismo para explicar como a exposição ambiental do pai pode afectar o desenvolvimento da descendência."
Uma dessas vias poderá consistir na perturbação, pelo consumo paterno de alimentos ultraprocessados, do gene IGF-II. Os bebés herdam este gene do pai, e ele codifica a proteína IGF-II, envolvida no crescimento fetal.
"Estudos anteriores mostraram que os hábitos alimentares de um pai podem modificar bioquimicamente este gene no esperma", afirma a primeira autora e investigadora em nutrição Mariana Carvalho, da Universidade de São Paulo.
"As dietas ricas em alimentos ultraprocessados podem criar no organismo um ambiente pró-inflamatório, afectando a qualidade do esperma e alterando a expressão dos genes que serão transmitidos ao bebé."
Relacionado: Os alimentos de plástico que mais prejudicam o cérebro, classificados por uma nova investigação
Embora sejam necessários mais estudos para confirmar que a hipótese epigenética é responsável pelas mudanças no peso à nascença e na composição corporal dos bebés, os investigadores defendem que qualquer pessoa que pense constituir família deve considerar de que forma a sua alimentação actual poderá afectar um futuro filho.
"A qualidade da dieta do pai antes da concepção tem um impacto significativo na saúde do bebé", diz Sartorelli.
"Os resultados abrem caminho a estudos de maior dimensão e reforçam a necessidade de incluir os homens, e não apenas as mulheres, nas orientações de planeamento familiar."
Os resultados foram comunicados na Nutrition Research.
Este artigo foi verificado por Clare Watson e editado por Clare Watson. Embora tenhamos orgulho no nosso processo, somos apenas humanos. Se detectar um erro, por favor informe-nos.


Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário