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Deixar o melhor para o fim no prato

Prato com bife, puré de batata e legumes verdes, ao lado de tigela de sopa e copo de água numa mesa.

O Deus criador concebeu tudo para culminar em apoteose. Acontece nos concertos, no fogo de artifício, nas anedotas e na liturgia profana do acasalamento - e também acontecia no cinema, quando o cinema era feliz. E, claro, sucede com a morte, na medida em que apenas ela nos livra da angústia de viver, do custo da habitação e do deputado Pedro Pinto.

Contudo, a grande interrogação da Humanidade é alimentar: será que, no prato, a lógica se mantém?

Esta semana lancei um inquérito sobre a matéria na minha página de Instagram (@ricardofelner). À questão “no prato, deixas o melhor para o fim?”, responderam 172 seguidores com tempo a mais. Entre todos, 43% escolheram “sim” e 21% “não”. Outros 16% assinalaram “a maioria das vezes”, enquanto 20% carregaram em “às vezes”.

Deixar o melhor para o fim no prato

Destes números conclui-se que seis em cada dez pessoas (sim + a maioria das vezes) pensam num bitoque como quem disputa uma partida de xadrez. A cenoura ripada é, naturalmente, o peão: sai logo de cena para não atrapalhar. Já a batata frita - a torre? - deve resistir até ao derradeiro momento, pronta para limpar o molho. E é essencial reservar um pedaço de bife de alcatra, a rainha, para acompanhar a margem mais tostada do ovo estrelado - parte de gema, parte de clara -, talvez o rei do bitoque.

São escolhas extraordinárias, tomadas sem descanso ao longo das refeições.

Muita gente nem reparará nelas, mas os meus seguidores no Instagram não pertencem propriamente a essa maioria. Maìra Kimura, criadora da cervejeira artesanal brasileira Japas, escreveu: “Ah, sim! Para mim é quase regra ir guardando o que eu gosto mais para o fim, ou tentando deixar uma bocada completa de uma combinação no prato de que eu gosto. Mas às vezes a ansiedade é maior e eu não consigo, hehehe.”

João Pratas, gastrónomo atento, revelou uma gestão requintada tanto da temperatura como do apetite. “Se é algo que pode perder qualidade com o passar do tempo (arrefecer, por exemplo), como primeiro. Senão, deixo para o fim”, explicou, antes de precisar: “No cozido à portuguesa tenho de ter um cuidado adicional, que é o de não ficar cheio antes de comer tudo aquilo de que gosto.”

Maria Almeida, responsável pela belíssima conta de Instagram Jacomia (@jacomia), identificou um padrão revelador. “Diria que há dois cenários possíveis. Se o prato tiver salada ou algum legume cru, estes vão ser sempre comidos primeiro (porque é sempre o mais desinteressante). Pelo contrário, a proteína costuma ser sempre deixada para o fim (exemplo, um polvo, ou um salmão, ou um bife no ponto). Às vezes há mais do que um elemento que é muito bom (ou dois elementos que se complementam na perfeição) e, nesse caso, a última garfada combina-os para ser a garfada perfeita.”

A última garfada perfeita

Concordo, e conseguiria juntar outros casos à lista. Num ramen tonkotsu, por exemplo, sei que vou guardar metade do ovo para o final, ao lado do chashu (barriga de porco). No bacalhau cozido, não concebo que a derradeira garfada não leve a melhor lasca azeitada do cachaço. E, perante um sushi moriawase, farei um esforço sobre-humano para deixar a mais lustrosa peça de chu-toro para o fim - e vou consegui-lo.

O meu amigo Pedro Magalhães, cientista político e social e profundo conhecedor da street food de Lisboa e arredores, foi desafiado a pronunciar-se sobre o assunto. Ficou do lado da maioria, embora tenha situado a experiência na refeição inteira, e não somente no prato. Há algum tempo, contou-me, teve um almoço de sushi fantástico, mas uma escolha no final arruinou-o. “Não sei por que razão, acrescentei uma panacota no final. Estraguei tudo.”

Pedro Magalhães recomendou-me um estudo sobre a decisão de deixar o melhor para o fim - sim, há estudos para tudo, e o Pedro conhece-os todos. Segundo o estudo, essa preferência pode estar associada a um mecanismo psicológico chamado recency bias, isto é, o viés da última memória.

Em suma, a ciência limita-se a confirmar aquilo que já intuíamos: lembramo-nos mais facilmente do que aconteceu por último e fazemos escolhas que nos levam a reter na memória o sabor mais delicioso. Que o diga a parte central da torrada de pão de forma.

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