Um novo estudo avaliou se o consumo de café ou chá pode diminuir o risco de desenvolver demência, e os resultados ajudam a esclarecer alguma da confusão deixada por investigações observacionais anteriores.
Investigadores da Ningxia Medical University, na China, concluíram que certos consumidores de café ou de chá parecem estar a reduzir o seu risco de demência. Ainda assim, por se tratar de um estudo observacional, o benefício não surgiu de forma uniforme: foi mais evidente em pessoas com tensão arterial elevada, e dependia do número de chávenas ingeridas por dia. O tipo de café escolhido também pareceu ter influência.
Dados do UK Biobank e enquadramento do estudo
As conclusões baseiam-se em dados de saúde de mais de 450.000 participantes do UK Biobank, acompanhados durante uma média de 15 anos. Cerca de metade tinha diagnóstico de tensão arterial elevada (hipertensão).
Os cientistas, liderados pelo investigador Bo Wang, decidiram focar-se em participantes com hipertensão por se considerar que esta condição pode acelerar o envelhecimento cognitivo e aumentar a probabilidade de demência.
"In this study, individuals with hypertension had a higher likelihood of developing dementia compared to the population without hypertension," escrevem os investigadores.
"The statistically significant association between coffee and tea consumption and the risk of dementia was more likely to be found in people with hypertension than in people without hypertension."
Consumo de café e chá e risco de demência em pessoas com hipertensão
Entre os consumidores de café com hipertensão, aqueles que indicaram beber entre meia chávena e uma chávena por dia apresentaram o menor risco de vir a desenvolver qualquer forma de demência. A comparação foi feita com o grupo de maior risco, composto por quem referiu consumir seis ou mais chávenas diariamente.
Já no caso do chá, entre participantes com hipertensão, o menor risco de demência por todas as causas foi observado em quem bebia quatro a cinco chávenas por dia. O grupo de risco mais elevado, nesta análise, foi o de pessoas que não consumiam chá.
Alguns investigadores estimam que, ao controlar factores de risco modificáveis como a hipertensão, o número de casos de demência poderia diminuir até 45 por cento. Café e chá - duas das bebidas mais consumidas no mundo - poderiam ser uma das vias para esse objectivo, mas estes resultados sugerem que a dose é determinante.
Os autores sublinham que os dados mostram apenas uma correlação, pelo que são necessários mais estudos para explorar os possíveis efeitos do café e do chá no cérebro, sejam eles benéficos ou prejudiciais.
Tipo de café, cafeína e mecanismos possíveis
Apesar das limitações, as novas análises ajudam a explicar resultados inconsistentes de estudos observacionais anteriores, que não distinguiam o tipo de café ou de chá consumido.
Por exemplo, o café moído (em comparação com o descafeinado) esteve associado ao menor risco de demência por todas as causas.
"The likely reason for this is that different types of coffee have different levels of caffeine, with ground coffee having the highest caffeine content, instant coffee the second highest, and decaffeinated coffee the lowest," sugerem os autores.
Faltam estudos clínicos robustos, mas alguns trabalhos em células e em animais observaram que bebidas com cafeína podem reduzir o risco de hipertensão, atenuar a inflamação e preservar a barreira hematoencefálica, que protege o sistema nervoso central de toxinas e agentes patogénicos.
Café e chá partilham compostos bioactivos semelhantes, capazes de exercer efeitos anti-inflamatórios ou antioxidantes. Além disso, estas bebidas têm sido associadas a menor risco de doença cardiometabólica, como diabetes ou hipertensão - algo que, por sua vez, pode reduzir a probabilidade de a demência surgir mais tarde.
"These benefits may slow down the progression of vascular inflammation, blood-brain barrier leakage, and beta-amyloid microvascular deposition in hypertensive patients, potentially delaying the onset of Alzheimer's disease," hipotetizam os autores do estudo com base no UK Biobank.
Persistem muitas questões por responder, mas, à luz de resultados emergentes, café e chá começam a despertar um interesse significativo entre neurologistas.
O estudo foi publicado na Scientific Reports.
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