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Produção mundial de arroz quase duplicou apesar das alterações climáticas

Agricultor em campo de arroz segurando planta e tablet, com colegas e equipamento solar ao fundo.

A produção mundial de arroz quase duplicou entre as décadas de 1960 e de 2010 - um resultado notável, tendo em conta que as alterações climáticas a prejudicaram activamente durante todo esse período.

Um novo estudo concluiu que as decisões humanas merecem grande parte do mérito. A expansão da rega, a maior utilização de fertilizantes e o aperfeiçoamento das práticas agrícolas permitiram aos produtores cultivar mais arroz de forma mais eficiente.

Sem estas intervenções, o cenário seria substancialmente mais negativo.

A investigação foi conduzida por Atul Jain, professor de clima, meteorologia e ciências atmosféricas na Universidade de Illinois Urbana-Champaign, em conjunto com o antigo estudante de pós-graduação Tzu-Shun Lin.

Para apurar o que impulsionou realmente as alterações na produção mundial de arroz ao longo do último meio século, o estudo conjugou observações no terreno com modelação baseada em processos.

Esta abordagem permitiu distinguir os contributos do clima, do aumento de CO2 e das decisões de gestão agrícola.

O que determina a produção de arroz?

O arroz não é apenas mais uma cultura agrícola. Constitui o alimento básico de cerca de metade da população mundial, pelo que a importância da sua produção é proporcionalmente elevada.

“​​O arroz está na intersecção entre a segurança alimentar, o desenvolvimento económico e as alterações ambientais”, afirmou Jain.

“Actualmente, a maior parte do arroz mundial é cultivada na Ásia, sendo a China, a Índia e os países do Sul e do Sudeste Asiático responsáveis pela maior parcela da produção global.”

A amplitude desta investigação distingue-a de grande parte dos estudos anteriores. Os trabalhos precedentes tendiam a analisar variáveis isoladas, avaliando, por exemplo, o efeito do CO2 nos rendimentos ou a forma como as variações de temperatura alteram as condições de cultivo.

Neste caso, os investigadores adoptaram uma perspectiva mais abrangente. Analisaram a interacção entre as alterações ambientais e as decisões de gestão agrícola, em diferentes regiões e ao longo do tempo.

O retrato obtido é mais complexo do que geralmente admitem tanto os optimistas como os pessimistas em relação à segurança alimentar.

O clima não foi o único factor

Entre 2006 e 2015, as alterações climáticas reduziram a produção mundial de arroz em cerca de 7 por cento. O aumento das temperaturas, o stress térmico em fases cruciais do crescimento e a escassez de água tiveram todos efeitos prejudiciais.

A Índia registou as maiores perdas de todos os países, seguida pela Indonésia e pela China. Como estas regiões estão entre as mais importantes do mundo para o cultivo de arroz, a conclusão assume particular relevância.

Contudo, as alterações climáticas não explicaram toda a evolução. O aumento do CO2 na atmosfera - o mesmo factor que provoca o aquecimento global - também favoreceu a produção, ao intensificar a fotossíntese e melhorar a eficiência com que as plantas utilizam a água.

Estas duas forças actuaram em sentidos contrários e, em algumas regiões, compensaram-se aproximadamente. No final, o elemento determinante foi a gestão.

“As decisões tomadas pelos agricultores, pela indústria e pelos decisores políticos foram fundamentais para manter a produção de arroz e melhorar a segurança alimentar de milhares de milhões de pessoas”, afirmou Jain.

“O nosso estudo demonstra que o aumento da produção de arroz foi impulsionado sobretudo por decisões de gestão - sob a forma de expansão da rega, maior aplicação de nutrientes e adopção de práticas agrícolas.”

Como os produtores de arroz impulsionaram o crescimento

Entre as práticas concretas responsáveis pelos aumentos de produção estão a expansão dos sistemas de rega, a maior utilização de fertilizante azotado e estrume, a adopção de várias épocas de cultivo e alterações nos métodos de plantação.

Não se trata de respostas passivas às condições ambientais. São opções feitas pelos agricultores, apoiadas por políticas públicas e viabilizadas por investimento em infra-estruturas.

Assim, a quase duplicação da produção não foi algo que simplesmente ocorreu no sistema agrícola. Foi construída deliberadamente por pessoas, ao longo de décadas.

Da mesma forma, assegurar a produção no futuro dependerá de escolhas conscientes, e não apenas da cooperação do clima.

A pressão climática está a aumentar

O estudo não garante que a trajectória actual se mantenha. As pressões climáticas estão a intensificar-se, e os ganhos de gestão alcançados no último meio século não podem ser repetidos indefinidamente.

A determinada altura, a capacidade de compensação proporcionada pela expansão da rega e pelos factores de produção fertilizantes encontrará limites físicos e ambientais.

“A segurança alimentar e a sustentabilidade ambiental devem ser abordadas em conjunto”, afirmou Jain.

“Isto é crítico, uma vez que o nosso estudo revela que as alterações climáticas já estão a afectar a produção de arroz em algumas das regiões mais importantes do mundo para este cultivo.”

“A Índia registou as maiores perdas de produção de arroz relacionadas com o clima, seguida pela Indonésia e pela China, o que salienta a importância de desenvolver estratégias de gestão capazes de manter a produção de arroz enquanto se adaptam às crescentes pressões climáticas.”

À procura de soluções sustentáveis

O próximo passo da equipa de investigação consiste em aplicar o mesmo enquadramento à modelação de cenários futuros, capazes de identificar trajectórias que respondam ao aumento da procura e reduzam simultaneamente a pegada ambiental da produção.

Isso inclui analisar de que modo as estratégias destinadas a aumentar os rendimentos afectam as emissões de gases com efeito de estufa e os recursos hídricos.

Os últimos 60 anos mostraram que a engenhosidade humana pode superar os danos climáticos, pelo menos durante algum tempo.

A questão agora é saber se conseguirá continuar a fazê-lo e qual será o custo para os sistemas, as reservas de água e os solos de que depende a produção de arroz.

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