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Chimpanzés selvagens no Uganda e o álcool da fruta fermentada: novas evidências para a hipótese do macaco bêbedo

Chimpanzé a comer fruta na floresta, com uma pessoa a fazer anotações ao fundo.

No coração da floresta tropical do Uganda, uma equipa de cientistas encontrou indícios robustos de que chimpanzés selvagens conseguem mesmo “apanhar a moca” com fruta.

Investigadores da UC Berkeley viajaram até ao Uganda para perceber se os chimpanzés ingerem fruta naturalmente fermentada em quantidade suficiente para absorver doses relevantes de álcool. A resposta surgiu de uma fonte improvável: a urina dos próprios chimpanzés.

Estudar chimpanzés no Uganda

Aleksey Maro, estudante de pós-graduação na UC Berkeley, passou uma temporada no Parque Nacional de Kibale, no Uganda. O seu trabalho centrou-se numa zona conhecida como Ngogo, onde vive uma grande comunidade de chimpanzés.

O seu orientador, o professor Robert Dudley, também da UC Berkeley, investiga há anos aquilo a que chama a hipótese do “macaco bêbedo”.

Segundo esta ideia, animais frugívoros - incluindo os antepassados humanos - teriam consumido com frequência pequenas quantidades de álcool provenientes de fruta fermentada.

Chimpanzés obtêm álcool a partir de fruta fermentada

A fermentação começa quando leveduras decompõem os açúcares da fruta e geram etanol, o mesmo tipo de álcool presente na cerveja e no vinho.

Os chimpanzés comem vários quilos de fruta por dia. Se parte dessa fruta fermentar, então o álcool passa a integrar a sua alimentação.

No ano passado, Maro e o professor Dudley relataram que chimpanzés selvagens poderão ingerir cerca de 14 gramas de álcool por dia a partir de fruta. Para um ser humano, isto equivale a aproximadamente duas bebidas-padrão.

Apesar disso, faltava uma prova mais sólida. Medir álcool no hálito de um chimpanzé não é viável em plena floresta tropical, pelo que a análise à urina se apresentou como a alternativa mais prática.

Recolher urina de chimpanzé

Obter amostras de urina de chimpanzé está longe de ser simples. Maro treinou com Sharifah Namaganda, estudante de pós-graduação na Universidade do Michigan, que já tinha experiência de campo em Ngogo.

Com a ajuda dela, improvisou utensílios usando ramos bifurcados e sacos de plástico.

O resultado funcionava como pequenas “taças” rasas presas a cabos compridos, o que permitia recolher as amostras sem se aproximar demasiado dos animais.

Onde os chimpanzés deixam pistas

Muitas vezes, os chimpanzés urinam antes de abandonarem uma árvore onde estiveram a alimentar-se. Maro aguardava debaixo das árvores e observava com atenção. Por vezes, conseguiu apanhar a urina directamente; noutras ocasiões, recolheu-a de folhas ou de pequenas poças no chão da floresta.

Também reparou noutro padrão: por vezes, os chimpanzés colocam-se sobre pequenos troncos, defecando de um lado e urinando do outro. Estes comportamentos ajudavam-no a antecipar onde procurar.

Durante uma deslocação de 11 dias, em Agosto de 2025, Maro reuniu 20 amostras de urina pertencentes a 19 chimpanzés. A equipa local de Ngogo ajudou a identificar cada indivíduo, o que permitiu comparar resultados entre machos, fêmeas e animais mais jovens.

Provas claras de ingestão de álcool

A equipa analisou as amostras com tiras especiais chamadas imunoensaios. Estas tiras funcionam de forma semelhante a testes de gravidez. Detectam o etil glucuronídeo, uma substância que o fígado produz depois de o organismo metabolizar álcool.

Os resultados chamaram a atenção. Dezassete das 20 amostras deram positivo para subprodutos do álcool a um nível de 300 nanogramas por mililitro ou superior.

Além disso, 10 das 11 amostras avaliadas com um limiar mais exigente - 500 nanogramas por mililitro - também foram positivas. Em humanos, 500 nanogramas por mililitro costuma surgir após consumo ligeiro nas últimas 24 horas.

A hipótese do macaco bêbedo

“Encontramos evidência fisiológica generalizada do consumo de álcool por chimpanzés”, afirmou Maro.

“Se havia alguma dúvida sobre a hipótese do macaco bêbedo - de que existe álcool suficiente no ambiente para que os animais o experienciem de forma análoga aos humanos - ficou esclarecida.”

“Isto corrobora as taxas de ingestão inferidas que o Aleksey tinha obtido anteriormente”, acrescentou Dudley.

O professor explicou ainda que estes níveis são elevados quando comparados com alguns limiares clínicos e legais usados para humanos. Na prática, isto aponta para um consumo regular e relevante de álcool proveniente de fruta.

Medir o álcool na fruta

Durante este trabalho, os chimpanzés alimentaram-se em grandes quantidades de fruto da maçã-estrela africana, também conhecida como Gambeya albida. A fruta era particularmente abundante por se tratar de um ano de frutificação em massa, quando as árvores produzem colheitas muito acima do habitual.

Análises a frutos apanhados do chão indicaram cerca de 0,09% de etanol em peso. Estudos anteriores tinham encontrado uma média de 0,32% de etanol noutros frutos em Ngogo.

É possível que os chimpanzés prefiram fruta mais madura ainda pendurada nas árvores, que poderá conter mais álcool do que a fruta caída no solo.

Fruta diária significa álcool diário

Em média, os chimpanzés consomem cerca de 4,5 quilogramas (cerca de 10 libras) de fruta por dia. Mesmo percentagens baixas de álcool podem acumular-se quando a ingestão é tão elevada.

Os resultados da urina reforçam que, de facto, os animais estavam a consumir quantidades significativas.

Os investigadores notaram ainda algumas tendências. Machos e fêmeas apresentaram positivos, mas os resultados negativos surgiram com maior frequência em fêmeas em estro e em chimpanzés jovens. Uma hipótese é que machos adultos possam guardar ou consumir fruta com maior teor alcoólico.

Ligações à evolução humana

O estudo liga-se de perto à história humana. Os humanos partilham um ancestral comum com chimpanzés e bonobos. Se os chimpanzés ingerem fruta fermentada de forma regular, é provável que os antepassados humanos também o tenham feito.

“A comida e o álcool, do ponto de vista evolutivo, estão, afinal, muito ligados, sobretudo na vida dos chimpanzés”, disse Maro.

“Tudo regressa ao lado humano: Teremos evoluído com uma predisposição para consumir álcool, com base nesta linhagem ancestral? E de que forma isso nos predispôs para a domesticação do álcool através da levedura de cervejeiro e para o subsequente abuso de álcool.”

Os chimpanzés preferem álcool?

Para o professor Dudley, falta ainda uma etapa decisiva. É necessário demonstrar que os chimpanzés escolhem activamente fruta com maior teor de álcool.

“A ligação final aqui com a hipótese do macaco bêbedo ainda precisa de ser demonstrada: que os chimpanzés estão a consumir selectivamente frutos com maior teor de etanol”, afirmou Dudley.

“Isso não foi realmente demonstrado para nenhum taxon na natureza. Portanto, essa seria a próxima direcção futura - para provar de forma definitiva a hipótese universal da atracção pelo álcool.”

Álcool noutros animais

Os chimpanzés não são os únicos animais selvagens que comem fruta. Maro instalou armadilhas fotográficas e registou muitos outros animais a alimentarem-se dos mesmos frutos. Macacos, aves, javalis, veados e esquilos visitaram as árvores.

O professor Dudley tem incentivado outros investigadores a utilizarem as mesmas tiras de teste de urina em locais como Madagáscar, para estudar morcegos frugívoros.

O conjunto destes dados sugere que o álcool na natureza não é raro nem extraordinário. Para animais que se alimentam de fruta - incluindo os primeiros antepassados humanos - pequenas doses de álcool poderão ter feito parte do quotidiano durante milhões de anos.

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