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Emissões dos arrozais duplicaram nos últimos 60 anos

Homem a medir a qualidade da água numa plantação de arroz inundada ao pôr do sol.

O arroz alimenta mais de metade da população mundial, pelo que é difícil exagerar a sua importância. No entanto, o seu cultivo também tem um custo climático, que se tem agravado.

Um novo estudo conclui que as emissões de gases com efeito de estufa provenientes dos arrozais praticamente duplicaram nos últimos 60 anos.

A principal explicação é que os campos de arroz inundados libertam metano e óxido nitroso, dois gases com efeito de estufa muito potentes.

A investigação traz, contudo, uma conclusão mais animadora.

Algumas alterações relativamente práticas nas explorações agrícolas poderiam reduzir estas emissões, sobretudo as de metano, sem diminuir a quantidade de arroz produzida.

Porque é que o arroz gera emissões

O arroz distingue-se de muitas outras culturas por ser frequentemente produzido em arrozais inundados. Embora estas condições encharcadas favoreçam a cultura, também criam o ambiente propício à formação de metano.

Além disso, os sistemas de produção de arroz podem igualmente libertar óxido nitroso, aumentando a sua pegada climática.

Segundo o novo estudo, as emissões dos arrozais atingiram agora o equivalente a cerca de 1,1 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano.

O metano representa uma parte importante deste problema e é particularmente relevante por acelerar o aquecimento no curto prazo.

Esta é uma das razões pelas quais se tornou uma prioridade das políticas climáticas, incluindo iniciativas como o Compromisso Global sobre o Metano, que pretende reduzir acentuadamente as emissões deste gás durante esta década.

O autor principal do estudo, Hanqin Tian, é professor de Ciências da Terra e do Ambiente no Boston College.

“ O nosso objetivo era compreender o impacto climático total dos sistemas de produção de arroz - não apenas o metano, mas todos os principais gases com efeito de estufa em conjunto - e identificar vias realistas de mitigação”, afirmou o Professor Tian.

Porque aumentaram as emissões dos arrozais

Os investigadores procuraram perceber não só quanto emitem atualmente os arrozais, mas também porque é que essas emissões aumentaram tanto desde a década de 1960.

Para isso, reuniram várias abordagens: aprendizagem automática treinada com mais de 21 000 observações no terreno, um modelo de ecossistema baseado em processos e uma meta-análise global.

Em conjunto, estas ferramentas permitiram calcular as emissões totais, determinar os fatores mais relevantes e testar que alterações poderiam reduzi-las de forma realista. Destacaram-se duas forças principais.

A primeira foi a expansão da produção de arroz, sobretudo nas regiões em desenvolvimento. Mais campos de arroz significam simplesmente mais área inundada a libertar gases com efeito de estufa.

A segunda foi a prática crescente de incorporar resíduos das culturas nos solos inundados.

Em muitos sistemas, o material vegetal que sobra após a colheita é devolvido ao campo. Isto pode trazer alguns benefícios agrícolas, mas, em condições de inundação, também intensifica a produção de metano.

Regiões diferentes, fatores de pressão diferentes

O estudo demonstra ainda que o peso climático do arroz não está distribuído de forma uniforme.

A Ásia Oriental continua a ser uma grande fonte de emissões, sobretudo porque as emissões de metano na região estão fortemente associadas à incorporação intensiva de palha. Tendo em conta a dimensão da produção de arroz nesta zona, tal não é particularmente surpreendente.

Mais marcante é a rapidez com que África está a tornar-se um novo ponto crítico. A área dedicada ao arroz aumentou sete vezes desde 1961, chegando a cerca de 16 milhões de hectares em 2024.

À medida que o cultivo de arroz se expande, as emissões aumentam em paralelo.

Isto é importante porque indica que o futuro das emissões associadas ao arroz não será definido apenas pelas regiões produtoras estabelecidas há mais tempo. As novas zonas de expansão poderão ter um papel muito maior do que tinham no passado.

E, como a procura de arroz não vai desaparecer, é improvável que o problema das emissões se resolva por si só.

É necessária uma melhor gestão agrícola do arroz

Os investigadores concluíram que uma gestão agrícola mais eficaz poderia cortar as emissões em cerca de 10 por cento sem reduzir os rendimentos. Não se trata de uma redução insignificante, especialmente numa cultura com tamanha importância global.

As estratégias apontadas não são futuristas nem irrealistas.

Incluem uma melhor gestão da água para limitar a formação de metano, uma menor devolução excessiva de resíduos das culturas aos solos inundados e uma utilização mais eficiente de fertilizantes azotados.

“Estas são soluções práticas e escaláveis que os agricultores podem adotar já hoje”, afirmou Susan Pan, coautora do estudo e professora associada de engenharia no Boston College.

“Oferecem uma via significativa para a agricultura contribuir para os objetivos climáticos de curto prazo, incluindo as metas de redução de metano.”

O verdadeiro desafio

O arroz ocupa uma posição difícil no debate sobre o clima.

É absolutamente essencial para a segurança alimentar, sobretudo na Ásia e, cada vez mais, noutras regiões do mundo. Por isso, não bastam slogans simples sobre reduzir emissões.

Não é possível discutir seriamente o impacto climático do arroz sem abordar igualmente a fome, os meios de subsistência e o facto de milhares de milhões de pessoas dependerem desta cultura.

O desafio passa por continuar a produzi-lo causando menos danos.

Implicações mais amplas do estudo

O estudo não apresenta a questão como uma escolha entre alimentar as pessoas e proteger o clima.

Sugere antes que existe um ponto intermédio e que algumas das melhorias mais importantes podem resultar do ajustamento das práticas agrícolas, em vez da redução da produção.

O arroz não vai desaparecer. Se alguma coisa, a dependência mundial desta cultura torna o problema ainda mais urgente.

Sim, tornou-se parte do problema climático. Mas também poderá tornar-se parte da solução climática, se a forma como é cultivado começar a mudar.

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