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O açúcar pode dificultar o relaxamento do corpo

Mulher a receber massagem nas costas numa cama de massagem, com um copo de sumo e bolo ao fundo.
Neste artigo
  1. O açúcar fornece energia rápida
  2. Como o açúcar afeta o relaxamento
  3. Como o corpo gere o stress
  4. Testar o açúcar e o relaxamento
  5. O que aconteceu no interior do corpo
  6. Massagem, repouso e relaxamento verdadeiro
  7. O açúcar ajuda na concentração
  8. Porque isto é importante no dia a dia
  9. Uma nova forma de compreender o corpo

Um pequeno pedaço de chocolate antes de descontrair pode transmitir uma sensação de conforto. Muitas pessoas gostam de comer doces enquanto vêem um filme ou fazem uma pausa. Mas e se esse petisco açucarado mantiver discretamente o corpo em alerta, em vez de o acalmar?

Uma nova investigação indica que o açúcar pode alterar a forma como o organismo relaxa, mesmo quando a mente se sente tranquila.

O açúcar fornece energia rápida

O açúcar funciona como um combustível imediato para o organismo. É frequente os estudantes comerem chocolate antes de um exame e os atletas recorrerem a barras energéticas antes de uma corrida.

O açúcar eleva o cortisol, uma hormona do stress, e mantém a frequência cardíaca alta. Esta resposta ajuda o corpo a permanecer alerta perante situações exigentes.

No entanto, consumir açúcar com frequência pode prejudicar a saúde ao longo do tempo. Pode contribuir para tensão arterial elevada, obesidade e problemas cardíacos.

Os cientistas já conhecem bem estes efeitos. Agora, os investigadores procuraram responder a uma nova questão: será que o açúcar influencia a capacidade de o corpo relaxar?

Como o açúcar afeta o relaxamento

O professor Jens Pruessner e a sua equipa, da Universidade de Konstanz, analisaram esta questão. A investigação centrou-se na influência dos níveis de glicose no sangue sobre o relaxamento.

“Se o estômago estiver cheio, os exercícios de relaxamento não serão tão eficazes”, observou Pruessner.

Esta ideia põe em causa um hábito comum. Muitas pessoas comem algo antes de relaxar, mas o estudo sugere que esse costume pode diminuir os benefícios reais do relaxamento.

Como o corpo gere o stress

Para controlar o stress e o relaxamento, o organismo recorre ao sistema nervoso autónomo. Este sistema divide-se em duas partes: o sistema simpático, que prepara o corpo para agir, e o sistema parassimpático, que ajuda o organismo a acalmar-se.

“O nosso coração tem um pacemaker interno que determina a velocidade a que bate”, explicou Maria Meier, primeira autora do estudo.

“Enquanto a atividade simpática tem um efeito estimulante e ativador em momentos de stress, a atividade parassimpática funciona como um travão vagal, abrandando o batimento cardíaco.”

Os dois sistemas atuam em conjunto para manter o equilíbrio do organismo. Quando um se torna ativo, o outro tende habitualmente a abrandar. Este equilíbrio permite ao corpo reagir e recuperar de forma adequada.

Testar o açúcar e o relaxamento

O estudo contou com 94 jovens adultos saudáveis. Antes da experiência, os participantes estiveram em jejum durante algumas horas.

Alguns beberam uma solução de glicose e os restantes beberam água. Depois, metade do grupo recebeu uma breve massagem nos ombros, enquanto os outros apenas descansaram.

Os investigadores avaliaram a atividade cardíaca, os níveis de glicose no sangue e a sensação de relaxamento. A glicemia subiu apenas no grupo que consumiu glicose, o que demonstrou que o organismo a absorveu rapidamente.

Tanto a massagem como o repouso ajudaram os participantes a sentirem-se calmos. As medições cardíacas também revelaram que o sistema responsável pelo acalmar do organismo ficou ativo em ambos os grupos.

O que aconteceu no interior do corpo

Embora os participantes se tenham sentido relaxados, o organismo revelou uma realidade diferente. O açúcar ativou o sistema de stress, e o sistema simpático manteve-se ativo em vez de abrandar.

Os investigadores verificaram que a glicose aumentou a atividade do sistema de stress e impediu a habitual diminuição da resposta ao stress durante o relaxamento. Ou seja, o corpo permaneceu parcialmente em alerta, mesmo durante uma atividade calmante.

“Isto significa que, embora os participantes se tenham sentido subjetivamente relaxados, o seu sistema nervoso simpático não abrandou, mantendo antes o corpo num estado de ativação mais elevado”, afirmou Meier.

“Com base nos resultados do nosso teste, podemos concluir que o açúcar prejudica a capacidade de o corpo relaxar.”

Massagem, repouso e relaxamento verdadeiro

O estudo também mostrou que as massagens foram mais eficazes do que o simples repouso. As massagens ativaram mais intensamente o sistema calmante. Este efeito deverá resultar do toque suave, que faz o corpo sentir-se seguro e reduz o stress.

Ao mesmo tempo, o açúcar reduziu o benefício total desse relaxamento. Nas pessoas que beberam água, o sistema de stress abrandou mais durante a massagem. Nas que consumiram açúcar, esse efeito foi mais fraco.

Os resultados indicam que o açúcar pode bloquear uma parte do processo natural de relaxamento do organismo.

O açúcar ajuda na concentração

Curiosamente, o açúcar produziu um efeito positivo: ajudou os participantes a obter melhores resultados em tarefas de atenção. Níveis mais elevados de glicose no sangue estiveram associados a maior concentração e precisão.

Isto é compreensível. O açúcar fornece energia, ajudando o cérebro a manter-se concentrado. Contudo, esse benefício implica uma contrapartida: o organismo fica mais alerta e menos relaxado.

Assim, o açúcar pode ser útil em situações que exigem concentração, mas não nas que exigem calma.

Porque isto é importante no dia a dia

Muitas pessoas associam os doces ao conforto. Comer gelado durante um filme ou bolo com a família pode parecer relaxante. Porém, este estudo indica que o açúcar pode reduzir discretamente o relaxamento verdadeiro.

“Desfrutar de um petisco doce é frequentemente associado a situações relaxantes - uma barra de chocolate ou um gelado enquanto se vê um filme, uma fatia de bolo ao fim de semana com a família”, observou Pruessner.

“Na realidade, a ativação simpática constante após a ingestão de açúcar parece limitar a capacidade de relaxar. Por isso, se quiser relaxar de forma intencional, por exemplo através de meditação ou relaxamento muscular progressivo, não deve comer algo rico em açúcar antes.”

O conselho é simples: evite açúcar antes de atividades como meditação, massagem ou repouso profundo.

Uma nova forma de compreender o corpo

O estudo deixa ainda uma lição importante. Os cientistas devem analisar em conjunto os sistemas de stress e de relaxamento. Observar apenas um deles pode fazer passar despercebidos detalhes relevantes.

“Para fazermos afirmações válidas, não podemos analisar apenas um sistema isoladamente - ou seja, o sistema simpático ou o parassimpático - porque, de outro modo, não detetaríamos alguns efeitos”, afirmou Meier.

Esta abordagem ajuda a explicar porque é que alguém pode sentir-se relaxado quando o corpo ainda não está completamente calmo. No fim de contas, o verdadeiro relaxamento não depende apenas da sensação da mente.

O corpo também precisa de abrandar. E, por vezes, prescindir de um petisco doce pode ajudar o organismo a alcançar esse estado mais profundo de repouso.

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Inês Margarida Correia

Inês Margarida Correia é engenheira alimentar e consultora em processos de panificação e confeção em forno, com especialização em fornos tradicionais e controlo de temperatura e humidade. No sitiodoforno, partilha conhecimento sobre técnicas de cozedura, manutenção de fornos e receitas que valorizam a tradição portuguesa com rigor técnico. Interessa-se particularmente por fermentações, lenha e eficiência energética aplicada à cozinha.

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