Duas batatas achadas no fundo de um recipiente, numa antiga zona de armazenamento inca, resistiram durante cerca de 500 anos e revelam uma notável técnica de preparação alimentar. Tratava-se de chuño: batata congelada e desidratada naturalmente nos Andes através de um método que antecipa, sem máquinas ou embalagens industriais, a lógica da liofilização moderna.
Onde foram encontradas as batatas com 500 anos?
O achado ocorreu em Tambo Viejo, um antigo centro provincial inca situado no vale de Acarí, na costa meridional do Peru. Na campanha de escavações de 2024, os arqueólogos analisavam uma pequena divisão destinada ao armazenamento quando identificaram um recipiente de barro, parcialmente enterrado no solo e já sem a sua parte superior.
Junto ao fundo do recipiente, surgiram dois fragmentos de batata, reconhecidos pelo arqueólogo Lidio Valdez como chuño. Valdez, da Universidade de Calgary, e a arqueóloga Katrina Bettcher relataram a descoberta num estudo publicado em 2026 no Journal of Field Archaeology.
Porque é tão invulgar encontrar chuño em arqueologia?
Os vestígios vegetais raramente sobrevivem intactos durante séculos, uma vez que os materiais orgânicos se degradam facilmente. De acordo com os investigadores, o caso de Tambo Viejo corresponde apenas à segunda recuperação conhecida de chuño num sítio inca, o que faz destas duas batatas uma evidência arqueológica particularmente rara.
- As duas amostras estavam no interior de uma zona inca destinada ao armazenamento.
- O clima extremamente seco do vale de Acarí contribuiu para travar a decomposição total do alimento.
- Por ser frágil, o chuño raramente se mantém preservado durante centenas de anos em contextos arqueológicos.
- O achado oferece uma prova directa da circulação deste alimento entre os Andes e a costa peruana.
As condições áridas do vale foram fundamentais para esta preservação. O mesmo ambiente permitiu anteriormente a conservação de outros materiais orgânicos na região. Sem a combinação entre a secura e a protecção proporcionada pelo recipiente, é provável que as batatas tivessem desaparecido muito antes da chegada dos arqueólogos.
Como produziam os povos andinos uma liofilização natural?
A preparação do chuño tirava partido de uma condição extrema das altas altitudes andinas. As batatas eram submetidas repetidamente às noites de geada, que congelavam os tubérculos, e aos dias secos e ensolarados, que favoreciam a eliminação da humidade. Este ciclo repetia-se até ser retirada grande parte da água.
As batatas comuns são constituídas maioritariamente por água e podem deteriorar-se depressa em zonas mais quentes. Ao congelarem e desidratarem os tubérculos, as populações andinas obtinham um alimento muito mais leve e resistente ao tempo. Apesar de não ser igual à actual liofilização industrial, a lógica de remover água para prolongar a conservação é semelhante.
Porque era o chuño tão importante para o Império Inca?
A capacidade de durar transformava o chuño numa reserva estratégica. Segundo o estudo, podia ficar guardado durante longos períodos, assegurando a existência de alimentos quando as colheitas frescas não estavam disponíveis. Esta vantagem era especialmente relevante num império que integrava populações distribuídas por ambientes muito distintos.
Há ainda um pormenor significativo: o chuño só pode ser produzido correctamente em grandes altitudes, onde as geadas são frequentes. Como Tambo Viejo se localiza numa área costeira, os exemplares ali descobertos tiveram de ser transportados desde as terras altas, provavelmente em caravanas de lhamas através da extensa rede de caminhos incas.
O que podem ensinar duas batatas antigas sobre conservação?
Para Lidio Valdez, o achado suscita também uma reflexão contemporânea sobre segurança alimentar. O investigador salientou que as sociedades do passado criaram formas eficazes de conservar alimentos em condições difíceis, enquanto o desperdício alimentar permanece um problema relevante no mundo actual.
Estas duas pequenas batatas demonstram que a inovação nem sempre depende de equipamento sofisticado. O frio nocturno, o sol, o ar seco e o conhecimento acumulado bastaram para criar um alimento capaz de percorrer centenas de quilómetros e sobreviver durante séculos. Compreender estas soluções antigas pode levar a uma atenção renovada às tecnologias tradicionais, que ainda têm muito para ensinar.
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