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Segundo dia do Douro & Porto Wine Festival reuniu Lena d'Água, Ronan Keating e Aurea em Cambres, Lamego

Concerto ao pôr do sol com público sentado em mesas e vinhas ao fundo junto a rio sereno.

O Douro conservava ainda o calor do dia quando a segunda jornada do festival arrancou em Cambres, Lamego. O termómetro rondara os 37 graus e, mesmo ao cair da tarde, sentia-se no ar aquele bafo pesado que cola à pele e empurra toda a gente para a sombra, para a água, para os brancos bem frescos - para qualquer coisa que ajude a atravessar a noite. No Porto Comercial, com a Régua do outro lado do rio e os navios-hotel atracados ao cais, o Douro & Porto Wine Festival voltou a assumir a sua fórmula: música, vinho, comida e um público sem pressa.

Rui Pregal da Cunha deu o primeiro impulso ao programa num set de DJ, com muita gente ainda a circular pela aldeia do vinho, entre produtores, copos e provas. Nem todos aqui correm para a grade: há quem apareça por um nome do cartaz, quem venha pelo ambiente e quem vá compondo a noite aos poucos, conforme lhe apetece.

Lena d'Água aquece o palco com um concerto acústico

Quando Lena d'Água entrou em palco, às 20.30 horas certas, a luz ainda tinha cor de dia. Em formato acústico, levou ao Douro uma pop portuguesa que muitos trazem na memória desde a década de 1980, mas que nunca ficou presa a essa época. Há artistas que envelhecem com o seu público e outros que conseguem atravessá-lo; Lena encaixa mais neste segundo grupo. Canta para quem a ouviu na rádio, em discos e cassetes, e também para quem chegou depois e encontrou as canções sem precisar de nostalgia emprestada.

O concerto foi leve e sereno, sem exigir da noite mais do que ela ainda estava pronta para dar. Parte do público dividia a atenção entre o palco, os pregos, as sandes de leitão e a comida dos chefs no espaço Fogo de Chão. Ainda assim, "Dou-te um doce", "Sempre que o amor me quiser" e "Demagogia" entraram como canções de memória colectiva - daquelas que não pedem licença, porque já estavam guardadas em algum sítio.

Perto dali, a cozinha ao vivo, com curadoria do chef Renato Cunha e com vários chefs a rodar pelo fogo, completava a outra metade da proposta. O festival não cabe apenas num palco, nem se esgota num copo: também se faz de prato, de lume, de fumo e da paciência de quem cozinha para muita gente sem perder a mão.

Ronan Keating no Douro & Porto Wine Festival: reencontro e memórias

Às 22 horas, Ronan Keating trouxe a componente internacional - e trouxe-a com vontade de estar ali. O antigo vocalista dos Boyzone não se limitou a cumprir o alinhamento previsível de quem faz o concerto e segue viagem. Falou com o público, brincou, bebeu vinho, puxou pela plateia e percebeu depressa que tinha à frente gente pronta para um reencontro.

Enquanto desfiava canções, ia deixando elogios ao festival e à região. Já passou por muitos festivais, disse, mas aquele era "fabuloso". Falou dos vinhos do Douro, do tempo que passa em Portugal e do carinho que tem pelo país. E, ao lembrar os Boyzone, olhou para os mais novos encostados à frente do palco e atirou, com humor, algo como "os vossos pais falaram-vos de nós, certo?". A resposta veio em gargalhadas. Muitos nem eram nascidos nos anos de maior exposição do grupo irlandês, mas há músicas que atravessam gerações.

Quando arrancou "Baby Can I Hold You", de Tracy Chapman, apareceram as primeiras emoções mais visíveis. Depois vieram "Words", dos Boyzone, e "If Tomorrow Never Comes", canção que Ronan Keating popularizou, embora a gravação original seja de Garth Brooks, em 1989.

Mais à frente, "When You Say Nothing at All" trouxe o lado mais romântico e mais alto da noite - a canção em que o silêncio, o sorriso e o olhar dizem mais do que qualquer declaração. Não era só ouvir uma voz conhecida ao vivo: era regressar a um tempo em que certas músicas acompanhavam tudo, até aquilo que muitos, na altura, ainda não sabiam nomear.

"Devia haver mais bancos e mesas"

Teresa Simões e João Oliveira, casal de Vila Real, foram sobretudo à procura de "bons momentos" e de Ronan Keating. Teresa diz que gosta das músicas dele por terem "sentimento". João admitia que tinha ido "acompanhar a mulher", mas já segurava um copo e aceitava que, por si só, o cenário também pesava na decisão.

Tânia Costa, natural de São João da Pesqueira e a viver em Vila Real, também não escondeu ao que ia. Veio por Ronan Keating e pela "balada que quase todos conhecem", mesmo quando o título completo não sai logo. Gostou do ambiente, mas deixou uma sugestão directa para futuras edições: "devia haver mais bancos e mesas".

Luís Rego é "presença assídua" desde os primórdios do festival e sublinha o "espaço incrível" que "valoriza a região". Vai pela música, mas sobretudo pela "presença de várias quintas do Douro", numa ligação entre palco, vinho e território que ajuda a explicar a identidade do evento.

Ronan Keating percebeu rapidamente o festival onde estava. A certa altura, pegou com humor em alguém que lia um livro numa tenda da FNAC, aparentemente indiferente ao concerto, e comentou que precisava de beber vinho entre canções. "Tragam uma garrafa", pediu. Levaram-lhe um rosé. Provou, alinhou na brincadeira e falou de aromas e frutos vermelhos como se, por instantes, o palco se tivesse transformado num balcão de prova.

Foi depois de "When You Say Nothing at All" que surgiu a segunda garrafa: um Porto, entregue em palco pelo presidente do Turismo do Porto e Norte, Luís Pedro Martins. Após algumas palavras breves, o cantor voltou ao microfone com a garrafa numa mão e o copo na outra. Provou e percebeu de imediato que era outra coisa - mais doce, mais forte, mais Douro. Fez boa cara, repetiu o gole e ainda procurou no rótulo uma pista para aqueles sabores quase dos deuses.

Também houve espaço para George Michael. Ronan contou que, quando andava na escola, via os vídeos do cantor na MTV e que, em parte, é por causa dele que hoje faz o que faz. Chamou-lhe "o melhor", mandou um beijo ao céu e dedicou-lhe "Faith". Foi um dos momentos mais honestos do concerto - daqueles em que a memória deixa de ser só do público e passa a ser também de quem está em palco.

Ana Teixeira, de Famalicão, chegou ao festival pelo ambiente, pelos concertos e pelo vinho. É o terceiro ano que passa por Cambres e garante nunca ter encontrado um ambiente "tão saudável". Ronan Keating "superou as expectativas". Conhecia-o das músicas da adolescência e vê-lo ali, a cantar aquelas canções, foi "arrepiante". Para Ana, ele "deu tudo" e o público sentiu isso, sobretudo quando desceu do palco para ficar perto dos fãs.

Bruno e Fernanda Teixeira, de Guimarães, casados há 25 anos, regressaram depois de se terem rendido ao festival no ano passado. Gostam desse equilíbrio raro, que "não é barulhento demais, não é distante demais, fica no ponto certo". Sobre Ronan, Fernanda encontrou a frase mais simples e certeira: "Ele estava cá connosco de alma e coração". E depois aguardava Aurea com a mesma expectativa boa de quem não queria ainda que a noite terminasse.

Talvez seja isso que separa uma actuação competente de um concerto que deixa a sensação de que o artista não passou apenas pelo palco - esteve mesmo ali. Ronan Keating esteve. Com simpatia, humor, energia e boas canções, prendeu o público desde o início e fez da memória uma coisa viva, repartida entre quem cantava junto à frente do palco e quem, mais atrás, continuava entre copos, conversas e comida.

Aurea fecha o segundo dia com energia e versões

Aurea entrou já com a noite composta e o recinto entregue ao último grande fôlego. A cantora portuguesa tem a vantagem de quem sobe ao palco e ocupa de imediato o espaço, não só pela voz, mas pela segurança. Depois de uma jornada marcada por calor, vinho, movimento e lembranças, trouxe energia de fecho. Entre temas próprios bem conhecidos e versões, incluindo "Rolling in the Deep", de Adele, puxou por quem ainda tinha corpo para mais de uma hora de música.

A festa pós-concerto voltou a entregar a Rui Pregal da Cunha o comando da noite, já depois dos concertos principais. Nessa altura, o calor começava finalmente a abrandar, embora ninguém pudesse dizer que tinha desaparecido. Ficavam grupos junto às bancas, conversas longas, passos mais lentos e telemóveis no ar para guardar uma última imagem.

No final, o segundo dia confirmou a receita do festival: música familiar, vinho da região, gastronomia com identidade e uma paisagem que não precisa de se esforçar para estar presente. O Douro não foi apenas pano de fundo: esteve ali o tempo todo - nas encostas, no calor, nos copos, na comida e na forma como as pessoas ficaram mais um pouco do que talvez tivessem previsto.

O Porto Comercial de Cambres regressou ao silêncio habitual já tarde. Mas não era um silêncio vazio: era daquele que chega depois da música, quando os refrões ainda ficam na cabeça e o corpo demora a aceitar que a noite acabou.

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