Com a Páscoa a aproximar-se, é provável que já tenha reparado nos ovos de chocolate nas prateleiras do supermercado - e talvez até já tenha comprado alguns.
Mas haverá mesmo diferença entre o chocolate da Páscoa e o chocolate “do dia a dia”? E será que o chocolate da Páscoa sabe realmente melhor, como algumas pessoas garantem?
Como veremos, quando existe diferença, ela tem menos a ver com a lista de ingredientes e mais com a forma como sentimos o chocolate no momento em que o comemos.
O que é que contêm?
Ao compararmos ingredientes e informação nutricional de chocolate de ovos da Páscoa e de chocolate normal da mesma marca, não encontrámos diferenças relevantes.
O ovo oco Cadbury Dairy Milk e a tablete Cadbury Dairy Milk apresentam, por 100 gramas:
- cerca de 2.200 quilojoules de energia
- 7g de proteína
- 31g de gordura
- 55g de açúcar
Ambos têm um mínimo de 24% de sólidos de leite. O ovo inclui uma percentagem ligeiramente superior de sólidos de cacau (28%) do que a tablete (27%).
Se a composição é praticamente idêntica, então o que explica a sensação de diferença?
Está mais ligado ao sabor, à textura e ao aroma
A distinção entre chocolate da Páscoa e chocolate normal está sobretudo na forma como percepcionamos o sabor do chocolate - através do paladar, da textura e do olfacto.
O paladar corresponde ao reconhecimento de componentes simples que se dissolvem na saliva e alcançam os poros gustativos da língua. No chocolate, tendemos a identificar o doce (açúcar), o gordo (manteiga de cacau) e, por vezes, o amargo (cafeína e outros compostos do cacau).
Ainda assim, é na textura e no aroma que, com maior probabilidade, notamos diferenças entre chocolate de Páscoa e chocolate normal.
A boca é extremamente sensível à textura dos alimentos. Captamos várias características físicas - aquilo a que chamamos "sensação na boca".
A suavidade, a cremosidade e o revestimento que o chocolate deixa na boca (por exemplo, uma sensação mais oleosa) são elementos importantes dessa experiência.
Além disso, muitos consumidores esperam que o chocolate com formato arredondado seja mais cremoso do que o chocolate com formas angulares.
Ou seja, antes mesmo de provar, é comum assumirmos que um ovo de chocolate será mais cremoso do que uma tablete. Estas expectativas podem influenciar a forma como avaliamos o sabor.
No entanto, se o ovo não corresponder à cremosidade antecipada, isso pode traduzir-se em desilusão.
A textura também é afectada pela temperatura a que o chocolate é produzido e armazenado. Por vezes surge uma película esbranquiçada à superfície, conhecida como “fat bloom” ou “sugar bloom”, quando a gordura e o açúcar se separam e formam cristais de gordura ou de açúcar.
Comer chocolate com esse "bloom" é seguro, mas o sabor pode parecer menos cremoso ou mais arenoso do que o chocolate sem "bloom".
Como a procura é muito elevada na Páscoa, alguns fabricantes recorrem por vezes a técnicas de arrefecimento rápido para acelerar a produção de ovos ocos. Isso pode torná-los mais propensos a desenvolver "bloom".
Os chocolates de Páscoa mais baratos, produzidos com estes processos rápidos, podem apresentar uma textura diferente da do chocolate feito por métodos mais tradicionais.
Por fim, o olfacto é o factor que mais pesa na forma como percebemos o sabor dos alimentos. Quando o chocolate começa a derreter na boca, libertam-se aromas que sobem pela parte posterior do nariz, permitindo-nos captar notas complexas. Consoante o chocolate, podem surgir aromas frutados, terrosos, amanteigados ou florais.
A forma do chocolate
Já vimos que o formato influencia a cremosidade que esperamos sentir. Mas a forma do chocolate também altera outros aspectos da experiência ao comer.
Chocolate de Páscoa moldado como ovo ou animal tem uma grande área de contacto dentro da boca, pelo que tende a derreter mais depressa do que uma tablete. Isso mexe com a rapidez com que os compostos aromáticos são libertados.
Morder chocolate oco, como ovos e figuras de animais, também pode exigir mais tempo para mastigar e engolir. Como o chocolate permanece mais tempo na boca, há maior libertação de aromas. Assim, é frequente percebermos uma maior intensidade ou diversidade de sabores do que quando comemos pequenos quadrados de chocolate.
É de deixar derreter ou de mastigar?
A forma como cada pessoa come chocolate também pode alterar o sabor percebido. Um estudo agrupou os consumidores de chocolate em "chupadores" e "mastigadores".
Os "mastigadores" costumam engolir mais depressa e podem achar que o sabor é menos intenso, porque há menos tempo para os aromas se libertarem.
Por isso, a maneira como alguém come chocolate da Páscoa pode influenciar se o prefere ao chocolate normal.
A Páscoa só acontece uma vez por ano
Por último, comer ovos da Páscoa (e procurá-los) é muitas vezes parte de um ritual familiar partilhado, o que pode tornar este chocolate mais especial. Não admira que a experiência completa da Páscoa seja tão apreciada.
Assim, quer seja "chupador" ou "mastigador", a Páscoa é uma boa altura para abrandar e celebrar com quem mais gosta. Desfrute e saboreie o seu chocolate da Páscoa com moderação, em forma de ovo ou noutra qualquer.
Margaret Murray, Professora Auxiliar, nutrição, Swinburne University of Technology e Andrew Costanzo, Professor Auxiliar em ciências da alimentação e nutrição, Deakin University
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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