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Calêndula: a flor que pode substituir a carne

Carne crua numa balança, pétalas de flores e panela com mistura de pétalas numa mesa de madeira.

É uma das flores mais comuns, daquelas que dão cor aos canteiros municipais e aos jardins privados. Estimada pelas tonalidades vivas e pelas pétalas abundantes, acaba de revelar, aos olhos dos investigadores, um forte argumento para substituir a carne nos nossos pratos.

Devido ao seu pesado impacte ambiental, a carne foi perdendo lentamente o seu prestígio à medida que a respetiva cadeia se industrializou, sobretudo desde a década de 1970, período que assinalou a era do consumo excessivo em massa. O mercado das proteínas vegetais cresceu de forma acentuada, tal como o dos seus substitutos na passagem da década de 2010 para a de 2020, impulsionado por marcas como Beyond Meat ou Impossible Foods. Outras empresas, como a Cocuus, apostaram mesmo na impressão 3D de carne, enquanto o consumo de insetos é também encarado por parte da comunidade científica como uma alternativa sustentável e de elevado valor nutricional para suprir as necessidades proteicas da população mundial.

Proteínas vegetais muito antes dos substitutos modernos

Abdicar da carne e obter proteínas a partir de plantas é, contudo, uma prática tão antiga como a própria agricultura: há mais de um milénio que os monges budistas se alimentam de seitan e soja; a gastronomia mediterrânica desenvolveu-se em torno das lentilhas e do grão-de-bico; a quinoa sustentou as civilizações andinas durante 5 000 anos; e muitos países da África Ocidental alimentam-se com feijão-frade ou amendoim. Na Europa, também comíamos urtigas quando a carne escasseava nas bancas durante as grandes guerras do século XX.

Uma equipa da Universidade da Geórgia, em colaboração com o Instituto Indiano de Tecnologia de Deli, acaba de acrescentar mais um nome a esta lista: a calêndula (Calendula officinalis). Segundo os investigadores, esta vistosa flor ornamental poderá competir com as melhores fontes vegetais. No estudo publicado em 2 de abril de 2026 na revista ACS Food Science & Technology, Anand Mohan, que coordenou o trabalho, e o seu doutorando Fidele Benimana, primeiro autor, indicam que a calêndula tem um teor de proteínas equivalente ao da quinoa.

Uma flor com tanto valor como a carne

Embora o valor proteico da calêndula seja já uma vantagem, isso não basta para a transformar numa matéria-prima que uma empresa possa eventualmente comercializar, por exemplo sob a forma de massa. Falta-lhe uma segunda característica: as suas proteínas têm de resistir à degradação durante a cozedura. Quando ultrapassam determinada temperatura, as proteínas desnaturam-se e perdem a capacidade de dar textura; sem essa propriedade, a massa não se mantém unida, não consegue crescer ou desfaz-se ao cozinhar.

De acordo com os investigadores, as proteínas da calêndula suportam temperaturas até 105 °C, um resultado bastante satisfatório, superior ou equivalente ao de outros vegetais, como a ervilha ou o grão-de-bico.

Algumas proteínas, devido à sua composição de aminoácidos, poderão até proporcionar um sabor *umami* - o quinto sabor - que evoca caldo ou carne. Está presente em muitos alimentos, incluindo molho de soja, queijos curados, cogumelos e tomates maduros ou cozinhados.

Outras favorecem a emulsificação, ou seja, a capacidade de manter misturados água e óleo, que por si só se separam. Das quatro grandes famílias isoladas pelos investigadores - albumina, globulina, glutelina e prolamina - duas revelaram-se especialmente eficazes, o que poderá torná-las úteis para ligar preparações como molhos para salada ou substitutos de produtos lácteos. «O que mais me entusiasma neste trabalho é que desafia a nossa forma de olhar para as flores. A maioria das pessoas vê a calêndula como uma planta decorativa, mas ela também contém proteínas com propriedades funcionais únicas, valiosas para a formulação de alimentos», explica Benimana.

Porque é que a calêndula ainda não vai salvar o mundo

Para Mohan, integrar a calêndula em grande escala na cadeia agroalimentar permitiria ainda resolver outro problema: o desperdício. «Todos os anos, flores no valor de milhares de milhões de dólares acabam no lixo. Imagine-se que fosse possível recuperá-las para produzir alimentos», salienta. Em teoria, a reciclagem de toda essa biomassa ajudaria a atenuar, ainda que apenas marginalmente, a pressão sobre a produção alimentar mundial.

Os terrenos agrícolas são cada vez mais escassos e a população mundial continuará a aumentar até meados da década de 2080, o que obrigará inevitavelmente a indústria alimentar a procurar novas fontes de proteína. Talvez a calêndula venha um dia a integrar essa resposta, mas, por enquanto, nada o indica: os autores limitaram-se a demonstrar que esta flor possui algum potencial nutricional, sem terem ido além disso.

O setor dos substitutos proteicos já deixou para trás outros candidatos muito mais avançados industrialmente do que a calêndula - isolados vegetais, farinhas de insetos, carnes ou peixes artificiais -, o que prova que um bom perfil nutricional não assegura nada. Além disso, a aceitação cultural é outra batalha que poderá revelar-se muito difícil: convencer milhões de pessoas de que podem alimentar-se de hambúrgueres vegetais ou pão enriquecido com proteínas de calêndula também poderá... ser uma calêndula.

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