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Alimentos ultraprocessados: nem todos são prejudiciais à saúde

Mulher a fazer compras em supermercado, segurando caixa de massa sem glúten e carrinho com legumes e ovos.

Durante anos, as pessoas ouviram o mesmo conselho alimentar: os alimentos integrais são saudáveis e os alimentos processados não são saudáveis.

A mensagem parece simples e fácil de seguir. Fruta e legumes frescos são bons. Produtos embalados são maus.

No entanto, os cientistas estão agora a concluir que a realidade é bem mais complexa.

Novas investigações indicam que nem todos os alimentos ultraprocessados têm o mesmo efeito no organismo. Alguns estão claramente associados a problemas de saúde, enquanto outros podem, de facto, contribuir para uma alimentação saudável.

Por esse motivo, investigadores e especialistas em saúde começam a reconsiderar a forma como estes alimentos devem ser encarados.

Uma categoria que esconde diferenças

A expressão “alimento ultraprocessado” tem origem num sistema denominado NOVA. Refere-se a alimentos produzidos com ingredientes, aditivos ou processos industriais que normalmente não são utilizados na cozinha doméstica.

O problema é que esta categoria abrange uma enorme variedade de produtos. Refrigerantes, cachorros-quentes, bolachas embaladas, pão integral, cereais de pequeno-almoço, barras proteicas e hambúrgueres de origem vegetal podem todos ser classificados como alimentos ultraprocessados.

Isto gera confusão, porque estes alimentos são muito diferentes entre si.

Os alimentos processados não são todos iguais

Em vez de considerarem todos os alimentos ultraprocessados como um único grupo, os investigadores começaram a analisar subgrupos mais pequenos. Quando o fizeram, surgiram padrões importantes.

Os estudos concluíram que as bebidas açucaradas e as carnes processadas, como bacon, cachorros-quentes e carnes frias, estão associadas a riscos mais elevados de doença cardíaca e diabetes de tipo 2.

Em simultâneo, alguns alimentos da mesma categoria de ultraprocessados, como pães integrais e determinados cereais, foram associados a riscos de saúde mais baixos.

Isto indica que o processamento, por si só, pode não determinar se um alimento é saudável ou não.

Os alimentos ultraprocessados de origem vegetal têm melhor desempenho

Há uma tendência que continua a surgir na investigação. Os alimentos ultraprocessados de origem vegetal parecem frequentemente ser mais saudáveis do que os alimentos ultraprocessados de origem animal.

Produtos como pão integral, cereais enriquecidos e algumas alternativas vegetais à carne apresentam, em geral, melhores resultados nos estudos do que as carnes processadas.

As bebidas açucaradas continuam a ser uma das maiores preocupações.

“Muitas pessoas foram aconselhadas a evitar alimentos processados, mas a ciência diz-nos claramente que temos de adoptar uma abordagem mais ponderada”, afirmou Noah Praamsma, dietista registado do Comité de Médicos para a Medicina Responsável.

“As carnes processadas, como bacon, cachorros-quentes e carnes frias, devem absolutamente ser evitadas, mas muitos alimentos de origem vegetal considerados ultraprocessados, como pães, cereais e alternativas à carne, são na realidade benéficos para a saúde.”

Propostas de novas regras

Um relatório recente da Investigação sobre Alimentação Saudável defende que as políticas de nutrição devem corresponder melhor à ciência.

O grupo propôs que alguns alimentos ultraprocessados não sejam tratados da mesma maneira que produtos pouco saudáveis, como refrigerantes ou carne processada.

Os alimentos com nutrientes úteis e menores quantidades de açúcar, sódio e gordura saturada poderiam receber um tratamento diferente.

A ideia consiste em distinguir os alimentos embalados mais saudáveis dos produtos fortemente associados a doenças.

Políticas baseadas na ciência

O Governo dos Estados Unidos está actualmente a desenvolver uma definição oficial de alimentos ultraprocessados. Essa definição poderá influenciar as refeições escolares, os rótulos dos alimentos, os impostos e as regras de publicidade.

Uma definição demasiado abrangente poderia colocar cereais saudáveis e hambúrgueres de origem vegetal na mesma categoria que bebidas açucaradas e cachorros-quentes.

“Precisamos de políticas baseadas na ciência, e não na ideologia, que sejam suficientemente sólidas para promover realmente alimentos benéficos e desencorajar alimentos pouco saudáveis”, afirmou Praamsma.

A mudança na conversa sobre alimentos ultraprocessados

As principais organizações de saúde também estão a alterar a forma como abordam os alimentos ultraprocessados.

Em 2025, a Associação Americana do Coração declarou que nem todos os alimentos ultraprocessados são pouco saudáveis e que alguns podem integrar uma alimentação equilibrada.

Uma declaração desse tipo teria sido invulgar há alguns anos.

Os conselhos nutricionais tornam-se frequentemente populares por serem fáceis de memorizar. “Evite alimentos processados” é um exemplo. Porém, conselhos simples nem sempre reflectem a ciência real.

Uma fatia de pão integral e um cachorro-quente podem ambos ser considerados alimentos ultraprocessados, mas não parecem afectar o organismo da mesma forma.

Tratá-los como equivalentes pode confundir os consumidores e tornar os conselhos alimentares menos úteis.

Uma abordagem mais cuidadosa

Os investigadores estão agora a olhar para além dos rótulos simples. Em vez de perguntarem apenas de que modo um alimento é processado, também analisam os nutrientes que contém e o impacto que tem na saúde a longo prazo.

Esta abordagem pode não caber num slogan curto, mas os cientistas acreditam que poderá conduzir a melhores recomendações nutricionais no futuro.

A investigação crescente sobre alimentos ultraprocessados mostra que a questão não é tão simples como “processado é igual a mau”.

Alguns alimentos processados podem continuar a ter lugar numa alimentação saudável, enquanto outros permanecem uma preocupação importante.

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