Um em cada três adultos australianos tem pressão arterial elevada, ou hipertensão. O excesso de sal (sódio) aumenta o risco desta doença, pelo que todas as pessoas com hipertensão são aconselhadas a reduzir o sal na alimentação.
No entanto, apesar de décadas de recomendações insistentes, não se conseguiu que os australianos diminuíssem o consumo. É difícil alterar a forma de cozinhar, temperar os alimentos de outra maneira, escolher produtos com pouco sal nas prateleiras dos supermercados e habituar-se a um sabor menos salgado.
Existe agora uma solução simples e eficaz: o sal enriquecido com potássio. Pode ser utilizado da mesma forma que o sal comum e a maioria das pessoas não nota uma diferença significativa no sabor.
Substituir o sal comum pela versão enriquecida com potássio é viável, ao contrário do que acontece com a redução do consumo de sal. A nossa nova investigação conclui que as orientações clínicas para a hipertensão devem recomendar claramente aos doentes que façam essa substituição.
O que é o sal enriquecido com potássio?
Nos sais enriquecidos com potássio, parte do cloreto de sódio que compõe o sal comum é substituída por cloreto de potássio. Estes produtos também são designados por sal com baixo teor de sódio, sal de potássio, sal para o coração, sal mineral ou sal com teor reduzido de sódio.
O cloreto de potássio tem o mesmo aspeto que o cloreto de sódio e um sabor muito semelhante.
O sal enriquecido com potássio ajuda a baixar a pressão arterial não só por reduzir a ingestão de sódio, mas também por aumentar a de potássio. A ingestão insuficiente de potássio, proveniente sobretudo da fruta e dos produtos hortícolas, é outra das principais causas de pressão arterial elevada.
O que mostram as provas sobre o sal enriquecido com potássio?
Um ensaio aleatorizado com 20.995 pessoas fornece provas robustas de que a mudança para sal enriquecido com potássio baixa a pressão arterial e reduz o risco de acidente vascular cerebral (AVC), enfarte e morte prematura. Os participantes tinham antecedentes de AVC ou tinham 60 anos ou mais e pressão arterial elevada.
Uma análise de outros 21 estudos sugere que grande parte da população mundial poderia beneficiar do sal enriquecido com potássio.
No seu relatório mundial de 2023 sobre hipertensão, a Organização Mundial da Saúde destacou o sal enriquecido com potássio como uma «estratégia acessível» para baixar a pressão arterial e prevenir acontecimentos cardiovasculares, como os AVC.
O que devem recomendar as orientações clínicas?
Em conjunto com investigadores dos Estados Unidos, Austrália, Japão, África do Sul e Índia, analisámos 32 orientações clínicas de todo o mundo sobre a gestão da pressão arterial elevada. Os resultados são publicados hoje na revista Hypertension, da Associação Americana do Coração.
Concluímos que as orientações atuais não apresentam recomendações claras e coerentes sobre a utilização de sal enriquecido com potássio.
Embora muitas aconselhem o aumento da ingestão de potássio na alimentação e todas mencionem a redução do consumo de sódio, apenas duas - as orientações chinesas e as europeias - recomendam o uso de sal enriquecido com potássio.
Para ajudar a incorporar os dados mais recentes nas orientações, propusemos uma formulação específica que poderia ser adotada na Austrália e no resto do mundo:
Porque são tão poucas as pessoas que o utilizam?
A maioria das pessoas desconhece a quantidade de sal que consome ou os problemas de saúde que esta pode causar. Poucas sabem que uma simples mudança para sal enriquecido com potássio pode ajudar a baixar a pressão arterial e a reduzir o risco de AVC e de doença cardíaca.
A disponibilidade limitada é outro obstáculo. Vários retalhistas australianos vendem sal enriquecido com potássio, mas normalmente existe apenas uma marca, muitas vezes colocada na prateleira inferior ou num corredor de alimentos especiais.
Os sais enriquecidos com potássio também são mais caros do que o sal comum. Ainda assim, continuam a ter um preço baixo em comparação com a maioria dos outros alimentos e são menos dispendiosos do que muitos dos sais sofisticados atualmente à venda.
Uma análise de 2021 concluiu que os sais enriquecidos com potássio eram comercializados em apenas 47 países, sobretudo de rendimento elevado. Os preços variavam entre o mesmo valor do sal comum e quase 15 vezes mais.
Apesar de ser geralmente mais caro, o sal enriquecido com potássio tem potencial para ser muito custo-efetivo na prevenção de doenças.
Prevenir efeitos prejudiciais
Uma preocupação frequentemente levantada quanto ao uso de sal enriquecido com potássio é o risco de níveis elevados de potássio no sangue, ou hipercaliemia, em cerca de 2% da população que tem doença renal grave.
As pessoas com doença renal grave já são aconselhadas a evitar o sal comum e os alimentos ricos em potássio.
Até à data, nenhum ensaio registou efeitos prejudiciais associados ao sal enriquecido com potássio. Contudo, todos os estudos foram realizados em contexto clínico, com orientações específicas para pessoas com doença renal.
A nossa prioridade atual é incentivar as pessoas acompanhadas por hipertensão a utilizar sal enriquecido com potássio, uma vez que os profissionais de saúde podem desaconselhar o seu uso a quem esteja em risco de hipercaliemia.
Em alguns países, o sal enriquecido com potássio é recomendado a toda a população, devido à dimensão dos potenciais benefícios. Um estudo de modelação mostrou que, se a população chinesa fizesse esta mudança, seriam evitados quase meio milhão de AVC e enfartes por ano na China.
O que acontecerá a seguir?
Em 2022, o ministro da Saúde lançou o Grupo de Trabalho Nacional para a Hipertensão, que pretende elevar as taxas de controlo da pressão arterial na Austrália de 32% para 70% até 2030.
O sal enriquecido com potássio pode desempenhar um papel fundamental neste objetivo. Estamos a trabalhar com o grupo para atualizar as orientações australianas de gestão da hipertensão e divulgá-las junto dos profissionais de saúde.
Ao mesmo tempo, é necessário tornar o sal enriquecido com potássio mais acessível. Estamos em contacto com as partes interessadas para aumentar a disponibilidade destes produtos em todo o país.
O mundo já alterou uma vez o sal que disponibiliza: passou do sal comum para o sal iodado. Os esforços de iodação começaram na década de 1920 e demoraram quase 100 anos a ganhar expressão. A iodação do sal é uma das principais conquistas de saúde pública do século passado, pois previne o bócio, uma condição em que a glândula tiroide aumenta de tamanho, e melhora os resultados educativos de milhões das crianças mais pobres do mundo. O iodo é essencial para o crescimento normal e o desenvolvimento cerebral.
A próxima mudança, para sal iodado e enriquecido com potássio, oferece pelo menos o mesmo potencial de ganhos para a saúde mundial. Mas é necessário concretizá-la numa fração desse tempo.
Xiaoyue Xu (Luna), docente Scientia, UNSW Sydney; Alta Schutte, professora SHARP de Medicina Cardiovascular, UNSW Sydney; e Bruce Neal, diretor executivo do Instituto George Austrália, Instituto George para a Saúde Global.
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário