Uma nova análise concluiu que a maioria das maçãs analisadas em vários países europeus continha resíduos de vários pesticidas em simultâneo, com 85% das amostras a apresentarem mais do que um.
Este resultado transforma uma fruta do dia a dia num exemplo claro de como a exposição alimentar habitual pode avançar mais depressa do que a forma como a segurança continua a ser avaliada.
Testes a maçãs revelam pesticidas
À primeira vista, nada distinguia estas maçãs da fruta brilhante e bem apresentada que, todas as semanas, enche as caixas e prateleiras dos supermercados por toda a Europa.
A recolha e coordenação das amostras foi conduzida pela Pesticide Action Network Europe (PAN Europe), em colaboração com parceiros, para analisar 59 maçãs produzidas localmente em 13 países.
Um dos relatórios desta campanha detetou resíduos em praticamente todas as amostras, e houve casos em que uma única maçã mostrou a presença de sete pesticidas ao mesmo tempo.
Este padrão fez com que uma escolha aparentemente simples no momento de comprar passasse a levantar uma questão regulatória mais complexa sobre o que deve ser considerado uma exposição aceitável.
Riscos da exposição combinada
A existência de vários resíduos é relevante porque as pessoas não consomem pesticidas isoladamente, e o organismo também não os metaboliza como se viessem um a um.
Para lidar com este cenário, as autoridades recorrem à avaliação de risco cumulativo - um método que estima o impacto conjunto quando diferentes substâncias afetam os mesmos órgãos.
A legislação europeia prevê este tipo de verificação, mas a Comissão afirma que o método ainda está a ser desenvolvido em conjunto com os Estados-Membros.
Entretanto, mantém-se uma dúvida central: o que podem causar, ao longo de anos de consumo, misturas repetidas em doses baixas.
O problema dos PFAS
Um alerta adicional surgiu com os PFAS - químicos muito persistentes, que se degradam de forma extremamente lenta - identificados em 64% das amostras.
Por serem tão duradouros, estes compostos podem ficar no solo e na água e, muito depois das pulverizações, voltar a entrar na cadeia alimentar.
O levantamento da PAN Europe encontrou ainda oito pesticidas PFAS nas maçãs, e todos os países participantes apresentaram pelo menos uma amostra contaminada.
Esta persistência ajuda a explicar por que motivo os especialistas se preocupam com resíduos capazes de ultrapassar uma única época agrícola.
Crianças enfrentam riscos mais elevados
A comparação com alimentos para bebé tornou o tema mais sensível, porque as regras de resíduos para crianças pequenas são muito mais apertadas.
Nas regras da UE para alimentos processados destinados a bebés, o limite padrão situa-se em cerca de 0.0045 miligramas por libra, ou 0.01 miligramas por quilograma, para resíduos.
O relatório indica que 93% das amostras de maçã não cumpririam os limites mais rigorosos aplicados aos alimentos processados para bebés.
Isto não significa que maçãs frescas e puré em frasco apresentem riscos idênticos, mas evidencia o nível de proteção associado aos padrões para lactentes.
Pesticidas mais arriscados continuam em uso
Outro sinal de preocupação veio da lista da UE de pesticidas classificados como Candidatos à Substituição. Trata-se das substâncias mais tóxicas que, sempre que existam alternativas mais seguras com a mesma eficácia, os reguladores devem priorizar para substituição.
Nas amostras de maçã, 71% continham pesticidas que poderiam ser substituídos por outros químicos ou por soluções alternativas.
A frequência com que surgiram sugere, para os críticos, que o sistema permite que substâncias mais antigas e mais perigosas permaneçam em utilização durante muito mais tempo do que consideram aceitável.
Com isso, a discussão deixou de ser apenas sobre a contagem de resíduos e passou a centrar-se na questão mais difícil: porque é que a substituição tem avançado tão lentamente.
Riscos para o cérebro associados a pesticidas
Entre os químicos assinalados, pesticidas neurotóxicos - substâncias que podem afetar o cérebro e o sistema nervoso - foram detetados em 36 percent das maçãs.
Alguns destes compostos podem interferir com a transmissão de sinais nervosos, o que significa que cérebros em desenvolvimento podem ser mais vulneráveis do que organismos adultos.
Por esse motivo, é importante que limites mais exigentes para pesticidas se apliquem aos alimentos destinados ao consumo por crianças.
Esta realidade também ajuda a compreender a preocupação de especialistas com misturas que incluem até pequenas quantidades de químicos direcionados ao sistema nervoso.
Porque é que as maçãs são pulverizadas
Os pomares de maçã enfrentam pressão constante de fungos, insetos e perdas durante o armazenamento, levando muitos produtores a pulverizar repetidamente ao longo da época.
Como o fruto permanece nas árvores durante meses, mesmo pequenas manchas ou sinais de podridão podem comprometer o aspeto, a vida útil e as vendas.
A PAN Europe afirma que, em média, as maçãs produzidas de forma convencional na Europa são pulverizadas cerca de 30 vezes por ano.
Esta rotina intensiva ajuda a perceber porque é que os resíduos continuam a ser frequentes, mesmo quando cada aplicação, isoladamente, respeita um limite legal distinto.
Descascar reduz resíduos
Grande parte dos resíduos não fica apenas à superfície, razão pela qual uma lavagem rápida não resolve tudo.
Um estudo sobre maçãs concluiu que lavar remove sobretudo resíduos superficiais, enquanto os que estão mais entranhados permanecem retidos na casca.
Descascar é mais eficaz porque elimina a camada exterior onde muitos pesticidas se acumulam após pulverizações ou tratamentos de armazenamento.
Este conselho diminui a exposição, mas também retira fibra e outros nutrientes que tendem a concentrar-se perto da pele.
Comparação com maçãs biológicas
As maçãs biológicas representam a alternativa mais evidente neste debate, já que as normas do modo de produção biológico proíbem a maioria dos pesticidas sintéticos.
Ainda assim, deriva, contaminação antiga e linhas de embalamento podem deixar vestígios, pelo que o biológico não garante um teste totalmente limpo.
Para pais que pretendem reduzir rapidamente a exposição, a recomendação prática do inquérito foi dar prioridade a maçãs biológicas locais.
Trata-se de uma orientação útil, mas não de uma solução completa, porque os resíduos no conjunto do abastecimento alimentar continuam dependentes de práticas agrícolas e de decisões políticas.
Futuro da segurança das maçãs
O que se destaca não é uma única maçã “má”, mas um sistema de produção que continua a sobrepor camadas de químicos numa fruta de consumo básico.
Testes mais rigorosos, decisões mais rápidas sobre substâncias perigosas e orientações mais claras para as famílias reduziriam a incerteza antes da próxima colheita.
Os detalhes do estudo estão publicados online pela Pesticide Action Network, Europe.
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