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Um estudo da Keck Medicine of USC alerta: uma noite de consumo excessivo pode prejudicar o fígado

Jovem a beber bebidas alcoólicas, segurando o estômago, com imagem do fígado destacado na cozinha com amigos ao fundo.

Uma sexta-feira à noite entre amigos, com música e mais alguns copos, pode parecer uma rotina normal. Para muita gente, é um guião conhecido.

Há quem passe a semana sem beber e, ao fim de semana, compense com mais álcool. À primeira vista, soa a equilíbrio e a controlo. Só que o corpo não interpreta isso como “equilíbrio”.

Um novo estudo da Keck Medicine of USC mostra que basta um único dia de consumo excessivo por mês para prejudicar o fígado.

O mais inesperado é que esse perigo existe mesmo quando, no resto do tempo, a pessoa quase não bebe.

O que significa “consumo excessivo”?

Consumo excessivo não é um termo reservado a quem bebe diariamente. Também pode descrever quem ingere muitas bebidas numa única ocasião. Nas mulheres, isso corresponde a 4 ou mais bebidas num dia. Nos homens, a fasquia é 5 ou mais.

Pense num aniversário ou num casamento: alguém pode não ter o hábito de beber, mas, naquele dia, ultrapassar facilmente esse limite. E esse único dia já conta como consumo excessivo.

Muitas pessoas partem do princípio de que, por acontecer raramente, não traz consequências. No entanto, o organismo reage de forma intensa a esse episódio.

É como manter uma alimentação saudável durante toda a semana e, num só momento, exagerar na comida pouco nutritiva. O impacto existe na mesma. Com o álcool, a lógica é semelhante.

O fígado não consegue lidar com a sobrecarga

O fígado funciona como um sistema de “limpeza”. Decompõe o álcool e ajuda a eliminar substâncias nocivas do organismo. Quando o álcool chega em quantidades pequenas, costuma conseguir dar conta do recado sem grande dificuldade.

Agora imagine despejar, de uma vez, um balde de água dentro de um tubo estreito. O tubo não aguenta aquele caudal repentino. Da mesma forma, quando entra muito álcool no corpo em pouco tempo, o fígado fica sobrecarregado.

Essa pressão súbita provoca stress no interior do fígado. Com o passar do tempo, a repetição desse stress acaba por causar lesões. O fígado começa a criar tecido cicatricial, que substitui células saudáveis, e isso dificulta o seu funcionamento normal.

O problema é que este dano se acumula lentamente, pelo que a maioria das pessoas não se apercebe nas fases iniciais.

Uma condição frequente agrava o cenário

Muitos adultos já têm gordura acumulada no fígado. Esta condição chama-se doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica, ou MASLD. É muito comum, sobretudo em pessoas com aumento de peso, diabetes ou colesterol elevado.

Pense nisto como um fígado que já está “cansado”. A acumulação de gordura obriga-o a trabalhar mais. Se, além disso, houver um dia de consumo excessivo, a dificuldade aumenta.

O estudo concluiu que pessoas com MASLD que bebem em excesso, mesmo que apenas uma vez por mês, têm um risco muito mais elevado de desenvolver lesão hepática grave. Mesmo que o álcool não tenha estado na origem da condição, pode, ainda assim, agravá-la.

Riscos do consumo excessivo de álcool

Os investigadores analisaram dados de saúde de mais de 8,000 adultos, recolhidos entre 2017 e 2023, através do National Health and Nutrition Examination Survey.

Em vez de se limitarem a somar quantas bebidas cada pessoa consumia numa semana, avaliaram a forma como essas bebidas eram ingeridas.

As conclusões foram claras - e, em certa medida, surpreendentes. Quem bebia uma grande quantidade num único dia pelo menos uma vez por mês tinha quase três vezes mais probabilidade de desenvolver lesão hepática grave do que quem consumia o mesmo total, mas distribuído ao longo do tempo.

Isto significa que duas pessoas podem beber o mesmo número de bebidas numa semana, mas aquela que concentra tudo numa só noite fica muito mais exposta ao risco.

“Este estudo é um enorme alerta, porque tradicionalmente os médicos tendem a olhar para a quantidade total de álcool consumido, e não para a forma como é consumido, ao determinar o risco para o fígado”, afirmou o Dr. Brian P. Lee, investigador principal do estudo.

“A nossa investigação sugere que o público precisa de estar muito mais consciente do perigo do consumo excessivo ocasional e deve evitá-lo, mesmo que beba moderadamente no resto do tempo.”

Porque é que uma única noite pesada pesa mais

Quando o álcool entra no organismo de forma lenta, o fígado tem margem para o processar etapa a etapa.

Mas quando entra muito álcool de uma só vez, o fígado é obrigado a trabalhar a um ritmo acelerado. Isso gera mais stress e pode causar mais dano num intervalo curto.

O estudo também indicou que os adultos mais jovens e os homens eram mais propensos a beber desta forma. E quanto maior o número de bebidas numa única ocasião, maior o nível de lesão observado.

Mais pessoas estão em risco agora

Nos últimos anos, os problemas hepáticos ligados ao álcool aumentaram de forma acentuada. Muitas pessoas passaram a beber mais e, em paralelo, condições como obesidade e diabetes tornaram-se mais frequentes.

O resultado é uma combinação perigosa: um fígado que já está sob pressão fica ainda mais sensível aos efeitos do álcool.

Mais de metade dos adultos analisados no estudo referiu este tipo de consumo excessivo pelo menos de vez em quando. Ou seja, não se trata de um hábito raro - é algo que muitos fazem sem lhe dar grande importância.

Padrões de consumo mais seguros

Este estudo contraria uma ideia muito comum. Mostra que respeitar limites semanais nem sempre chega. Um único dia de consumo excessivo pode, ainda assim, prejudicar o fígado, mesmo que o resto da semana pareça “saudável”.

Alguns ajustes simples podem reduzir o risco. Evitar grandes quantidades numa só ocasião ajuda. Distribuir as bebidas ao longo do tempo e ter em conta condições de saúde já existentes pode proteger o fígado.

O corpo não apaga o registo daquela noite pesada. Guarda-o, mesmo que aconteça apenas de vez em quando.

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