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Adoçantes artificiais e controlo da glicemia: o que mostram os ensaios clínicos

Mão a adicionar adoçante ao café em copo transparente numa mesa com medidor de glicose e cubos de açúcar.

Os adoçantes artificiais são frequentemente promovidos como uma alternativa mais saudável ao açúcar, sobretudo para quem procura controlar o peso ou reduzir o risco de diabetes.

Como têm poucas ou nenhumas calorias, é comum assumir-se que ajudam o organismo a regular a glicemia.

Uma nova revisão de ensaios clínicos indica, contudo, que a realidade pode ser mais complexa.

Os investigadores observaram que vários substitutos do açúcar usados no dia a dia foram associados a pior regulação do açúcar no sangue, mesmo quando comparados com água ou com um placebo sem calorias.

Isto levanta dúvidas sobre a possibilidade de os próprios adoçantes influenciarem o metabolismo.

Olhar para lá das comparações com açúcar

Durante décadas, os testes aos substitutos do açúcar colocaram-nos, na maioria das vezes, frente a frente com o próprio açúcar.

Esse tipo de comparação tende a favorecer o substituto, porque ao retirar açúcar também se reduzem calorias, e a diminuição calórica, por si só, melhora a glicemia.

A professora Meng Wang, da Escola Friedman de Ciência e Política da Nutrição, na Universidade Tufts, e a sua equipa decidiram eliminar esse enviesamento.

Para isso, reuniram dados de 21 ensaios clínicos aleatorizados que comparavam adoçantes com opções sem calorias, como água ou um placebo.

No conjunto desses ensaios, as pessoas que consumiram os adoçantes acabaram por apresentar insulina em jejum mais elevada e HbA1c mais alta - um marcador de controlo da glicemia a longo prazo - do que os participantes dos grupos de comparação.

Ambos os marcadores apontaram na mesma direcção. A sensibilidade à insulina, que reflecte quão facilmente o açúcar é removido da corrente sanguínea, também piorou, embora com evidência menos consistente.

Isolar o efeito

Ao isolar os adoçantes desta forma, tornou-se visível um efeito directo que as comparações baseadas no açúcar tinham deixado diluído.

Os efeitos individuais foram modestos e nem todos os ensaios chegaram às mesmas conclusões, mas o resultado agregado preocupou a equipa. Em conjunto, esses dados dão maior robustez ao achado global.

“Quando juntamos os resultados de ensaios individuais, vemos sinais de que estes compostos podem ter efeitos metabólicos nocivos”, afirmou Wang, uma das autoras.

O papel das bactérias intestinais

Uma explicação possível para este efeito pode estar mais abaixo, no intestino. Ao contrário do açúcar, muitos adoçantes não são totalmente absorvidos na parte superior do tubo digestivo.

Por essa razão, seguem viagem e entram em contacto com os biliões de bactérias que constituem o microbioma intestinal.

Um ensaio de 2022 incluído na revisão testou esta hipótese de forma directa. Os investigadores deram adoçantes comuns a 120 adultos saudáveis durante duas semanas e, depois, caracterizaram com grande detalhe as bactérias intestinais.

Dois deles - a sacarina e a sucralose - agravaram de forma mensurável a maneira como os voluntários metabolizaram uma dose de açúcar.

Uma via provável

Quando os cientistas transplantaram as bactérias intestinais dos voluntários para ratos criados sem germes, os animais passaram a apresentar as mesmas alterações da glicemia que os seus dadores humanos.

Esta passagem de humano para rato é o indício mais forte de que poderão ser as bactérias, e não apenas o adoçante por si só, a conduzir o efeito.

Ainda assim, fica aquém de provar que o mesmo mecanismo aconteça em pessoas em condições do quotidiano. A revisão é prudente e descreve o microbioma como uma via provável, não como uma certeza.

Indícios de estudos de grande escala

Para lá dos ensaios, a revisão analisa também grandes estudos observacionais que acompanham a alimentação das pessoas ao longo de anos.

Em geral, estes trabalhos concluem que utilizadores regulares de substitutos do açúcar têm maior probabilidade de desenvolver diabetes tipo 2 e doença cardíaca do que quem não os utiliza.

Um estudo de coorte francês que seguiu mais de 100 000 adultos relacionou uma ingestão mais elevada de adoçantes com um risco acrescido de diabetes.

Mas há um senão. As pessoas que já estão preocupadas com o peso ou com a glicemia são também as que têm mais probabilidade de mudar para estes produtos logo à partida.

Um adoçante destaca-se

Agrupar todos os adoçantes numa só categoria pode também esconder diferenças reais, já que estes compostos são quimicamente distintos.

O eritritol, um álcool de açúcar comum em produtos de dieta cetogénica (keto) e sem açúcar, parece actuar por uma via com pouca relação com as bactérias intestinais.

Um estudo de 2023 associou níveis sanguíneos mais altos de eritritol a um risco aumentado de enfarte, AVC e coágulos sanguíneos. Ou seja, um adoçante pode contornar o intestino por completo e, ainda assim, acarretar riscos para o coração.

Os obstáculos pela frente

Aqui surge um entrave prático. Nos EUA, os rótulos são obrigados a indicar um adoçante na lista de ingredientes, mas não a quantidade, o que deixa os investigadores a estimar quanto cada pessoa consome realmente.

Dariush Mozaffarian, cardiologista no Instituto Alimentação é Medicina, na Universidade Tufts, considera que esta lacuna é um motivo para contenção, e não para alarme.

“O uso destes adoçantes, a crescer rapidamente, ultrapassou o nosso entendimento sobre os seus efeitos na saúde a longo prazo”, afirmou Mozaffarian.

Nada disto torna o açúcar mais seguro. Para alguém que bebe vários refrigerantes por dia, trocar por uma versão de baixas calorias continua a reduzir uma carga significativa, e a revisão não sugere um regresso ao açúcar.

Porque é que os investigadores recomendam cautela

O que mudou foi a presunção de base. A evidência hoje disponível sugere que estes ingredientes não são tão metabolicamente inertes como durante muito tempo se assumiu.

Muitas pessoas que os usam diariamente merecem respostas mais sólidas do que aquelas que a ciência consegue, por enquanto, dar. Para já, os investigadores aconselham prudência, em vez de defenderem uma proibição.

“Mas não podemos simplesmente assumir que são seguros e inofensivos, e evitá-los sempre que possível parece uma escolha prudente”, afirmou Mozaffarian.

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