Saltar para o conteúdo

Perdue Foods processa Soules Foods por nuggets “6 7” ligados ao meme

Dois pacotes de snacks Keng sobre um balcão de vidro num supermercado com um martelo de juiz, documentos e telemóvel.

As raízes e o sentido exato do meme “6 7” continuam a ser um mistério para grande parte de quem já passou dos 18 anos. Ainda assim, a sequência de dois algarismos transformou-se no centro de um litígio: que fabricante de nuggets de frango poderá capitalizar esta moda.

A Perdue Foods, um dos grandes nomes do setor da carne e das aves, avançou com uma ação contra a Soules Foods num tribunal federal do estado da Virgínia (Estados Unidos), acusando a concorrente de ter reproduzido este ano o conceito visual dos seus “6 7 Nuggets de Frango”.

O meme “6 7” e a inspiração para os nuggets de frango

Para quem não acompanha este fenómeno, a referência vem do meme “6 7”, que se resume, na prática, à repetição dos números 6 e 7, muitas vezes acompanhada por um gesto das mãos semelhante a um movimento de malabarismo.

Este meme é frequentemente ligado à faixa “Doot Doot (6 7)”, do rapper Skrilla, e chegou mesmo a ser citado pelo primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, e pelo Papa Leão XIV.

Lançamento dos “6 7 Nuggets de Frango” da Perdue Foods

Os nuggets congelados e panados da Perdue, moldados com a forma dos algarismos 6 e 7, foram apresentados em abril e começaram a chegar, em maio, às lojas Walmart de todo o país.

A embalagem, de cores vivas, mostra os nuggets pousados sobre um par de mãos em concha. Ao fundo surge uma ilustração de estilo divertido, repleta de rabiscos, e a composição é rematada com uma cara sorridente.

A entrada da Soules Foods e a alegação de cópia

A Perdue passou a enfrentar concorrência quando a Soules Foods anunciou, a 7 de junho (sim, 6/7 no formato de data norte-americano), que também iria lançar nuggets de frango panados em forma de 6 e 7.

Nas embalagens da Soules, os nuggets aparecem igualmente sustentados por mãos desenhadas, sobre um fundo colorido cheio de rabiscos, acompanhado por vários emojis de caras sorridentes.

Num processo entregue na semana passada, a Perdue sustenta que a Soules reproduziu de forma intencional os elementos centrais da sua identidade visual: a designação “6 7”, os nuggets com a forma dos algarismos, as mãos ilustradas por baixo dos números, as estrelas em estilo rabiscado e as caras sorridentes.

Entretanto, um porta-voz da Soules disse esta semana que a empresa rejeita as alegações apresentadas pela Perdue. A Soules já contratou advogados e comunicou que os seus nuggets vão estar disponíveis, em julho, nas cadeias Kroger e Aldi em todo o país.

O que a Perdue Foods pede ao tribunal

Os pedidos de registo das marcas “6 7” e da imagem das mãos colocadas por baixo dos nuggets em forma de 6 e 7, submetidos pela Perdue ao Instituto de Patentes e Marcas dos Estados Unidos (USPTO), continuam pendentes.

Na ação judicial, a empresa solicita uma providência cautelar e uma decisão final que impeçam a Soules de produzir, divulgar ou vender nuggets usando o nome “6 7” ou a ilustração dos números panados acompanhados pelas mãos desenhadas. Pede ainda que a rival seja obrigada a recolher e destruir todas as embalagens e materiais publicitários relacionados.

O que diz Alexandra Roberts sobre marcas, embalagens e o meme “6 7”

Ainda assim, segundo uma especialista, não será simples reclamar direitos de marca sobre nuggets com formato numérico.

"Não se pode ser o único produtor de nuggets em forma de '6 7', da mesma forma que ninguém pode ser o único fabricante de nuggets em forma de dinossauro, de massa com queijo em forma de unicórnio ou de palitos de peixe em forma de peixe", afirmou Alexandra Roberts, diretora do Centro para o Direito, Informação e Criatividade da Faculdade de Direito da Northeastern University.

De acordo com Roberts, os pedidos de registo ligados ao aspeto da embalagem, incluindo o par de mãos, "têm boas hipóteses de sucesso", mas o mesmo não se aplica à expressão “6 7”.

Entretanto, a Soules também anunciou uma parceria com Maverick Trevillian, o adolescente frequentemente indicado como responsável por ter popularizado o meme “6 7” no ano passado.

"Isso pode ajudar a distingui-los", explicou Roberts sobre a parceria. “Pode argumentar-se que, quando os consumidores virem os produtos da Soules, vão pensar: 'Ah, sim, isto é daquele rapaz. É esta a marca que procuro', ou algo semelhante.”

Apesar disso, a Perdue diz que o produto da Soules já gerou confusão entre consumidores. No processo, é citado um exemplo retirado de uma publicação no Instagram sobre o lançamento dos “6 7 Nuggets de Frango” da Soules, onde um utilizador escreveu: “Vi nuggets 67 no Walmart há três semanas.”

Roberts considera que este exemplo, por si só, não é especialmente forte. Na avaliação da especialista, o argumento mais sólido para sustentar uma providência cautelar poderá estar na semelhança do desenho das mãos. Ainda assim, sublinha que as mãos fazem parte do próprio meme e que a Soules poderá alegar que esse elemento também não deve beneficiar de proteção jurídica.

"Se um tribunal concluísse que existe probabilidade de confusão e concedesse uma providência cautelar, penso que a decisão seria simplesmente obrigar a empresa a redesenhar a embalagem sem as mãos ou a fazer com que estas fossem visualmente muito diferentes", afirmou Roberts.

Embora não seja possível “possuir” um meme enquanto tal, muitos assentam em obras protegidas por direitos de autor e, por isso, acabam por ter algum tipo de proteção legal. No entanto, o meme “6 7” não se enquadra nesse cenário.

Quando um meme fica muito associado a uma única pessoa, explicou Roberts, isso pode dar-lhe mais margem para reclamar direitos exclusivos. Mas o meme “6 7” já circulava antes do jovem com quem a Soules fez parceria e não está ligado apenas a ele.

De forma geral, Roberts mostrou-se pouco confiante quanto às probabilidades de a Perdue vencer em tribunal.

"Isso representaria uma espécie de monopólio sobre toda esta categoria de produtos", concluiu. “O direito da propriedade intelectual pode conceder monopólios, mas isso acontece através das patentes. Não é esse o objetivo das marcas registadas.”

Este artigo foi publicado originalmente no “NYT”.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário