Quando se pensa no pré-escolar, é habitual imaginar livros de histórias, brinquedos e actividades com o alfabeto. Ciência e legumes dificilmente serão as primeiras ideias que surgem.
No entanto, em várias salas de educação pré-escolar da Carolina do Norte, as crianças estão a aprender ciência através de brócolos, espinafres, tomates e jardins.
Um novo estudo revela que a aprendizagem baseada em alimentos pode ajudar as crianças em idade pré-escolar a desenvolver os seus conhecimentos científicos e o vocabulário.
O programa, denominado More PEAS Please!, recorre a frutas e legumes para ensinar ciência, linguagem e curiosidade.
PEAS significa Preschool Education in Applied Sciences.
Os legumes como instrumentos de ciência
O programa More PEAS Please! foi desenvolvido por investigadores da North Carolina State University e da East Carolina University.
A proposta é simples: em vez de apenas ouvirem falar sobre plantas, as crianças semeiam, regam os jardins, acompanham as mudanças e exploram os alimentos através dos sentidos. Fazem perguntas e formulam previsões como pequenos cientistas.
Por exemplo, observaram brócolos a serem cozidos a vapor e descobriram porque é que a água ficou verde. Compararam ainda plantas cultivadas em condições diferentes.
Aprender através da exploração
“Queremos incentivar as crianças a entusiasmar-se com a ciência e a serem curiosas acerca do mundo à sua volta”, afirmou Virginia Stage, autora principal do estudo.
“Vimos os alimentos como uma forma de entusiasmar as crianças com a aprendizagem, porque também permitem ensinar muitos conceitos diferentes, como ciência, matemática e linguagem.”
O programa decorreu ao longo de todo o ano lectivo. Os professores receberam formação e as crianças participaram em actividades de ciência, exploração de alimentos e jardinagem.
O estudo incidiu sobre centros Head Start, que apoiam crianças de famílias com recursos financeiros limitados.
Muitas crianças destes programas iniciam a escola já com atrasos a nível académico. Em geral, consomem menos frutas e legumes do que as crianças de agregados familiares com maiores rendimentos.
As actividades alimentares reforçam a aprendizagem
Os investigadores procuraram perceber se um único programa poderia contribuir simultaneamente para a aprendizagem e para uma alimentação saudável.
“O nosso trabalho também ensina os professores a criar experiências positivas com os alimentos, ao mesmo tempo que cumprem os outros padrões de aprendizagem que têm de ser abordados para preparar as crianças em idade pré-escolar para o jardim de infância”, explicou Stage.
“Entretanto, também ensinamos as crianças sobre alimentos nutritivos, dando-lhes oportunidades para explorar os alimentos enquanto aprendem mais sobre a sua origem, o seu aspecto, cheiro, textura, sabor e, por vezes, até como crescem, antes de alguma vez terem de os comer.”
“Este método pode ser especialmente útil para alimentos que as crianças pequenas muitas vezes hesitam em experimentar, como frutas e legumes.”
Em vez de obrigar as crianças a comer legumes, o programa encoraja-as primeiro a explorar e compreender os alimentos.
Padrões de evolução académica
Os investigadores acompanharam sete centros Head Start durante o ano lectivo de 2023 a 2024.
Quatro centros aplicaram o programa PEAS, enquanto três mantiveram as aulas habituais de ciência. No total, participaram 272 crianças no estudo.
No início, os dois grupos apresentavam níveis semelhantes de conhecimentos científicos e competências de vocabulário. Contudo, depois de começarem as actividades PEAS, as crianças abrangidas pelo programa evoluíram a um ritmo muito mais rápido.
As crianças das salas PEAS registaram progressos muito maiores em conhecimentos científicos do que as do outro grupo. As suas competências de vocabulário também melhoraram mais.
Os resultados indicaram que a aprendizagem baseada em alimentos pode apoiar o progresso académico em salas de educação pré-escolar.
Crianças do pré-escolar aprenderam pensamento científico
Os relatos dos professores ajudaram a mostrar como funcionava o programa em salas de aula reais.
Uma professora, Imani, contou que os seus alunos repararam que uma planta estava a crescer melhor do que outra. Uma criança sugeriu mudar as plantas de sítio para testar se a luz solar fazia diferença.
Mais tarde, a planta mais fraca melhorou. As crianças ficaram entusiasmadas por terem resolvido o problema através da observação e da experimentação.
Outra professora, Faith, explicou que os seus alunos aprenderam a distinguir seres vivos de coisas não vivas, pensando em voz alta em conjunto. Discutiram se algo conseguia respirar, crescer ou ter bebés.
As crianças não estavam apenas a decorar respostas: estavam a aprender a pensar de forma científica.
Professores aderem à ciência prática
Inicialmente, alguns professores tinham dúvidas sobre o programa. Temiam que pudesse representar mais trabalho nos seus horários já preenchidos.
Mas muitos mudaram de opinião ao verem o entusiasmo das crianças. Os professores referiram que os alunos se mantinham envolvidos e demonstravam interesse nas aulas de ciência.
Alguns docentes começaram até a criar as suas próprias actividades com alimentos e jardins. Os investigadores também ouviram atentamente as opiniões dos professores.
“Sentimos que as perspectivas dos professores são essenciais, porque podemos estar a deixar escapar algo muito importante sobre aquilo de que precisam para terem sucesso”, afirmou Stage.
“Se não tivermos esse contexto para compreender o que está a acontecer na sala de aula, não saberemos realmente como tornar o programa mais eficaz no futuro. Estamos a investir nos professores para que possam praticar essas competências e investir nas suas crianças.”
A curiosidade passou a ser o objectivo
Uma ideia importante do estudo consistiu em mudar a forma como os adultos encaram a alimentação saudável.
“Procuramos reformular a noção de sucesso neste trabalho com alimentos saudáveis no contexto pré-escolar”, afirmou Jocelyn Dixon, da NC State University.
“Porque muitas vezes ficamos presos à ideia de que o sucesso significa que uma criança acaba por comer brócolos ou espinafres.”
“Mas se, na última actividade, a criança apenas tocou nos espinafres com um garfo e, hoje, aceita tocar-lhes e rasgá-los com os dedos, isso é uma grande vitória.”
Esse é realmente o cerne do More PEAS Please!, observou Dixon.
“Estou ao almoço e existe a expectativa de que tenho de comer estes espinafres, mas, em vez disso, como posso explorar os espinafres como um cientista, enquanto algo que cultivamos no nosso jardim ou como exemplo de um ser vivo?”
Os jardins transformaram a aprendizagem na sala de aula
O estudo teve algumas limitações. Analisou apenas uma região e acompanhou as crianças durante um único ano lectivo. Os investigadores referiram que são necessários mais estudos em contextos diferentes.
Ainda assim, as conclusões destacam uma ideia importante: as crianças pequenas aprendem frequentemente melhor quando podem tocar, explorar, fazer perguntas e descobrir respostas por si próprias.
Um jardim pode tornar-se numa sala de aula. Um legume pode transformar-se numa lição de ciência.
As crianças destas salas de educação pré-escolar aprenderam mais do que factos sobre plantas. Aprenderam a manter a curiosidade, a colocar questões e a reconhecer a ciência no quotidiano.
E, por vezes, basta um pedaço de brócolo para iniciar essa viagem.
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