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Alimentos ultraprocessados deixam uma assinatura metabólica ligada à depressão e ansiedade

Homem na cozinha a comer noodles instantâneos enquanto lê um gráfico do cérebro numa folha de papel.

Investigadores sabem há anos que um consumo elevado de alimentos ultraprocessados está associado a taxas mais altas de depressão e ansiedade.

Esta relação mantém-se consistente entre populações e desenhos de estudo. Ainda assim, tem sido mais difícil perceber o que realmente acontece no organismo.

Uma nova análise procurou esclarecer esta questão. Em mais de 30.000 adultos acompanhados durante mais de uma década, os investigadores identificaram um padrão químico.

Esse padrão aumenta em função do consumo de UPF e apresenta um risco independente de depressão e ansiedade.

À procura do mecanismo em falta

Uma equipa da Shanghai Jiao Tong University School of Medicine (SJTUSM) quis determinar se os alimentos ultraprocessados deixam no sangue uma marca química associada à ansiedade e à depressão.

Para isso, recorreu ao UK Biobank, uma base de dados de longa duração que reúne mais de uma década de registos sanguíneos, hábitos de vida e informação clínica de adultos britânicos.

Xiaobei Deng, investigador de saúde pública da SJTUSM, foi o autor sénior do estudo. Shenghao Yuan e Tengfei Zhu, coautores, realizaram a análise.

No total, foram incluídos 30.059 adultos de meia-idade e mais velhos, sem diagnóstico psiquiátrico no início do estudo. A idade média era de 56,5 anos e o acompanhamento mediano foi de 12,6 anos.

Mapeamento do consumo de alimentos ultraprocessados

Os alimentos ultraprocessados abrangeram uma grande variedade de produtos referidos pelos participantes: bebidas açucaradas, snacks embalados, noodles instantâneos, iogurtes aromatizados e carne reconstituída.

As pessoas com maior consumo destes alimentos tendiam a ser mais jovens, a pesar mais e, no geral, a ter hábitos menos saudáveis. Até ao fim do acompanhamento, milhares receberam um novo diagnóstico de saúde mental.

Os números por detrás do risco

Em comparação com quem consumia menos UPF, as pessoas que consumiam mais apresentavam um risco 35% superior de depressão e 32% superior de ansiedade. A associação com o consumo de substâncias também foi observada, embora fosse menor.

Estes resultados acompanham os de trabalhos anteriores. Um estudo de coorte separado, realizado com mulheres norte-americanas de meia-idade, associou uma ingestão mais elevada de UPF a maior risco de depressão. As bebidas açucaradas e os adoçantes foram os principais responsáveis pelo sinal identificado.

Uma assinatura metabólica dos UPF

Até este estudo, ninguém tinha definido as alterações na química sanguínea que ligam uma alimentação rica em UPF ao risco psiquiátrico.

Com recurso a uma análise sanguínea especializada, capaz de ler simultaneamente centenas de compostos químicos, a equipa identificou 91 metabolitos cujos níveis variavam em função da ingestão de UPF.

Em conjunto, constituem aquilo a que os autores chamam uma assinatura metabólica.

O padrão concentra-se em gorduras e moléculas relacionadas com gorduras: fracções de colesterol, ácidos gordos, marcadores de glicemia e determinados aminoácidos. Todos reflectem a forma como o organismo processa aquilo que é ingerido.

No seu conjunto, estes dados apontam para perturbações mais amplas no metabolismo das gorduras, na gestão de energia e na degradação de proteínas - alterações que, com o tempo, podem influenciar a forma como o cérebro regula o humor.

Quando a equipa avaliou esta assinatura como um preditor autónomo, separado da alimentação, continuou a verificar-se a mesma associação com os resultados de saúde mental.

Também ajudou a explicar essa relação. No caso da depressão e da ansiedade, a assinatura justificou uma proporção relevante da associação. Na perturbação por consumo de substâncias, explicou mais de metade.

A idade e o sexo moldaram o padrão

Os adultos com menos de 60 anos apresentaram as associações mais fortes entre a assinatura metabólica e a depressão e a ansiedade. Também eram mais vulneráveis à perturbação por consumo de substâncias quando a ingestão de UPF era elevada.

Entre as mulheres, a ligação entre a assinatura e a perturbação por consumo de substâncias foi mais forte do que entre os homens.

Os efeitos hormonais, a regulação metabólica e respostas específicas de cada sexo ao comportamento aditivo continuam a ser explicações plausíveis.

Da alimentação ao humor

Foram propostos vários mecanismos para explicar como os UPF afectam o cérebro. Estes manifestam-se de diferentes formas.

Destacam-se, em particular, a inflamação crónica de baixo grau e a alteração da microbiota intestinal.

Ambos podem enfraquecer a barreira intestinal e permitir que sinais inflamatórios entrem na circulação.

Os investigadores também propuseram a desregulação das hormonas do stress como outra via possível.

O mesmo acontece com os efeitos dos aditivos sintéticos e dos novos compostos químicos formados durante um processamento industrial intenso.

A assinatura de 91 metabolitos, que combina alterações em lípidos e aminoácidos, enquadra-se nestas vias propostas de forma mais concreta do que os dados de questionários alimentares, por si só, conseguiriam fazer.

Uma revisão recente relacionou a exposição a UPF com dezenas de consequências adversas, incluindo perturbações mentais.

Contudo, não conseguiu indicar que alterações específicas no organismo eram responsáveis. A nova assinatura preenche essa lacuna.

Persistem questões sem resposta

A coorte é predominantemente branca, britânica e mais saudável do que a população em geral, o que limita a extensão da aplicação dos resultados. A alimentação foi comunicada pelos próprios participantes no início do estudo, deixando margem para classificações incorrectas.

As medições dos metabolitos foram efectuadas apenas uma vez. A equipa não pode afirmar se a química se alterou à medida que as dietas mudavam, nem se a mesma assinatura surgiria em populações mais jovens ou não europeias.

Novas implicações clínicas

Até à publicação deste artigo, a ligação entre alimentos ultraprocessados e perturbações mentais baseava-se sobretudo em questionários sobre frequência alimentar. A nova análise forneceu-lhe uma base biológica.

Essa base consiste numa assinatura de 91 metabolitos plasmáticos, cujo padrão aumenta com a ingestão de UPF e se associa de forma independente à depressão, à ansiedade e à perturbação por consumo de substâncias.

A assinatura abre uma possibilidade clínica. Os médicos poderiam rastreá-la da mesma forma que já rastreiam o colesterol.

Assim, seria possível sinalizar um risco psiquiátrico discretamente elevado antes de surgirem sintomas. Os autores defendem que reduzir os UPF e melhorar a qualidade alimentar pode proteger o bem-estar mental.

E a separação há muito assumida entre nutrição e psiquiatria, tratadas durante décadas como áreas distintas da medicina, começa a parecer mais um único corredor.

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