Nos últimos dias, por causa do meu retiro em Viena, tenho cozinhado quase sempre apenas para mim. Nos primeiros tempos, achei aquilo muito esquisito: picar um único dente de alho, meia cebola, meio tomate; cozer uma ou duas batatas; preparar sopa numa panela minúscula - nem valia a pena pegar na varinha mágica. Além disso, todas as tarefas ficavam exclusivamente a meu cargo: fazer compras, arrumá-las, tratar dos ingredientes, cozinhar, lavar a loiça e deixar a cozinha limpa.
Quando terminou a primeira semana, já tinha preparado peitos de frango de cinco maneiras distintas. Comprara uma quantidade enorme e não queria que se estragassem. Para alguém que come de tudo, foi uma humilhação. Comecei a perguntar-me: Não seria melhor comer um kebab na rua? Ou pedir comida para casa?
Cozinhar sozinho em Viena
A internet, naturalmente, pareceu escutar-me. O algoritmo levou-me até a um artigo recente de Nigella Lawson sobre o assunto. Nigella, popular apresentadora televisiva no Reino Unido, sabe cozinhar, seduzir e escrever. Na coluna que assina no jornal britânico “Financial Times”, tentava libertar da culpa quem está na minha situação. A sua tese apoiava-se na habitual conversa do “disponibilize tempo para si próprio”, “você merece”, “aproveite não ter de ficar refém da validação dos outros”, “seja egoísta”.
Comigo, esse discurso não resulta. Gosto de cozinhar para mim, mas sinto que não mereço outra coisa senão arder no Inferno. E, aqui em Viena, já tenho tempo solitário em excesso. Também não me interessa especialmente saber se os outros apreciam aquilo que faço: quando cozinho para a família, não procuro aplauso; cozinho para alimentar uma família da maneira mais saudável e saborosa que consigo.
Ainda assim, Nigella acertava num ponto importante: cozinhar para uma pessoa é uma coisa diferente. E eu estava a fazer tudo mal. Estava a cozinhar à maneira do meu amigo Miguel.
O Miguel está solteiro há cinco anos. Há algum tempo, fomos a casa dele beber cervejas e ver futebol. A certa altura, perguntou-me se eu queria preparar uns bifes para o jantar. “Vê lá o que é que há aí no frigorífico e faz a tua magia”, disse-me, enquanto enrolava um charro. Abri o frigorífico - daqueles grandes, dos tempos em que ainda era casado. Ao olhar para dentro, vieram-me à memória as prateleiras de supermercado no apogeu da loucura da covid: uma cuvete aberta e solitária de bifes de porco do cachaço; mais abaixo, um pacote de manteiga, meia cebola seca e um pacote de leite.
Kit alimentar para gourmets solitários
O Miguel comprava o necessário para o dia, para aquela refeição. E eu seguia pelo mesmo rumo, a definhar. Faltava-me comida de tacho, faltavam especiarias, faltavam ingredientes capazes de dar um twist aos peitos de frango. Foi então que comecei a reunir alimentos que aguentassem vários dias e que me tirassem da banalidade, fosse qual fosse a circunstância.
Este é, portanto, o meu ‘kit alimentar para gourmets solitários’:
- picles caseiros de pepino e jalapeño (sal fervido em água, 30% de vinagre);
- kimchi (ver no arquivo destas crónicas);
- massa de pimentão (pimentos vermelhos picados com 5% de sal, deixados a fermentar durante quatro dias; depois, trituram-se na liquidificadora);
- alcaparras;
- azeitonas;
- tomate fresco;
- chouriço;
- barriga de porco salgada e fumada;
- manteiga;
- queijos frescos: ricota, mascarpone, natas ácidas e requeijão;
- queijos curados - ando obcecado pelos queijos de montanha austríacos;
- cebolete;
- cebolinho e salsa fresca (conservam-se bastante tempo no frigorífico, embrulhados em papel de cozinha);
- louro e alecrim;
- malaguetas frescas;
- limão e lima;
- azeite extravirgem e azeite virgem;
- pó de caril madras (malagueta seca, cardamomo, cravinho, noz-moscada, cominhos, sementes de coentros, canela e feno-grego - tosta-se tudo ligeiramente numa frigideira, mói-se depois no moinho de café ou na liquidificadora e junta-se açafrão);
- tomate pelado;
- conservas de sardinha, cavala e atum;
- vinagre de sidra, vinho branco e vinho tinto;
- vinho branco e vinho tinto;
- sal grosso e flor de sal;
- pimenta-preta;
- batatas (aproveite as da época);
- arroz carolino;
- massas;
- ovos;
- malaguetas secas;
- molho picante;
- alhos;
- cebola-roxa e cebola-branca.
Com estes ingredientes, faz-se tudo. Faz-se uma festa. Para uma pessoa só.
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