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Maqui na diálise: o snack com omega-3 da Universidade Finis Terrae (UFT) para proteger os rins

Mulher idosa num quarto de hospital a segurar uma uva e a olhar pela janela.

Compostos presentes numa pequena baga sul-americana, de tom roxo muito escuro, estão a ganhar destaque como uma hipótese promissora para ajudar a proteger rins já danificados.

Trabalhos anteriores associaram os seus pigmentos naturais a menos inflamação e a uma redução das cicatrizes renais.

Agora, essa linha de evidência começa a sair do laboratório e a chegar às unidades de diálise, onde as equipas clínicas querem perceber se poderá abrandar não só a deterioração física, mas também o declínio cognitivo em pessoas com insuficiência renal.

Um snack durante a diálise

Nas clínicas de diálise, muitos doentes passam cerca de quatro horas ligados a máquinas que filtram o sangue, num processo em que nutrientes essenciais vão sendo perdidos de forma contínua.

Na Universidade Finis Terrae (UFT), a nutricionista Caterina Tiscornia desenvolveu um snack que junta maqui - uma baga roxa intensa, nativa do Chile - a gorduras ómega-3.

A proposta foi avaliar se consumir a baga durante a sessão de diálise poderia traduzir-se em benefícios para a saúde dos doentes.

A estratégia procura atuar sobre a mesma carga inflamatória e oxidativa que já tinha sido ligada ao dano renal, mas aplicada ao contexto em que a deterioração se torna mais evidente.

Saber se esses efeitos biológicos se convertem em melhorias mensuráveis na cognição e na inflamação será decisivo para perceber se esta baga passa de composto promissor a intervenção prática.

A baga maqui por trás da ideia

O maqui, uma baga silvestre do sul do Chile e da Argentina, é tão escuro que o seu sumo mancha rapidamente as mãos.

A cor deve-se às antocianinas, pigmentos vegetais roxos capazes de atuar como antioxidantes no interior das células.

Do ponto de vista botânico, a espécie chama-se Aristotelia chilensis, e os seus compostos podem neutralizar substâncias reativas e reduzir sinais inflamatórios nos tecidos.

Como a digestão degrada uma parte importante destes pigmentos, os investigadores precisam de testar alimentos reais - e não apenas extratos “promissores” em condições laboratoriais.

Inflamação em modo acelerado

Quando os rins deixam de funcionar, os resíduos permanecem no sangue e o sistema imunitário pode ficar ativado durante demasiado tempo.

Com o passar dos meses e anos, esse estado de combate permanente alimenta o stress oxidativo - um desequilíbrio que danifica as células ao favorecer radicais face às defesas do organismo.

Num pequeno ensaio cruzado realizado durante diálise, verificou-se que a máquina removia aminoácidos, a menos que os doentes ingerissem proteína.

Esta sobrecarga contribui para que muitos doentes se mantenham inflamados e com défices nutricionais, o que torna o momento da alimentação dentro da clínica particularmente relevante.

Porque é que a mente pode ficar “nublada”

Falhas de memória e um pensamento mais lento surgem muitas vezes bem antes de a pessoa atingir a fase terminal da doença renal, mesmo durante o acompanhamento regular.

Mais de metade das pessoas em hemodiálise regular - o tratamento por máquina usado quando os rins falham - apresenta défice cognitivo mensurável.

Entre sessões, a acumulação de toxinas e uma menor entrega de oxigénio podem somar-se às oscilações de fluidos, deixando as células cerebrais com pouca energia disponível.

Se o snack conseguir atenuar a inflamação, os clínicos antecipam uma maior clareza mental e um funcionamento diário mais estável, e não apenas melhores valores em análises.

Dois ingredientes, um objetivo

No desenho de Tiscornia, a baga é combinada com ómega-3 porque ambos os ingredientes podem contribuir para deslocar a inflamação para um perfil mais controlado.

As antocianinas conseguem atenuar alguns sinais químicos que mantêm as células imunitárias em atividade constante no organismo.

Já as gorduras ómega-3 integram as membranas celulares e, ao longo do tempo, podem alterar a forma como as células produzem mensageiros inflamatórios.

Reunir ambos num único snack pode ser particularmente relevante para doentes cujas dietas já são fortemente condicionadas pela doença.

O que mostram os estudos anteriores

Uma revisão narrativa recente reuniu a evidência sobre maqui e doença renal e sublinhou como continuam a existir poucos dados em doentes em diálise.

A maioria das experiências avaliou extratos em animais ou em culturas celulares, o que deixa em aberto questões sobre dose, segurança e efeitos renais a longo prazo.

Num estudo em humanos, um extrato padronizado de maqui reduziu a glicemia e a insulina em jejum pouco tempo após uma dose única.

Ainda assim, nada disso demonstra que pessoas em diálise irão beneficiar, razão pela qual o ensaio em contexto clínico passa agora a ser o elemento com maior peso.

Acompanhar resultados clínicos

Em cada tratamento, as equipas conseguem recolher sangue e aplicar testes breves de desempenho mental, o que dá ao snack uma forma concreta de acompanhar resultados.

Em vez de depender de suposições, a equipa da UFT pretende monitorizar marcadores de inflamação e medidas de atenção ao longo do tempo, já que a função cognitiva tende a diminuir em diálise.

Valeria Aicardi, especialista em nutrição na doença renal e mestre pelo INTA da Universidade do Chile, destacou o alcance potencial desta investigação.

“Isso nunca foi estudado desta forma no Chile e pode ter implicações ao nível ministerial para a criação de novas políticas públicas”, explicou.

Se os indicadores evoluírem na direção desejada, as clínicas poderiam integrar o snack sem alterar as máquinas de diálise - apenas os hábitos diários.

Limitações no intestino

Mesmo sendo uma baga natural, o seu efeito não é equivalente ao de um medicamento, porque o intestino transforma grande parte do que ingerimos.

Só uma fração das antocianinas resiste à digestão e chega à corrente sanguínea, o que complica o planeamento de doses em doentes mais frágeis.

As dietas em diálise já impõem limites ao potássio, aos líquidos e, por vezes, ao açúcar; por isso, qualquer snack tem de respeitar essas restrições.

Ensaios mais longos terão de vigiar efeitos adversos e possíveis interações, sobretudo se os doentes consumirem outros suplementos.

Do laboratório à política

Na reunião anual da Sociedade Chilena de Nutrição, investigadores da UFT foram reconhecidos por uma ideia de snack focada em doentes em diálise.

“Promover estudos com impacto social, especialmente em populações altamente vulneráveis, é fundamental para contribuir com conhecimento e apoiar o trabalho de universidades, sociedades científicas e equipas clínicas”, afirmou Isidora Pierattini, Coordenadora de Alimentação Equilibrada e Nutrição da Agrosuper.

O projeto foi financiado pela Agrosuper, e o uso de uma baga local poderia reduzir a dependência de suplementos importados, caso as clínicas consigam padronizar a qualidade.

Se o snack demonstrar benefícios, as autoridades de saúde poderiam integrá-lo nos cuidados habituais da diálise como um complemento de baixo custo.

Para onde isto pode seguir

O plano liga a química de uma baga a uma rotina clínica, com o objetivo de reduzir a inflamação e preservar a clareza mental durante a diálise.

Sinais claros nos primeiros testes poderão justificar estudos maiores e decisões de política pública cautelosas, enquanto resultados fracos evitariam criar falsas expectativas nos doentes.

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