Há já algum tempo que ficou bem documentado que a carne e os lacticínios têm, pelo menos em parte, responsabilidade pela crise climática. E, enquanto não reduzirmos a nossa dependência de produtos de origem animal, não conseguiremos evitar níveis perigosos de aquecimento global.
O que continua menos óbvio é o que colocar no lugar do hambúrguer e do queijo. O que é melhor para a saúde e para o planeta? E o que acontece à carteira? Foram estas as perguntas que procurei esclarecer num novo estudo.
Para isso, reuni avaliações de alternativas à carne e ao leite que comparavam o seu perfil nutricional, os benefícios para a saúde, o impacto ambiental e o custo.
Entre as alternativas de origem vegetal analisadas estavam produtos tradicionais, como tofu e tempeh; opções processadas, como hambúrgueres vegetarianos e bebidas vegetais; produtos ainda em desenvolvimento, como carne cultivada em laboratório; e alimentos não processados, como grãos de soja e ervilhas.
As avaliações usaram várias formas de comparar alimentos - por porção ou por caloria, e tanto isoladamente como na hipótese de substituírem o consumo actual de carne e lacticínios de uma pessoa.
O feijão vence tudo
Os resultados indicam que os alimentos vegetais não processados - como grãos de soja, ervilhas e feijões - são os mais adequados para substituir carne e lacticínios.
Optar por leguminosas em vez de carne e leite reduziria para metade os desequilíbrios nutricionais - a diferença global entre a ingestão actual e a ingestão recomendada de nutrientes - em países de alto rendimento como o Reino Unido, os EUA e em toda a Europa.
Além disso, baixaria em um décimo o número de mortes, sobretudo por doenças associadas à alimentação, como doença cardíaca, AVC, cancro e diabetes.
As necessidades de terra e de água para produzir a nossa alimentação, bem como as emissões de gases com efeito de estufa resultantes, cairiam para menos de metade; e os custos com alimentos diminuiriam em mais de um terço.
Hambúrgueres vegetarianos e bebidas vegetais em segundo
Os alimentos vegetais processados, como hambúrgueres vegetarianos e bebidas vegetais, continuam a trazer benefícios relevantes para quem pretende substituir carne e lacticínios.
Ainda assim, as reduções de emissões e as melhorias na saúde foram de um quinto a um terço inferiores às proporcionadas pelas leguminosas não processadas, e os custos para o consumidor ficaram um décimo acima dos das dietas actuais.
Tanto nas alternativas processadas como nas não processadas, a maior parte das melhorias em nutrição e em risco de doença resultou do aumento de fibra (embora as alternativas processadas tendam a ter menos), potássio e ácidos gordos polinsaturados, bem como da redução de colesterol, gordura saturada e ferro de origem animal (heme).
Quer as alternativas vegetais processadas quer as não processadas apresentaram um impacto ambiental inferior ao da carne e do leite, por gerarem menos emissões e exigirem menos terra e água.
O processamento - por exemplo, para produzir hambúrgueres vegetarianos e bebidas vegetais - requer energia, o que, em geral, aumenta custos e emissões. No entanto, isto não anula as vantagens ambientais face à carne e aos lacticínios. Significa, isso sim, que as alternativas processadas tendem a ser mais caras do que as não processadas.
Assim, as leguminosas não processadas, como ervilhas e feijões, foram a vencedora clara do estudo. Tiveram bom desempenho em todas as dimensões avaliadas: nutrição, saúde, ambiente e custo.
Mas houve um segundo classificado inesperado: o tempeh, um alimento tradicional indonésio feito a partir de grãos de soja fermentados, que mantém grande parte das propriedades nutricionais da soja sem grande processamento nem aditivos. Este factor, a par do seu custo relativamente baixo, deu-lhe vantagem sobre opções mais processadas, como os hambúrgueres vegetarianos.
Carne cultivada em laboratório em último
Outro resultado surpreendente teve a ver com a carne cultivada em laboratório. Apesar de ser difícil avaliar um produto que ainda não está disponível no mercado, os dados existentes sugerem que não será competitiva nem com alternativas à carne, nem com carne proveniente do abate.
Com a tecnologia actual - que consome muita energia para fazer crescer tecido animal em laboratório - as emissões da carne cultivada podem ser tão elevadas como as de hambúrgueres de vaca, ao mesmo tempo que podem custar até 40,000 vezes mais. E, por imitar a carne de vaca, os impactos na saúde da carne cultivada são igualmente negativos.
Embora seja possível que os custos e as emissões desçam à medida que os processos de produção se tornem mais eficientes, isso exigiria investimento significativo e avanços tecnológicos.
À luz dos impactos relativos, pode não se justificar o investimento público tanto em carne cultivada em laboratório como em substitutos vegetais ultra-processados. As alternativas já existentes são acessíveis e não dependem de novas tecnologias ou de desenvolvimento adicional de produtos.
O que é necessário, porém, são políticas públicas prudentes que apoiem toda a gente a comer de forma saudável e sustentável.
Vale a pena sublinhar que as melhores substituições para carne e lacticínios não são apenas alimentos integrais, mas refeições completas.
Porque não experimentar cozinhar um chilli de feijão, um caril de grão-de-bico ou um salteado de tempeh? Ou, então, ervilhas esmagadas em pão escuro?
Trocar uma refeição típica de fast-food por uma combinação de leguminosas, legumes e cereais integrais não só oferece uma porção de nutrientes mais equilibrada, como também reduz a pegada ambiental, com um custo semelhante ou inferior para a carteira.
Marco Springmann, Investigador Sénior em Ambiente e Saúde, Universidade de Oxford
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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