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Uma molécula presente nos citrinos poderá ser uma arma secreta para rejuvenescer o fígado

Mulher cientista com bata branca a examinar fatia de laranja numa sala de laboratório.

O fígado é um dos órgãos mais extraordinários do corpo humano.

Esta autêntica central de multitarefas desempenha cerca de 500 funções vitais, entre as quais processar nutrientes e filtrar substâncias nocivas presentes no sangue.

Apesar de lidar diariamente com toxinas químicas, o fígado mantém-se invulgarmente jovem, graças à sua capacidade singular de se regenerar.

Ainda assim, até o fiável fígado tem limites.

À medida que o organismo envelhece, o fígado envelhece também. Com o declínio da sua função, torna-se mais vulnerável a diversas formas de doença hepática gordurosa.

Mas e se fosse possível ajudar um fígado envelhecido a recuperar características mais jovens?

Hesperetina e o envelhecimento do fígado

Um novo estudo publicado na npj Aging aproximou-se desse objectivo: cientistas usaram um composto presente nos citrinos para abrandar, e até inverter, sinais de envelhecimento do fígado em ratinhos.

O fígado humano com cerca de três anos de idade.

O seu fígado, representado aos três anos de idade. (SciePro/Getty Images)

Numa experiência, uma equipa liderada pelo primeiro autor, o biólogo molecular Zhao-Qing Shen, da National Yang Ming Chiao Tung University, em Taiwan, analisou a hesperetina. Trata-se de um flavonóide natural existente em limões, limas, laranjas e outros citrinos, que já revelou potencial para uma vasta gama de efeitos farmacológicos, incluindo propriedades anti-inflamatórias, antienvelhecimento e neuroprotectoras.

Estudos anteriores tinham identificado a hesperetina como activadora de um gene associado à longevidade, denominado CISD2 - ou Cisd2 nos ratinhos -, conhecido por favorecer a saúde hepática e metabólica.

"No fígado, a deficiência de Cisd2 promove a esteato-hepatite [doença hepática gordurosa] e o carcinoma hepatocelular [cancro do fígado], ao passo que o aumento da expressão de Cisd2 preserva perfis metabólicos jovens e atenua a disfunção hepática relacionada com a idade", explicam os investigadores no artigo.

"É importante salientar que a expressão de Cisd2 diminui durante o envelhecimento, o que sugere que restaurar a sua expressão poderá constituir uma estratégia promissora para atrasar o envelhecimento do fígado e prevenir doenças hepáticas associadas à idade."

Como a hesperetina foi testada em ratinhos

Para avaliar a hipótese, os investigadores administraram uma dose diária de hesperetina durante cinco meses a ratinhos naturalmente idosos, com 21 meses de idade. Um grupo de controlo recebeu, em vez disso, um substituto inactivo.

Comparação entre fígados de ratinhos jovens, ratinhos de controlo e ratinhos tratados com hesperetina.

Comparação de fígados de ratinhos: ratinhos jovens (três meses de idade, à esquerda), ratinhos de controlo (26 meses, ao centro) e ratinhos tratados com hesperetina (26 meses, à direita). (Shen et al., *npj Aging, 2026)*

No fim do regime, os níveis de Cisd2 tinham diminuído significativamente nos fígados dos animais de controlo, então com 26 meses. Porém, nos ratinhos idosos que receberam hesperetina diariamente, os níveis hepáticos de Cisd2 eram comparáveis aos de ratinhos jovens de apenas três meses. Também diminuíram vários outros indicadores de envelhecimento e deterioração hepática, incluindo depósitos de gordura, células do fígado danificadas e inflamação.

"Em conjunto, estes resultados demonstram que o consumo de hesperetina atenua os danos patológicos hepáticos e atrasa o envelhecimento do fígado em ratinhos idosos, um efeito que se correlaciona estreitamente com o aumento da expressão de Cisd2", escrevem os investigadores no estudo.

Uma análise de sequenciação de ARN, destinada a comparar a actividade genética, revelou que o composto dos citrinos deslocou a expressão génica dos animais tratados para um estado mais jovem. O tratamento inverteu várias alterações na expressão dos genes associadas à idade, observadas nos animais de controlo.

Uma experiência distinta mostrou que ratinhos geneticamente modificados sem Cisd2 nas principais células funcionais do fígado - que, por esse motivo, já apresentavam sinais de saúde hepática deficiente aos três meses de idade - não responderam ao tratamento com hesperetina.

Isto sustenta a ideia de que, nas células hepáticas dos ratinhos, o composto dos citrinos depende em grande medida de Cisd2 para actuar e é maioritariamente ineficaz na sua ausência, embora os investigadores também tenham identificado algumas alterações independentes de Cisd2.

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A via que poderá ligar os citrinos à saúde hepática humana

Segundo os investigadores, a hesperetina parece actuar por uma via de sinalização que envolve duas proteínas diferentes, designadas Hmgcs2 e Pparα, que em conjunto aumentam a actividade de Cisd2.

Será preciso muito mais trabalho para determinar se a hesperetina consegue produzir, em segurança, efeitos semelhantes na melhoria da saúde do fígado humano, mas os primeiros indícios dessa via poderão já existir.

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No estudo, a equipa analisou amostras de fígado sem tumores de 80 doentes submetidos a cirurgia por cancro do fígado ou tumores benignos. A análise concluiu que a expressão de PPARα e CISD2 diminuía com a idade nos tecidos hepáticos humanos.

Por si só, esta observação não demonstra nada, mas sugere que a actividade reduzida de Cisd2 observada nos ratinhos também poderá ocorrer em pessoas mais velhas. Se assim for, o reforço dessa via com hesperetina poderá talvez contribuir para rejuvenescer também os fígados humanos.

Tendo em conta tudo o que o fígado faz por nós, devemos descobrir se é esse o caso.

"Estas conclusões, consideradas em conjunto, fornecem provas sólidas de que a hesperetina é um potente tratamento antienvelhecimento do fígado e estabelecem as bases para futuras intervenções clínicas que usem a hesperetina como um potente activador de Cisd2 e como alimento funcional derivado das cascas de citrinos", escrevem os investigadores no estudo.

"A hesperetina proveniente da casca de citrinos e de outras fontes tem potencial para abrandar o envelhecimento do fígado - ou rejuvenescer um fígado envelhecido -, além de ajudar a melhorar a doença hepática gordurosa associada à idade."

Os resultados são comunicados na npj Aging.

Este artigo foi verificado por Rebecca Dyer e editado por Rebecca Dyer. Apesar do rigor do nosso processo, somos apenas humanos. Se detectar um erro, informe-nos.

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