Desde a abertura, em 1952, até aos dias de hoje, o Mercado Municipal de Matosinhos atravessou diferentes etapas, sempre em sintonia com a evolução dos hábitos de compra e dos modos de vida locais. Mantém-se um espaço muito centrado nos vegetais e no peixe, mas, na última década, a restauração acabou por devolver uma nova energia ao edifício.
Um percurso que acompanha a cidade
António Cruz começou a vender peixe no Mercado Municipal de Matosinhos aos 15 anos e, agora com 50, diz que entrou na actividade quase por acaso: foi substituir a mãe, Emília, quando esta adoeceu. "Pediu-me para assumir o negócio, que já vinha dos meus avôs." Como a doença se prolongou, António foi ficando e ganhando rotina na banca. "Comecei a ter algum gosto e alguns clientes ajudaram-me muito. E a estrutura foi crescendo."
Actualmente, trabalha com uma equipa de 15 pessoas, gere seis bancas e tem ainda um espaço de mariscos. Na sua perspectiva, a aposta do mercado na restauração - intensificada após a reabilitação de 2012 - trouxe vantagens claras. "Já trabalhávamos com muita restauração, o que nos permitia ter quantidade e diversidade." Antes disso, recorda um período menos favorável: houve "uma geração que deixou de vir, devido às grandes superfícies". Com a renovação e a entrada de restaurantes, o movimento aumentou e regressaram rotinas de consumo que, entretanto, se tinham perdido.
Mercado Municipal de Matosinhos: peixe, bancas e restauração
A banca do Tó - como é mais conhecido António - é uma das que mais abastece a restauração, até porque muitos restaurantes incentivam os clientes a comprar o peixe directamente nas bancas para depois o mandarem confeccionar à mesa.
Outra presença marcante é a banca de Helena Cadilhe, que descreve uma ligação familiar de várias gerações ao mercado. "A minha avó esteve aqui até aos 99 anos, a minha mãe, a minha tia, todas venderam aqui. Agora estamos os netos, os bisnetos, aqui tenho duas filhas, a Cristiana e a Rita, a minha neta Lígia está na banca do Tó. É toda uma vida aqui", conta. Sobre o impacto da restauração, não tem dúvidas: "Os restaurantes foram muito bons, os clientes compram muito aqui e dá para todos. Isto é muito bonito e damo-nos todos bem. É uma família."
Um dos primeiros espaços a avançar com o modelo de cozinhar peixe comprado pelos clientes nas bancas foi o Mercado Food & Drinks, um projecto de Pedro Brito. "Começamos em 2014 como wine bar. Eu estava a viver em Angola, a trabalhar na área da restauração, e em 2018, voltei." Ao regressar, percebeu que a fórmula inicial não estava a resultar e transformou o conceito em restaurante. "Em Angola e Moçambique, quando vamos ao mercado do peixe, se quisermos comer lá, alugamos a cadeira e a mesa a um, compramos a bebida a outra mamã [as vendedoras dos mercados] e pagamos à mamã que está a fazer o fogo para grelhar. Eu pensei que podia fazer isto em parceria com as bancas. Já havia outro restaurante que o fazia, mas só com dois tipos de peixe e não tinha acompanhamentos." Pedro nota ainda que, regra geral, são sobretudo estrangeiros - em especial de países da Europa Central e de outras zonas afastadas do litoral - quem mais aprecia escolher o peixe na banca. "Os portugueses nem tanto, porque têm mais contacto com peixe fresco."
Outras bancas e ofícios: flores no mercado
Se, para quem vende peixe e frescos, esta mudança se revelou particularmente positiva, noutros negócios o efeito foi mais limitado. "As flores não são de comer", comenta a florista Dulce Rodrigues, enquanto separa pequenos ramos de statices na banca. Está no mercado há 71 anos - exactamente a mesma idade que tem. "Já os meus avós eram floristas, a minha mãe, tia e depois fiquei eu." Foi sobretudo com os avós que aprendeu o trabalho. "O meu avô trabalhava muito bem, era um florista à maneira." Em criança, passava ali os dias: "era bonito, éramos muitas crianças aqui no mercado."
Para além de vender flores de várias proveniências - rabinhos de porco, statices, astromélias, estrelícia, gérberas - também assegura serviços para casamentos, baptizados e funerais.
Um pólo criativo entre a autarquia e a ESAD
Com as transformações mais recentes, formou-se no mercado um pólo resultante de uma parceria entre a autarquia e a ESAD - Escola Superior de Artes e Design. Entre os projectos instalados está a Mishmash, criada em 2016 pela designer de comunicação Beatriz Barros. A marca dedica-se à produção de cadernos, blocos, calendários e planners, e conquistou uma presença internacional assinalável, desenvolvendo, por exemplo, marcas próprias para museus como o Guggenheim, entre outros.
Outro projecto que ali opera é a Another Collective, focada em serviços de design de comunicação. "Fazemos agora dez anos. Viemos para aqui há oito e gostamos muito da dinâmica do mercado", afirma Ricardo Barbosa. A equipa desenvolveu a Farta, que arrancou como revista dedicada à gastronomia portuguesa e que, hoje, funciona como empresa de eventos e conteúdos editoriais. Produz ainda o congresso de hospitalidade Host Douro, que em 2026 terá a sua segunda edição.
Informações úteis
Mercado Municipal de Matosinhos
Rua França Júnior
Tel.: 229 376 577
Web: instagram.com/mercadosmunicipaisdematosinhos
Das 6h30 às 18h30, de quarta a domingo; restaurantes até às 24h
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