O terreiro em frente ao imponente Real Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça costuma transformar-se em palco de feiras de velharias e de outras iniciativas que dão vida à praça.
Há quase sete décadas, a rainha Isabel II veio de Inglaterra em visita oficial a Portugal e um dos almoços protocolares decorreu no refeitório do mosteiro. O banquete de 1957 gerou polémica: Salazar dispensou um cozinheiro do Porto que propôs um menu de inspiração francesa, quando a intenção era pôr portugalidade à mesa. A missão passou para o gastrónomo Francisco Lage, que alinhou sugestões como “Lagosta de Peniche suada à portuguesa”, “Vitela dourada de Sintra” e “Corvinas do Algarve, estufadas com endívias”.
A culinária francesa saiu do guião, mas, ali mesmo ao lado do mosteiro, existe uma rua que presta tributo a Dom Maur Cocheril - monge cisterciense francês que, no séc. XX, teve a distinção de celebrar missa na abadia.
António Padeiro em Alcobaça: uma casa clássica junto ao mosteiro
É nessa artéria dedicada ao religioso que se encontra o restaurante António Padeiro, um dos grandes cartões-de-visita locais. Trata-se de uma casa portuguesa de matriz tradicional, inaugurada em 1938 e já a caminho dos 90 anos de actividade: começou como tasca, passou por cervejaria e afirma-se hoje como sala de visitas da cozinha regional.
Na sala, uma pequena “brigada” recebe quem chega, enquanto os vários espaços vão ficando compostos. À mesa, a carta é apresentada com explicações curtas - o suficiente para orientar e seduzir a escolha.
Entradas: do mar ao escabeche
Seguimos algumas recomendações e abrimos com a “Cavala marinada à portuguesa” (€10,50): um lombo gordo, alto e tenro de um exemplar bem tratado, limpo com rigor e cortado em tranches carnudas, com um tempero contido de azeite, limão e vinagre, a reforçar a frescura do peixe com uma robustez bem medida.
A “Sopa de peixe” (€6) destacou-se pelos pedaços de pescado (garoupa, robalo), num caldo piscícola enriquecido com camarão e rematado por uma nota quente e aromática de picante, a acrescentar profundidade ao conjunto.
Entrada mais recente na carta, a “Tomatada com ovo escalfado” (€10) assenta numa base saborosa de tomate preservado, sem doçuras artificiais, com acidez residual, e dois ovos por cima para “profanar” a gema e deixá-la correr sobre as torradas de grelha, prontas a absorver os sucos.
A mesma tentação aparece nas intensas “Iscas de vitela com escabeche de cebola” (€10,50): tiras firmes e cheias de sabor de fígado bovino, acompanhadas por uma cebolada caramelizada com tempo e com um recorte acídulo, a fazer contraste com o lado azeitado do prato - e as torras ali à mão.
Pratos emblemáticos: rissóis, púcara e cabrito
Já nos pratos de assinatura, o destaque maior vai para os “Rissóis de robalo e camarão, com arroz de camarão” (€19). Chegam quatro pastéis bem recheados com lascas generosas de robalo; o camarão surge mais como apontamento, num interior cremoso sustentado em caldo de peixe. Fica a prova de como os rissóis de pescado são uma memória que merece regressar aos cafés. Ao lado, o arroz, cremoso e assente em base de marisco, vem rico em camarão e vale por si como guarnição de alta categoria.
A célebre “Perdiz na púcara com puré de batata” (€19,50) somou pontos: a ave vem inteira, trinchada em partes, mergulhada num molho sedoso e bem especiado, dentro do pote de barro. O puré, esse, foi apenas regular e pedia uma textura mais elegante.
Num almoço de domingo, houve ainda oportunidade de provar o famoso “Cabrito assado à padeiro” (€24,50), fiel ao nome: carne muito tenra, bem caramelizada por fora, a lascar com humidade nos diferentes cortes. A acompanhar, batata corada e um arroz de miúdos vigoroso, com o bago carolino a trazer para si o sabor caprino. O esparregado mostrou-se correcto, pouco enfarinhado e com acidez suficiente para equilibrar o conjunto.
Vinhos, serviço e doçaria
A carta de vinhos é extensa e apelativa, com preços contidos. O serviço também é abundante - várias pessoas na sala e intercomunicadores -, embora nem todos pareçam igualmente focados, talvez pela redundância das zonas de mesas. Ainda assim, é gratificante ver a casa cheia e uma equipa empenhada em atender com simpatia.
Nas sobremesas, o tabuleiro complica a decisão, com perto de duas dezenas de tentações. O invulgar “Cheesecake de queijo de ovelha” (€7) chega em dose individual, intenso e directo no registo lácteo e herbáceo do creme, com tiras de abóbora confitada por cima. O “Pecado” (€7,50), criação da casa (valha-nos a clareza de não lhe chamar conventual), era uma fatia deliciosa de tarte de pinhão e amêndoa. Para fechar, mais um improvável: o “Pudim inglês de laranja” (€7), bolinho esponjoso bem embebido numa calda cítrica.
A atenção ao detalhe que Ana Branco imprime em tudo confirma que a terceira geração está a conduzir a casa do avô António Padeiro rumo ao centenário, com orgulho e prestígio. Mais um ícone para visitar - e provar - na região.
Desde 1976, a crítica gastronómica do Expresso é feita a partir de visitas anónimas, sendo pagas pelo jornal todas as refeições e deslocações
ACEPIPE
Mistérios saboreados em Lisboa
Dicas de sítios onde se sente amor e paixão por fazer bem na cidade…
Padaria 110 (Saldanha): Entrar e encontrar bolos de arroz verdadeiramente bons - dos que levam farinha de arroz (e não misturas industriais) - é sinal de honestidade e de respeito pela memória dos sabores. O pão com chouriço, esguio, com massa elástica e sem farinha “estranha” à volta, traz várias rodelas de um enchido de qualidade que aparecem como notas numa flauta. Vale a pena explorar os diferentes pães e bolos que propõem.
Bike Bakery (Bica): Ao lado do ascensor do bairro, agora sem vida, mora a “melhor padaria da cidade”, segundo os restaurantes que trabalham com a Bike Bakery. Um carioca sobressai com pães aromáticos, húmidos e muito gulosos. As bolinhas de mozarela com tomate seco e pesto exibem uma massa elástica, bem hidratada e leve na digestão. Já o sedoso pão de cebola, algures entre um gougère e um brioche, justifica a viagem.
Anita Cake Boutique (São Domingos de Benfica): Mesmo ao lado do hotel Upon Residences, perto do Estádio da Luz, uma psicóloga dedica-se a fazer os outros felizes através dos seus bolos. Aniversários, casamentos, empresas, etc. procuram os seus bolos à fatia, de massas fofas e húmidas, além do salame de morango e das viciantes Broas de Mel da Padaria Carregadense (Carregado), outras chaves deste mistério.
A Vida Portuguesa (Chiado): Catarina ajuda a que alguns pequenos produtores não fechem portas - trouxe-os para a belíssima mercearia desta loja, onde existe um Portugal de referência para provar e saborear.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário