O arranque do Douro & Porto Wine Festival, no Porto Comercial de Cambres, em Lamego, juntou vinho, gastronomia e uma boa dose de memória pop-rock. Depois de “Save Tonight”, o cartaz continua este sábado com Rui Pregal da Cunha, Lena d'Água, Aurea e Ronan Keating.
Douro & Porto Wine Festival em Cambres: vinho, comida e pop-rock
O Douro estava no sítio de sempre - presente mesmo quando ninguém lhe fixa os olhos. Entre a Régua e Lamego, sente-se nas encostas, na luz que abranda ao fim do dia, no calor preso à pedra e no vinho que circula de mão em mão. E que noite quente: 30 graus às dez da noite. Foi neste enquadramento, quase como uma praia de areia grossa montada no recinto, que o primeiro dia do Douro & Porto Wine Festival se fez de copos erguidos, conversas longas, comida, reencontros e canções que ainda sabem chegar ao lugar certo.
Concertos da primeira noite: de Raquel Loureiro a Eagle-Eye Cherry
Antes de a música começar, o alinhamento perdeu Natalie Imbruglia. A australiana cancelou por motivos de saúde e ficou apontada para a edição de 2027. Marina Valdigem confessou a desilusão, porque queria “mesmo vê-la”. Susana Veloso também se mostrou triste com a ausência. Não há como contornar: ninguém escolhe adoecer. E, ainda assim, há uma ciência própria nos festivais - a de refazer o que ficou em falta.
A abrir, Raquel Loureiro funcionou como porta de entrada, em modo de receção. Depois, Olavo Bilac trouxe a confiança de quem conhece o ritmo de uma plateia. Os Quinta do Bill acrescentaram a faísca popular, com refrões que muitos continuam a saber de cor: “Ai estes são os filhos da nação...”.
Mas o caminho da noite apontava para Eagle-Eye Cherry - e a expectativa sentia-se, mesmo que ninguém a dissesse em voz alta. Há sempre esse silêncio curioso que acompanha artistas ligados a uma canção maior do que o tempo. O sueco não apareceu com o peso de um hino às costas: entrou contido, com voz quente, guitarra firme e uma banda capaz de servir as canções com a medida certa, sem nostalgia empurrada nem brilho a mais.
Antes do momento inevitável, houve tempo para recordar que Eagle-Eye Cherry não cabe apenas no rótulo do homem de “Save Tonight”. “Are You Still Having Fun?” trouxe de volta a pop de guitarras limpa e direta que marcou o fim dos anos de 1990 - refrões largos, melancolia sem dramatismo. “Falling In Love Again” surgiu nesse mesmo território: uma canção simples, feita de balanço, voz e uma elegância que dispensa truques.
E então, sim, chegou “Save Tonight”. Entrou como um pano que cai sobre um palco de luz. Aos primeiros acordes, o festival pareceu mudar de fôlego. Não começou só uma música: acendeu-se, ao mesmo tempo, uma década inteira em muitas cabeças. Uns cantaram alto, outros filmaram, fotografaram, sorriram antes de o refrão aparecer; houve beijos, e houve quem, talvez, se lembrasse de uma rádio num quarto, de uma viagem, de uma despedida, de uma juventude que não regressa - mas que volta a aparecer quando uma canção a chama.
“Save Tonight” mantém-se viva porque nunca tentou ser maior do que é: uma guitarra acústica, uma urgência sem artifícios, uma melancolia clara, quase luminosa, e o pedido para guardar a noite antes de ela desaparecer. O rio não se ouviu, mas parecia estar a escutar. Em Cambres, no Douro & Porto Wine Festival, “Save Tonight” encontrou uma casa improvável - e perfeita.
Wine Village e enoturismo: o Douro no copo
À volta do palco, a Wine Village dava ao recinto outro compasso. Produtores e quintas apresentavam vinhos da região e, entre concertos, o público circulava sem pressa - como se isto fosse menos uma maratona de horários e mais uma forma de estar.
No Douro & Porto Wine Festival, nem todos chegam apenas pela música. Susana Veloso e Rute Oliveira, amigas de Vila Real, vieram “pelo ambiente, pelo vinho” e por este modo diferente de viver um festival em que o copo pesa tanto como o palco.
Susana repetiu a ida do ano passado. Explica que voltou porque gostou “do ambiente” e porque a vertente do vinho e do Douro é “atraente”. A música conta, claro, mas o que segura o festival também está nas bancas, nas conversas e na possibilidade de provar vinhos da região. Para Susana, o recinto ajuda a perceber “a qualidade dos vinhos do Douro” e a quantidade de enólogos e quintas que dão expressão ao território.
Rute já conhecia o evento de outras edições e lamenta que a ideia se desvie um pouco do vinho, com a presença de outras bebidas. Defende que, sendo um “wine festival” deve continuar a servir sobretudo para “mostrar às outras pessoas a qualidade de vinho que existe no Douro”. Ainda assim, sublinha o “bom ambiente”, a “mistura de públicos” e o papel do festival como “ponto de encontro” num Douro que descreve como “cada vez mais cosmopolita”.
Do lado de quem serve, Eduardo Ferreira, gestor de enoturismo da Lavradores de Feitoria, marca presença desde a primeira edição. Para a empresa, faz sentido estar ali porque o festival é “uma montra” para os vinhos e para a própria região. Eduardo recorda que, durante séculos, o Douro foi associado sobretudo ao vinho do Porto, mas que hoje os vinhos DOC Douro têm conquistado outro lugar.
Mais do que pôr vinho no copo, Eduardo Ferreira procura contar a história, a filosofia e o modelo da empresa - criada por lavradores que são também donos do projeto. Nesta altura do ano, nota uma procura maior pelos brancos, “mais frescos, mais minerais”, ideais para o calor e para o ambiente de festival.
Na Quinta do Pego, Inês Barradas encara o evento como uma “oportunidade de promoção”. A quinta tem história antiga, mas a marca de vinhos é recente, com produção desde 2000. Por isso, estar no festival “vale sempre”, mesmo quando o foco principal não é vender. Inês Barradas considera essencial “mostrar a marca” e “dar a conhecer os vinhos”. Com estas temperaturas, também ali saíram “sobretudo brancos e vinhos mais leves”.
Entre quem veio ouvir música e quem veio dar a provar o Douro, ficou claro que o festival não se esgota no palco: vive nos copos, nas histórias das quintas, no calor que puxa pelos brancos frescos e nessa conversa demorada que começa numa prova e acaba, muitas vezes, com vontade de ir conhecer a região.
Lena d'Água, Aurea e Ronan Keating
A segunda noite, este sábado, aponta para outra viagem pela memória musical. Rui Pregal da Cunha abre o alinhamento em formato set de DJ; Lena d'Água leva ao Douro uma das vozes mais reconhecíveis da pop portuguesa; Aurea traz a força de uma voz habituada a encher palcos grandes; e Ronan Keating acrescenta a dimensão internacional de quem marcou gerações com canções pensadas para grandes plateias.
Depois de Eagle-Eye Cherry ter deixado no Douro o hino que todos aguardavam - e várias provas de que há mais caminho para lá dele - o festival avança para o segundo dia com a mesma receita: música, vinho, gastronomia e uma paisagem que não precisa de pedir espaço no cartaz.
Quando a primeira noite terminou, Cambres ficou ainda com vozes soltas no ar, copos por pousar e refrões a insistirem na cabeça de quem saía. O Douro regressou ao seu silêncio antigo. Mas este sábado volta a abrir lugar à música.
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