Após um dia particularmente pesado, é frequente sentir-se uma vontade quase incontrolável de procurar conforto num prato preferido, numa sobremesa ou num snack mais calórico. Este comportamento é tão habitual que tem até uma designação: alimentação emocional. Mas porque é que o cérebro aprende a ligar certos alimentos ao alívio da tristeza, da ansiedade ou da frustração?
A explicação passa pela forma como o organismo responde a emoções intensas. Quando atravessamos períodos de stresse ou de desgaste emocional, o cérebro tende a procurar recompensas imediatas que tragam uma sensação rápida de prazer e bem-estar. É aí que os alimentos ricos em açúcar, gordura e sal costumam ganhar protagonismo.
O cérebro busca conforto imediato
Perante a tristeza ou a pressão, activam-se mecanismos associados ao stresse. Ao mesmo tempo, o cérebro tenta encontrar soluções rápidas para diminuir o desconforto emocional.
Alimentos altamente palatáveis estimulam os circuitos de recompensa, favorecendo a libertação de substâncias ligadas ao prazer. Como consequência, pode surgir uma sensação temporária de alívio, fazendo com que a comida pareça uma resposta eficaz para lidar com emoções desagradáveis.
Para lá da componente química, existe também um lado afectivo relevante. Muitos dos alimentos vistos como “reconfortantes” estão ligados a memórias positivas da infância, a momentos em família ou a situações em que a pessoa se sentiu acolhida e protegida. Por isso, a vontade nem sempre tem origem na fome física, mas sim no desejo de voltar a sentir emoções agradáveis.
Alimentação emocional não é o mesmo que fome
Ao contrário da fome fisiológica - que aparece de forma gradual por necessidade de energia - a alimentação emocional tende a surgir de repente e está directamente relacionada com o estado emocional.
Nessas alturas, o propósito não é alimentar o corpo, mas encontrar um alívio rápido para sentimentos como tristeza, solidão, raiva ou ansiedade. O problema é que este conforto costuma ser passageiro.
Mesmo que comer um alimento de eleição melhore o humor por instantes, esse efeito normalmente desvanece pouco depois. Se a emoção que desencadeou o comportamento se mantiver, a vontade de continuar a comer pode regressar rapidamente.
Quando o alívio vira um ciclo difícil de quebrar
Recorrer de vez em quando a uma comida reconfortante, em regra, não é motivo de preocupação. A atenção deve aumentar quando essa passa a ser a estratégia principal para gerir emoções difíceis.
Nesse contexto, o alívio momentâneo pode ser seguido por culpa, frustração ou arrependimento, formando um ciclo repetitivo. Com o tempo, algumas pessoas podem sentir que precisam de quantidades cada vez maiores para obter a mesma sensação de conforto.
Estudos sugerem ainda que a dependência frequente deste mecanismo pode afectar a relação com a alimentação e aumentar o risco de problemas metabólicos e cardiovasculares.
Como lidar com a vontade de comer por emoção
Distinguir fome física de fome emocional é um dos primeiros passos. Antes de ir buscar comida, pode ser útil perguntar: estou mesmo com fome ou estou a tentar atenuar um sentimento desconfortável?
Há outras formas de ajudar a regular as emoções, como fazer actividade física, falar com alguém de confiança, ouvir música, escrever sobre o que se está a sentir ou simplesmente fazer uma pausa para perceber o que está a provocar o mal-estar.
A comida pode, em determinados momentos, trazer conforto; contudo, emoções persistentes tendem a exigir cuidados que vão para lá do prato. Compreender esta diferença ajuda a desenvolver uma relação mais equilibrada com a alimentação e com o próprio bem-estar emocional.
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