À medida que envelhecemos, o organismo passa a absorver pior os nutrientes. Por isso, incluir carne na alimentação pode ser uma ajuda importante para chegar à velhice com saúde - ainda que isso contrarie quem defende o veganismo ou o vegetarianismo como a única via “virtuosa” para viver mais.
Nunca houve tantos centenários no mundo como agora; e, até 2050, estima-se que perto de 500 milhões de pessoas terão ultrapassado os 80 anos. Se um dos principais motores do aumento da esperança de vida foi, naturalmente, o enorme salto da medicina entre as décadas de 1940 e 1980, também a forma como passámos a comer ajudou a empurrar esta tendência. No início dos anos 1990, ganhou força uma narrativa dominante: dietas vegetarianas seriam mais saudáveis e comer “demasiada” carne colocaria em risco os anos de vida com qualidade.
Envelhecimento e necessidades nutricionais: o que muda com a idade
Uma investigação recente, publicada em fevereiro na The American Journal of Clinical Nutrition, vem pôr em causa a base de muitas recomendações nutricionais repetidas há cerca de trinta anos. O trabalho analisou mais de 5 000 chineses com 80 anos ou mais e mostrou que as populações usadas para sustentar essas orientações incluíam, na maioria dos casos, pessoas que ainda nem tinham chegado aos 70. Sem o saber, os defensores do “tudo vegetal” acabaram por construir parte do seu argumento com dados que deixavam de fora precisamente quem está no grande envelhecimento - quando o corpo já não funciona como o de alguém de 40 anos.
O regime das centenárias chinesas que vai desagradar aos végans
A amostra veio da Chinese Longitudinal Healthy Longevity Survey, uma das bases de dados mais robustas do mundo, que acompanha desde 1998 milhares de centenários e nonagenários. A primeira observação do estudo é clara: entre as mulheres, quem comia carne tinha maior probabilidade de chegar aos 100 anos do que as vegetarianas. Já nos homens, não foi encontrada qualquer relação.
Antes de transformar estes resultados numa “vitória” do bife sobre o tofu, vale a pena olhar para os detalhes. O efeito não aparece em todas as vegetarianas: surge sobretudo entre mulheres com baixo peso. Nesse subgrupo, a análise indica que o consumo diário de carne está associado a um aumento de 44 % na probabilidade de ultrapassar a fasquia dos 100 anos. Porém, essa associação deixa de se verificar quando o IMC das participantes se encontra dentro dos valores normais ou acima.
Adequação nutricional: menos apetite, menos margem para falhar
O objectivo dos autores não era provar uma superioridade intrínseca da carne face a outros alimentos, mas avaliar a adequação nutricional em pessoas idosas: isto é, a capacidade de uma dieta fornecer, num volume de comida que tende a reduzir-se com a perda de apetite, todos os nutrientes essenciais para manter as funções vitais. Como referem os investigadores: « As nossas conclusões põem em evidência a importância de uma dieta equilibrada composta por alimentos de origem tanto animal como vegetal para promover um envelhecimento saudável ».
O avançar da idade altera as necessidades do corpo - e é por isso que as recomendações adequadas para pessoas mais novas não podem ser simplesmente “copiadas e coladas” quando se chega a idades muito avançadas.
Mais proteína depois dos 80 anos: o que sugere a evidência recente
A literatura científica mais recente aponta no mesmo sentido: pessoas idosas poderão precisar de ingestões proteicas acima dos limiares actualmente recomendados, em particular para ajudar a preservar a massa muscular. A perda de músculo é um dos factores que mais contribui para fragilidade e mortalidade após os 80 anos.
« É imperativo conduzir investigação com os idosos mais velhos para, finalmente, formular guias alimentares que não estejam desligados da sua realidade », concluem os autores. É um alerta que a comunidade científica, argumentam, deveria ter feito muito mais cedo, porque parece evidente que não faz sentido prescrever a mesma dieta a um adulto de 30 anos, saudável, e a uma mulher a caminho dos 85. No contexto biológico da velhice avançada, o confronto “carne contra vegetais” deixa de ser o debate central.
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