Peso económico do setor cervejeiro em Portugal
Um estudo da Nova School of Business and Economics (Nova SBE), elaborado para a APCV - Cervejeiros de Portugal e apresentado recentemente numa cimeira europeia do setor em Lisboa, estima que o setor cervejeiro tenha em Portugal um impacto económico global de 7,3 mil milhões de euros. Esse montante corresponde a 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e está associado à manutenção de mais de 170 mil postos de trabalho.
Além do contributo para a atividade económica, o relatório sublinha a capacidade do setor para gerar valor ao longo de toda a cadeia. Por cada euro de Valor Acrescentado Bruto (VAB) criado diretamente pela indústria cervejeira, resultam 18,37 euros de VAB total na economia nacional. Em paralelo, cada euro produzido pelo setor traduz-se em 12 euros de produção global na economia portuguesa.
Emprego, consumo fora de casa e efeito multiplicador da cerveja
De acordo com as conclusões do estudo, a atividade ligada à cerveja garante 170.283 empregos diretos, indiretos e induzidos, o que equivale a cerca de 3% da população ativa do país. O mesmo trabalho aponta ainda que, por cada posto de trabalho gerado diretamente pela indústria cervejeira, surgem mais 68 empregos na economia portuguesa.
Os autores assinalam também um traço distintivo de Portugal no contexto europeu: aproximadamente 70% da cerveja é consumida fora de casa, sobretudo em hotéis, restaurantes, cafés e bares. Esta é a percentagem mais alta da Europa e ajuda a explicar o peso da cerveja em áreas como a restauração, a hotelaria, o turismo, o comércio, a agricultura e a logística, dada a ligação direta a esses setores.
Para Rui Lopes Ferreira, presidente dos Cervejeiros de Portugal, estes resultados confirmam a relevância estratégica da atividade. "Os números agora divulgados mostram aquilo que torna Portugal um caso único na Europa. Cerca de 70% da cerveja é consumida fora de casa, fazendo da cerveja um importante motor da hospitalidade, do turismo e da vida social do país. Quando falamos de cerveja, falamos também de milhares de empresas, trabalhadores e comunidades que dependem desta cadeia de valor e do seu forte efeito multiplicador na economia portuguesa".
O presidente acrescenta que a importância do setor não se esgota nas métricas económicas. "Não é apenas o impacto direto na economia portuguesa que está em causa, mas sobretudo o seu efeito multiplicador. Falamos igualmente de um contributo relevante para a vitalidade social e cultural do país, através do apoio a eventos, iniciativas e espaços de convívio que ajudam a dinamizar os territórios e a aproximar pessoas".
Fiscalidade e competitividade: IVA e IABA no centro do debate
O estudo destaca ainda o reflexo do setor nas contas públicas. Só em 2025, a atividade cervejeira contribuiu com mais de 331 milhões de euros em receitas fiscais diretas para o Estado, através do IVA e do Imposto Especial de Consumo. No entanto, quando se considera toda a cadeia de valor associada à cerveja, a estimativa aponta para um impacto fiscal total na ordem dos 2,3 mil milhões de euros, incorporando igualmente impostos como IVA, IRS, IRC e contribuições para a Segurança Social.
Apesar da evolução do mercado, os produtores chamam a atenção para constrangimentos ligados à competitividade e ao enquadramento fiscal. A cerveja continua sujeita ao Imposto sobre o Álcool e as Bebidas Alcoólicas (IABA) e à taxa máxima de IVA, enquanto o vinho beneficia de um regime de isenção desse imposto especial.
Rui Lopes Ferreira defende que a intenção do setor não passa por eliminar o imposto, mas por assegurar estabilidade e previsibilidade. "Tal como sucede noutros mercados europeus, um congelamento plurianual do IABA permitiria às empresas planear investimentos de longo prazo, reforçar os seus compromissos de sustentabilidade e continuar a sustentar a vasta cadeia de valor económica e social associada ao setor cervejeiro".
Num ano em que os Cervejeiros de Portugal assinalam o 40.º aniversário, o estudo chama também a atenção para a mudança estrutural verificada nas últimas décadas. Hoje existem cerca de 100 cervejeiras em Portugal, sendo 95% pequenas e médias empresas. Muitas surgiram ao longo da última década, contribuindo para ampliar a diversidade da oferta, estimular a inovação e reforçar a valorização da cultura cervejeira nacional.
Os Cervejeiros de Portugal divulgaram igualmente indicadores de desempenho de 2025: a produção nacional subiu 1,73% e as vendas avançaram 0,88%. Num cenário em que vários mercados europeus registaram estagnação ou recuos, Portugal manteve um percurso positivo, a par de Espanha, apoiado pela forte dinâmica do turismo e pelo peso do canal HoReCa.
Cerveja sem álcool avança 11,45%
Em 2025, a cerveja sem álcool foi o segmento com maior dinamismo no mercado português, ao crescer 11,45%, um ritmo significativamente acima da média dos últimos anos, situada entre os 6% e os 8%. Este desempenho representou cerca de 27% do crescimento total do mercado doméstico, ao adicionar mais de 14 mil hectolitros ao aumento global de 55 mil hectolitros.
Ainda assim, a cerveja sem álcool continua a ter uma expressão limitada no consumo interno: representa 8% do total nacional, valor muito abaixo dos 34% observados em Espanha, o que, segundo o enquadramento apresentado, indica um potencial de evolução considerável.
Segundo Carlota Burnay, Secretária-Geral dos Cervejeiros de Portugal, "a evolução da cerveja sem álcool demonstra a capacidade do setor para inovar e responder às novas expectativas dos consumidores". A responsável lembra que as primeiras referências desta categoria apareceram há mais de três décadas e atribui o crescimento atual a "décadas de investimento em tecnologia, qualidade e inovação".
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