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Café torrado: três caffaldeídos bloqueiam a alfa-glicosidase mais do que a acarbose

Cientista de jaleco analisa amostras de café e gráficos num laboratório moderno com modelos moleculares.

O café torrado revelou três moléculas recém-identificadas que bloquearam uma enzima ligada ao processamento do açúcar com mais força do que um medicamento habitual para a diabetes.

Este resultado de laboratório reforça a relação entre a química do café e o controlo da glicemia, e sugere novos inibidores de origem alimentar.

Identificar moléculas-chave

Num extrato espesso de óleo de café, a atividade mais intensa de bloqueio enzimático concentrou-se numa faixa estreita de porções obtidas em laboratório.

Ao seguir essas porções, o fitoquímico Minghua Qiu, do Kunming Institute of Botany (KIB), conseguiu atribuir a atividade a moléculas específicas.

A equipa de Qiu dividiu café Arábica torrado - a espécie de café mais consumida no mundo - em 19 frações e foi acompanhando as que mostravam maior efeito.

Como estas moléculas atingiam uma enzima da digestão, a narrativa passou rapidamente do sabor do café para a glicemia após as refeições.

Uma enzima, picos grandes

Depois de uma refeição rica em hidratos de carbono, a enzima alfa-glicosidase converte carboidratos em glucose, fazendo com que os níveis de açúcar no sangue subam mais depressa.

Ao bloqueá-la, mais amido permanece intacto no intestino, pelo que menos glucose entra de imediato na corrente sanguínea.

Em pessoas com diabetes tipo 2, estes picos pós-refeição dificultam o controlo da insulina e levam médicos a insistirem em dieta e medicação.

Os desenvolvedores de fármacos já recorrem à acarbose, um bloqueador da alfa-glicosidase que abranda a digestão dos hidratos de carbono, mas os seus efeitos secundários muitas vezes limitam a adesão.

Conheça os caffaldeídos

As três moléculas receberam um nome - caffaldeídos - novas moléculas do café com um núcleo oleoso e diferentes ligações a ácidos gordos.

Trocar uma “cauda” lipídica por outra ligeiramente mais longa alterou a intensidade com que estes compostos bloquearam a enzima.

Sob cada cauda gordurosa encontrava-se um diterpeno - uma molécula oleosa produzida pelas plantas, construída sobre uma espinha dorsal de 20 carbonos, comum nos grãos de café.

Pequenas modificações nessa espinha dorsal podem transformar óleos de café já conhecidos em novos intervenientes biológicos, o que torna o mapeamento químico um esforço justificável.

Um referencial ao nível de fármaco

No mesmo ensaio enzimático, a equipa colocou os caffaldeídos lado a lado com a acarbose e observou quais abrandavam mais rapidamente a atividade.

Valores mais baixos significavam maior potência, porque bastavam quantidades menores de cada composto para reduzir para metade a atividade da enzima.

A acarbose precisou de uma dose superior, enquanto cada caffaldeído conseguiu o mesmo abrandamento com menos material.

Ainda assim, a potência em laboratório não assegura um medicamento melhor, já que digestão, absorção e controlo de dose se comportam de forma diferente em organismos reais.

Química em traços revelada

Compostos de baixa abundância podem desaparecer em purificações convencionais, por isso o grupo procurou moléculas aparentadas que estivessem abaixo do limiar de deteção habitual.

Com LC-MS/MS - uma ferramenta que separa moléculas e pesa fragmentos - os investigadores cartografaram sinais que coincidiam com padrões dos caffaldeídos.

Essa varredura assinalou mais três moléculas diterpénicas com caudas de ácidos gordos, numeradas de quatro a seis, e as verificações em bases de dados não encontraram correspondências.

Ao alargar a pesquisa à química em quantidades residuais, a equipa aumentou o conjunto de candidatos do café para testes futuros.

Medir a ingestão real

Os óleos do café não passam facilmente para a chávena, e muitos compostos ligados ao óleo ficam retidos nas borras e nos filtros.

Num teste laboratorial controlado, filtros de papel deixaram apenas 0,15% de cafestol no café preparado, ficando a maior parte nas borras.

Como os caffaldeídos também foram isolados de uma fração oleosa, uma caneca normal poderá fornecer muito menos do que um extrato purificado.

Concentrados ao estilo expresso podem transportar mais destas moléculas oleosas, mas a equipa ainda tem de medir os níveis reais na bebida.

Dos grãos às cápsulas

A discussão virou-se rapidamente para desenvolvimento de produtos, porque os resultados encaixam no campo dos nutracêuticos - suplementos de base alimentar comercializados por benefícios de saúde específicos.

Para criar um nutracêutico baseado em expresso, seriam necessários um extrato estável, uma dose conhecida e um método para acompanhar a pureza.

Uma revisão associou maior consumo de café a menor risco de diabetes tipo 2, embora nunca tenha demonstrado causalidade.

Essa incerteza deixa a equipa a ponderar se caffaldeídos isolados conseguem atuar por si só, ou se a mistura do café tem um papel mais relevante.

Efeitos secundários a ter em conta

Impedir a degradação dos hidratos de carbono pode ter um efeito indesejado, porque o amido remanescente alimenta micróbios intestinais e pode gerar gases, cólicas ou diarreia.

Os médicos observam isso com a acarbose: a flatulência e a dor abdominal surgem porque o cólon fermenta aquilo que a enzima deixou por digerir.

Qualquer inibidor derivado do café teria de ultrapassar o mesmo obstáculo, incluindo testes de segurança em animais e ensaios humanos rigorosos.

Até esses passos ocorrerem, os números da enzima representam apenas um ponto de partida químico, e não uma terapia pronta a usar.

Expandir para lá do café

Para além das novas moléculas, os investigadores poderão ter apresentado uma forma mais rápida de procurar bioatividade escondida em alimentos complexos.

A triagem inicial recorreu a um rastreio químico rápido para identificar padrões promissores, seguido de uma etapa mais sensível para captar sinais ténues que, de outra forma, seriam perdidos.

O título do trabalho refletiu essa estratégia, ao centrar-se num método de descoberta baseado em camadas de rastreio químico em café torrado.

Com varreduras amplas a reduzir o universo e análises mais finas a apanhar compostos em traços, buscas semelhantes poderão avançar mais depressa em chás, especiarias ou ervas.

O que vem a seguir

A investigação sobre café raramente termina num gole, e este trabalho mostra como uma bebida comum pode esconder química com alvos de tipo farmacológico.

Os próximos estudos terão de quantificar a exposição real através da preparação, e depois testar os caffaldeídos em pessoas ou em animais, com verificações de segurança cuidadosas.

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