No jardim ao lado, os ramos vergam sob o peso de figos doces, enquanto na sua figueira a colheita continua dececionantemente escassa. Em vez de atribuir a culpa apenas à variedade ou ao tempo, há um aspeto muitas vezes ignorado que merece atenção: a poda correta no final do inverno, acompanhada dos cuidados adequados.
Porque é que a poda de inverno determina ramos cheios ou vazios
Quando uma figueira cresce sem intervenção, acaba por formar, ao longo dos anos, um emaranhado de ramos. Estes cruzam-se, desenvolvem-se para o interior e podem fechar quase por completo a copa.
“Uma zona da copa escura e demasiado densa é prejudicial para os gomos frutíferos - faltam luz e ar, e as doenças propagam-se facilmente.”
Neste centro abafado, os gomos que darão fruto mantêm-se débeis. As doenças fúngicas espalham-se com maior rapidez e a energia da planta é consumida por madeira desnecessária e folhas enormes, em vez de ser dirigida para figos carnudos.
O extremo oposto é igualmente desfavorável: uma poda demasiado drástica pode eliminar grande parte dos gomos frutíferos. Perdem-se sobretudo os chamados “figos-flor”, correspondentes à primeira colheita muito precoce. Apesar de a árvore parecer saudável e vigorosa, acabará por produzir muito pouco.
O período ideal para podar situa-se entre o final do inverno e o início da primavera, aproximadamente de fevereiro a março, em dias sem geada. Nesta altura, a seiva já começa a circular lentamente e os gomos estão prestes a abrir. É precisamente então que se consegue orientar a energia da árvore para as zonas que produzirão fruto, sem a enfraquecer.
Estrutura ideal da figueira: quatro a seis ramos principais fortes
Os especialistas aconselham formar a figueira com uma estrutura simples e arejada. O objetivo é manter quatro a seis ramos principais robustos, dispostos à volta do tronco como uma taça aberta.
- Escolher apenas os ramos mais fortes e vigorosos
- Distribuí-los de forma equilibrada em redor do tronco
- Privilegiar ramos ligeiramente orientados para fora, e não para o interior
- Excluir ramos com fendas, feridas ou sinais de doença
Estes ramos principais constituem uma armação estável que permite à luz chegar profundamente à copa. A madeira morta, os rebentos que se cruzam e os ramos que voltam a crescer para o centro devem ser removidos junto à inserção. Desta forma, o coração da árvore mantém-se luminoso e bem ventilado.
Também é importante observar a zona inferior: a partir das raízes ou da base do tronco, as figueiras produzem frequentemente os chamados rebentos ladrões ou rebentos de cepa. Embora pareçam vigorosos, retiram uma parte considerável da energia da árvore e raramente originam frutos de boa qualidade.
O melhor é eliminá-los o mais junto possível da base, em vez de os cortar a meio. Um corte limpo e regular cicatriza mais depressa e diminui o risco de podridão.
Quanto cortar na poda da figueira e onde fazer o corte
Depois de definidos os ramos principais, segue-se a poda de detalhe. Cada um destes ramos apresenta várias prolongações laterais, que podem crescer bastante durante o ano. Uma regra simples é encurtar cada prolongação em cerca de um terço.
“O corte de um terço desperta os gomos dormentes mais abaixo no ramo - é aí que surgem os novos rebentos onde os figos se formarão mais tarde.”
Se o encurtamento for mínimo, o crescimento concentra-se nas extremidades e a copa envelhece a partir do interior. Se, pelo contrário, se cortar em excesso, perde-se muita madeira produtiva. Uma solução intermédia mantém a figueira equilibrada, bem formada e produtiva.
A importância do gomo voltado para o exterior
O corte não deve ser feito num ponto qualquer do ramo, mas imediatamente acima de um gomo orientado para fora. Este pequeno pormenor tem um grande efeito: o novo rebento crescerá para o exterior, abrindo ainda mais a copa em vez de a voltar a fechar.
Ao fim de vários anos, obtém-se uma copa estável, em forma de taça: clara no interior, mais densa no exterior e com muitos ramos produtivos na periferia bem iluminada. As doenças propagam-se mais lentamente e, em muitos casos, os tratamentos químicos tornam-se desnecessários.
Localização, solo e adubo: sem estas bases, a copa fica sem frutos
Mesmo uma poda perfeita não consegue compensar totalmente uma localização inadequada. As figueiras precisam, acima de tudo, de sol. Como referência, devem receber pelo menos seis horas diárias de luz solar direta.
O local mais indicado é junto a uma parede orientada a sul ou sudoeste, capaz de acumular calor e de proteger do vento. As zonas expostas a correntes de ar, sobretudo aos ventos frios de leste, atrasam o crescimento e podem danificar os rebentos jovens.
O solo deverá ser relativamente leve e com boa drenagem. O excesso de água junto às raízes causa rapidamente problemas. Um pH ligeiramente ácido a neutro, entre 6 e 6,5, é o ideal.
Uma camada de cobertura morta à volta do tronco é muito útil:
- Espessura entre 5 e 20 centímetros
- Materiais como folhas, ramos triturados, palha ou casca de pinheiro
- Sem encostar diretamente ao tronco, deixando algum espaço livre
A cobertura morta conserva melhor a humidade do solo, protege as raízes de variações acentuadas de temperatura e estimula a vida no solo. Especialmente em verões secos, ajuda a figueira a manter um crescimento mais estável.
Adubar corretamente: menos folhas, mais figos
Muitos jardineiros querem “fazer bem” à figueira e aplicam adubos demasiado ricos em azoto. O resultado são folhas gigantes e rebentos compridos, mas muito poucos figos.
“O excesso de azoto estimula a massa foliar, não os frutos. Para as figueiras, o potássio e o fósforo são muito mais importantes.”
É preferível utilizar um adubo equilibrado para árvores de fruto ou pequenos frutos, com uma proporção elevada de potássio e fósforo. Como complemento, o composto bem decomposto funciona muito bem quando é ligeiramente incorporado na camada superficial do solo no final do inverno ou no início da primavera.
Uma aplicação por ano é, em regra, suficiente. Em solos ricos em nutrientes, muitas vezes basta aplicar cobertura morta e acrescentar algum composto ocasionalmente. O excesso de adubo torna a árvore mais vulnerável à geada e às pragas, além de desequilibrar o desenvolvimento a favor das folhas.
Figueiras uníferas ou bíferas: porque a variedade é decisiva no Norte
As figueiras diferenciam-se pelo número de colheitas que produzem anualmente:
- Figueiras uníferas: uma colheita principal no final do verão
- Figueiras bíferas: primeira colheita no início do verão (figos-flor) e segunda colheita no final do verão
Em regiões mais frias e sujeitas a geadas tardias, as variedades bíferas enfrentam maiores dificuldades. Os primeiros frutos formados podem gelar facilmente antes de amadurecerem. Quem cultiva em zonas do Norte, com um clima mais agreste, consegue frequentemente melhores resultados com variedades uníferas, que concentram toda a energia numa colheita tardia mais segura.
Há ainda outro aspeto de que poucos se lembram: algumas variedades tradicionais de figueira necessitam de uma pequena vespa específica para a polinização. Em muitas regiões, este inseto está totalmente ausente. Essas variedades podem formar estruturas florais, mas sem o polinizador quase não produzem frutos aproveitáveis, por mais cuidadosa que tenha sido a poda.
Dicas práticas para a poda e erros frequentes
Quem vai realizar a primeira poda de inverno deve avançar sem pressa e observar a árvore de todos os ângulos antes de começar. Uma sequência útil é a seguinte:
- Retirar a madeira morta e claramente doente.
- Cortar os rebentos de cepa e os rebentos ladrões junto à base.
- Definir quatro a seis ramos principais e remover os ramos concorrentes.
- Encurtar os rebentos restantes em cerca de um terço, sempre acima de um gomo virado para o exterior.
Entre os erros mais comuns estão:
- Podar durante geadas intensas ou imediatamente antes de uma descida acentuada de temperatura anunciada
- Deixar tocos após o corte, que mais tarde cicatrizam mal
- Não definir uma estrutura clara, mantendo demasiados ramos principais que se ensombram mutuamente
- Aplicar demasiado adubo rico em azoto depois da poda, fazendo a massa foliar aumentar excessivamente
Porque a paciência com a figueira compensa
Muitas figueiras precisam de três a cinco anos até entrarem verdadeiramente em produção. Criar, durante esse período, uma copa arejada, fazer podas regulares e moderadas e garantir uma localização apropriada estabelece as bases para colheitas abundantes durante décadas.
As figueiras reagem de forma muito mais marcada à luz e à circulação de ar do que as árvores clássicas de pomóideas. Uma árvore com uma bonita “taça aberta” costuma dar frutos em maior quantidade e de melhor qualidade do que um arbusto desordenado, mesmo que ambos tenham a mesma idade.
Quem dispõe de pouco espaço pode até conduzir a figueira em espaldeira contra uma parede quente da casa. As regras fundamentais mantêm-se: poucos eixos fortes, uma estrutura bem definida, cortes acima de gomos voltados para fora ou lateralmente e atenção à madeira morta ou doente.
A experiência aumenta a cada poda de inverno. Ao fim de dois ou três anos, a mudança torna-se geralmente evidente: onde antes pendiam apenas alguns figos pouco animadores, os ramos passam a curvar-se visivelmente sob o peso dos frutos, e a árvore até então discreta transforma-se na estrela secreta do jardim.
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