Imagine o choque de ver o seu bebé nascer com edema cerebral, cegueira e convulsões debilitantes. Imagine depois descobrir que estas consequências devastadoras poderiam ter sido evitadas com um simples teste ao parasita comum Toxoplasma gondii.
É possível entrar em contacto com Toxoplasma em qualquer local onde um gato infetado tenha defecado, incluindo a caixa de areia, caixas de brincar com areia, jardins ou quintais. A infeção também pode ocorrer através da ingestão de água contaminada, carne mal cozinhada ou marisco.
Na maioria das pessoas, a doença é ligeira e a infeção pode ser controlada.
No entanto, quando é contraída pela primeira vez durante a gravidez, a Toxoplasma pode atravessar a placenta e provocar aborto espontâneo ou graves anomalias à nascença. Esta transmissão da mãe para o bebé durante a gestação denomina-se toxoplasmose congénita.
Nos EUA, podem nascer até 4.400 bebés com toxoplasmose congénita todos os anos.
Como professor de microbiologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Indiana, estudo no meu laboratório a biologia da Toxoplasma. As análises ao sangue permitem acompanhar a quantidade de anticorpos contra Toxoplasma na pessoa progenitora.
Um aumento desses anticorpos indica que está a ocorrer uma infeção aguda, colocando o feto em risco de toxoplasmose congénita. Contudo, a administração rápida de medicamentos antiparasitários a pessoas grávidas que desenvolvem toxoplasmose pode ajudar a proteger o feto das consequências mais graves da toxoplasmose congénita.
Vários países, entre os quais França e Áustria, realizam testes e tratamentos para a toxoplasmose durante a gravidez há décadas. O Brasil iniciou recentemente um programa semelhante.
Ainda assim, os testes à Toxoplasma não fazem parte do rastreio pré-natal nos EUA.
Porquê fazer rastreio da toxoplasmose durante a gravidez?
A Toxoplasma é uma infeção disseminada e difícil de detetar. Mais de 40 milhões de adultos norte-americanos estão infetados com este parasita, o que demonstra a facilidade com que pode ser contraído. Como, em regra, a infeção não provoca sintomas evidentes, muitas mães de bebés infetados não conseguem recordar quando nem de que forma foram infetadas.
Estudos realizados em diversos países demonstraram as vantagens de identificar e tratar a toxoplasmose durante a gravidez.
O primeiro ensaio clínico aleatorizado a avaliar a eficácia e a segurança de um tratamento destinado a reduzir a transmissão pré-natal da toxoplasmose, o Toxogest, publicou os seus resultados em 2018. Embora o ensaio tenha sido interrompido por falta de financiamento, os resultados indicaram que o tratamento não só reduzia a transmissão da infeção, como também diminuía a gravidade da doença nos casos de infeção apesar do tratamento.
Uma meta-análise de 33 estudos publicados entre 2017 e 2021 concluiu igualmente que as mulheres grávidas tratadas com o antibiótico espiramicina apresentavam taxas significativamente inferiores de transmissão do parasita aos filhos por nascer, comparativamente às mães não tratadas.
Para o Dr. Jose Montoya, investigador e clínico especializado em toxoplasmose no Laboratório Remington da Sutter Health, a utilidade do rastreio é inequívoca. "Nos países que realizam rastreio pré-natal da toxoplasmose, a gravidade da toxoplasmose congénita é muito menor do que aquela que é habitualmente observada nos EUA", afirmou.
A toxoplasmose congénita pode ser mais frequente do que se pensa
Há quem defenda que a toxoplasmose congénita é demasiado rara para justificar testes pré-natais. No entanto, os EUA já rastreiam doenças ainda mais raras do que a toxoplasmose, como a fenilcetonúria.
A incidência da toxoplasmose congénita pode também estar subestimada. Atualmente, não existem dados nacionais de vigilância da toxoplasmose, pois esta não é uma doença de notificação obrigatória a nível nacional nos EUA. Como a maioria dos estados não acompanha nem comunica esta infeção durante a gravidez, os investigadores desconhecem quantos abortos espontâneos são causados pela Toxoplasma ou quantas crianças sofrem com a infeção.
Um relatório de 2021 dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças salientou as falhas na vigilância da toxoplasmose nos EUA, indicando que testes rotineiros e normalizados durante a gravidez forneceriam dados cruciais para avaliar a dimensão desta ameaça para os bebés. Além disso, poderiam esclarecer os investigadores sobre as causas da elevada taxa de nados-mortos nos EUA, que afeta de forma desproporcionada as mulheres negras.
Alguns investigadores alertaram que a prevalência da Toxoplasma poderá aumentar devido à popularidade de alimentos de criação ao ar livre, de produção biológica, e às alterações climáticas.
Os animais criados ao ar livre têm maior probabilidade de entrar em contacto com oocistos infeciosos de Toxoplasma em pastagens exteriores e fontes de água, locais mais suscetíveis à contaminação por fezes de gatos. Temperaturas mais elevadas e tempestades mais intensas associadas às alterações climáticas favorecem a sobrevivência e dispersão dos oocistos no ambiente - por exemplo, através do aumento da erosão do solo, que polui os cursos de água.
Além disso, relatos de estirpes invulgarmente virulentas de Toxoplasma que migram da América do Sul podem agravar a severidade das infeções de toxoplasmose congénita nos EUA.
Os custos da toxoplasmose durante a gravidez
"Esta doença não tem apenas um custo físico e emocional elevado; tem também um importante custo económico", declarou a Dra. Rima McLeod, diretora do Centro de Toxoplasmose da Universidade de Chicago.
Num estudo realizado por McLeod em 2011, estimou-se que seguir o modelo francês de rastreio e tratamento pré-natal poderia poupar aos contribuintes norte-americanos US$620 por criança, ou $2.5 mil milhões por ano.
Os investigadores desenvolveram também novas tecnologias que reduzem as preocupações relacionadas com o custo dos testes.
A equipa de McLeod criou um teste económico por picada no dedo que deteta Toxoplasma em 30 minutos. Outros investigadores desenvolveram igualmente um teste baseado em saliva.
Como evitar a toxoplasmose
A Toxoplasma provoca incapacidades neurológicas e visuais significativas e permanentes em centenas de bebés que nascem nos EUA todos os anos. A toxoplasmose congénita pode ser amplamente mitigada através de protocolos de testes e tratamento pré-natais seguros e simples de executar.
"Quem realizou o ensaio clínico Toxogest não incluiu um controlo com placebo porque se considerou antiético não monitorizar e tratar a toxoplasmose congénita", afirmou Montoya.
"Mas, atualmente, as pessoas grávidas nos EUA estão a ser remetidas para um grupo de placebo desse tipo - privadas de procedimentos simples e de baixo custo que poderiam salvar os seus filhos de malformações congénitas."
Sem testes pré-natais sistemáticos para a toxoplasmose congénita, o melhor que as pessoas grávidas podem fazer é manter-se atentas aos fatores de risco. Durante a gravidez, deve evitar-se limpar a caixa de areia e outras zonas onde os gatos possam ter defecado. A fruta e os legumes devem ser lavados antes do consumo. Os produtos de carne devem ser cozinhados à temperatura adequada.
Bill Sullivan, Professor de Farmacologia e Toxicologia, Universidade de Indiana
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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