Com a chegada do outono e do frio, que convida ao recolhimento, os cozidos voltam a ganhar lugar à mesa. Há saudades de um bom cozido e de o partilhar com quem mais amamos. A seleção de vinhos desta edição da Evasões é inteiramente dedicada ao cozido à portuguesa e reúne sobretudo brancos. Ficam as nossas sugestões para começar da melhor forma a temporada que se aproxima.
Um cozido digno desse nome inclui enchidos, partes moles e legumes cozidos. Cada casa tem a sua receita e, tanto nas famílias como nos restaurantes, procura-se servir o melhor de todos. Embora saibamos que esse objetivo é, por definição, impossível de alcançar, continuamos a tentar. A variedade de legumes e o magnífico caldo são os grandes elementos diferenciadores: por isso, procuramos os melhores enchidos da época e temos tendência para servir o cozido num prato fundo, de sopa.
A acidez do vinho é decisiva para uma boa harmonização, razão pela qual privilegiamos os brancos. A seleção inclui dois estremes de Loureiro, um de Ponte de Lima e outro de Barcelos. Encontrámos também um tesouro num branco alentejano de curtimenta, que acompanhou muito bem o cozido, e um Fernão Pires do Tejo que não ficou atrás. Pelo Alentejo e por Lisboa descobrimos frescura e tonalidades vibrantes muito bem-vindas. Na Quinta do Gradil, uma verdadeira pérola feita apenas com Vital deixou-nos felizes pela sintonia com este grande prato nacional. Há ainda um branco genial da Beira Interior, que resultou muito bem. Há muito para provar e harmonizar. Que o cozido nunca nos falte. Boas provas!
Casa de Paços Loureiro Vinhas Velhas para o cozido à portuguesa
Verdes branco 2023 (11,5%) | Quinta de Paços 14€
Pontuação*: 18,5
Para encontrar uma sintonia absoluta com o magnífico caldo de um cozido bem preparado, o ponto de partida deve ser um vinho branco. A sopa do cozido é a essência de um prato popular que todos veneramos, embora nem sempre lhe prestemos a devida homenagem. As partes moles merecem tanta ou mais atenção, sendo a acidez fixa fundamental para cortar a proteína. Este Loureiro estreme é perfeito para a tarefa e vai ainda mais longe, integrando na perfeição o conjunto de enchidos e carnes.
Petrichor Branco de Curtimenta
Alentejo branco 2025 (12,5%) | JP Ramos 33€
Pontuação*: 18
Este produtor clássico do Alentejo continua a surpreender-nos, como demonstra o seu branco de curtimenta. Apesar de não pertencer a um dos estilos mais populares, é um vinho com lugar de destaque à mesa portuguesa, desde que o consideremos entre as possibilidades. Feito com Arinto e Verdelho, apresenta grande frescura. A acidez fixa, bem trabalhada, permite-lhe interagir na perfeição com as carnes do cozido e criar um ambiente brilhante à mesa.
Dona Anca Grande Reserva Fernão Pires
Tejo branco 2023 (13,5%) | Casal Martins 18€
Pontuação*: 18
Anca Poiana Martins é um nome que qualquer enófilo sério deve ter em conta nas suas escolhas. Com uma capacidade de trabalho invulgar, demonstra ano após ano o seu enorme talento enológico no seu reduto, perto de Tomar. Este vinho passou oito meses em barricas de carvalho francês, estágio durante o qual adquiriu uma textura notável. Enfrenta com avidez todos os elementos do cozido e, apoiado numa excelente acidez, consegue envolver e resolver o prato na sua totalidade.
Defesa
Alentejo branco 2025 (13%) | Esporão 7€
Pontuação*: 17
Esta marca, uma das mais antigas do grande produtor alentejano, foi também a primeira a revelar a mudança radical do portefólio de vinhos para o modo biológico. A edição de 2025 aqui apresentada dá mais um passo radical no caminho da sustentabilidade: não tem cápsula nem qualquer elemento que não diga estritamente respeito ao néctar. Delicado e requintado, este branco acompanha bem uma boa sopa de cozido, fria ou quente, e cumpre igualmente a sua função à mesa com as partes moles do prato.
Gradil Saltimbancos Vital
Lisboa branco 2024 (12%) | Quinta do Gradil 35€
Pontuação*: 17
A Quinta do Gradil junta mais um Vital estreme ao seu brilhante conjunto de vinhos brancos. Ao promover a casta e utilizá-la numa perspetiva pedagógica, tem prestado um verdadeiro serviço público. O resultado é um vinho excecional, preparado para enfrentar os maiores desafios à mesa. O mosto fermentou primeiro em inox e passou depois oito meses em pote de barro, onde ganhou notas especiadas e untuosas, com sugestões de frutos secos e laivos de mel. O fundo terroso torna-o perfeito para acompanhar um bom e substancial cozido à portuguesa.
Ameal Oito
Verdes branco 2023 (8%) | Quinta do Ameal 11€
Pontuação*: 17,5
Como é habitual na marca, este vinho é produzido exclusivamente com Loureiro. Vem de Ponte de Lima, considerada a capital da casta por ser aí que se encontram o seu berço e a sua designação. O nome remete para o grau alcoólico, alcançado através de opções de vinificação destinadas a contê-lo, sem recurso a manipulação química. Com os enchidos do cozido, produz um efeito curioso e eficaz, harmonizando sem dificuldade os restantes elementos. Também os legumes se integram muito bem com o vinho.
Soalheiro Alvarinho Granit
Verdes branco 2025 (12,5%) | Vinusoalleirus 15€
Pontuação*: 17,5
As uvas Alvarinho são próprias e provêm de vinhas plantadas em solos graníticos, a 400 metros de altitude. A fermentação decorre em inox, seguindo-se o estágio sobre borras finas, com remuagem. No nariz e na boca, a mineralidade é marcada e um conjunto atraente de amargos prepara o vinho para acompanhar um bom cozido à portuguesa. Para quem, como eu, tem o hábito de servir os legumes cozidos com mostarda de Dijon, a ligação é sublime e evoca os cozidos do Norte da Europa. A belíssima acidez deste Alvarinho exemplar resolve praticamente o prato inteiro.
Barroca da Malhada
Beira Interior branco 2023 (13%) | Barroca da Malhada 16,5€
Pontuação*: 18,5
Vindo do Brasil, Fernando Camargo investiu já de forma significativa em vinhas e numa adega perto de Castelo Branco. Com o enólogo Fábio Fernandes, tem desenvolvido uma gama de vinhos brilhante e diferenciada, enriquecendo assim o já notável património vínico da Beira Interior. O estágio durou oito meses: 80% em inox, 10% em barricas novas de carvalho nacional e 10% em ânfora. O resultado foi muito feliz e deu origem a um branco muito original, produzido com uvas próprias de Arinto, Fernão Pires e Bical. A harmonização com o cozido à portuguesa é primorosa.
Scala Coeli
Alentejo branco 2023 (13,5%) | Fundação Eugénio de Almeida 35€
Pontuação*: 19
Os Scala Coeli são feitos com castas de outras regiões, plantadas nos solos graníticos da Fundação Eugénio de Almeida. A Encruzado teve um desempenho feliz e, apesar das adversidades climáticas desse ano, foi possível produzir este branco fascinante. Muito profundo, com aromas cítricos e corpo assinalável, tornou-se um vinho único e irrepetível graças a um trabalho aturado de remuagem das borras. Enfrenta sem dificuldades o cozido no seu conjunto e é, acima de tudo, um grande Encruzado.
Suavis 3 Castas
Alentejo tinto 2023 (13,5%) | Top Wines 18€
Pontuação*: 18
João Tique é um viticultor de mão cheia e o autor integral deste vinho, o único tinto da seleção dedicada ao cozido à portuguesa. É feito com uvas próprias de Alicante Bouschet (75%), Syrah (15%) e Petit Verdot (10%). Fermenta em pequenas cubas de inox, a temperatura controlada, e estagia durante dois anos em cubas de inox e três meses em garrafa. Fiel ao nome, apresenta uma suavidade desarmante e uma ligação autêntica à terra. O perfil alcançado é fantástico e a ligação sublime com o cozido é espantosa.
Pontuação de 0 a 20






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