Henrique Sá Pessoa decidiu fechar o Alma, no Chiado, e recomeçar no Páteo Bagatela, nas Amoreiras. Aos 50 anos e com três décadas de percurso, o chef avança com um projeto mais autónomo e íntimo, onde junta técnicas e memórias de viagens pela Ásia a produto e receituário portugueses.
De Alma ao Páteo Bagatela: o novo restaurante de Henrique Sá Pessoa nas Amoreiras
Depois de 17 anos a liderar cozinhas em Lisboa - dez deles no Alma, no Chiado, onde segurou duas estrelas Michelin durante sete edições (2019-2025) - Sá Pessoa sentiu que era tempo de virar a página, mesmo que isso implicasse começar de novo numa nova morada.
"Encerrar o Alma [em dezembro de 2025] foi fechar um capítulo fundamental da minha vida. O Alma foi casa, escola e palco", afirmou no comunicado em que dava conta da saída da esfera do grupo Plateform, de Rui Sanches. A decisão ganhou peso perante a falta de margem para o restaurante crescer em termos físicos e perante as limitações associadas à gestão dentro do grupo. "No Alma, sentia que estava limitado e que não poderíamos escalar mais. Aqui, isso está desbloqueado", diz.
"Por outro lado, senti que a minha experiência e notoriedade também me trouxeram segurança para correr este risco, aliadas à estabilidade das minhas consultorias e aos meus restaurantes em Londres, Amesterdão, Macau e Porto [o Vinha, que venceu uma estrela Michelin em 2025]". A abertura nas Amoreiras coincidiu ainda com o regresso do espaço na Ala dos Chefs do Time Out Market Lisboa, depois de uma fase de remodelações. O conceito, agora com o nome HSP, manteve-se português, mas com um registo mais descontraído.
A cozinha: snacks portugueses, técnicas asiáticas e pratos sem artifícios
O tom do novo ciclo fica evidente logo numa trilogia de snacks do menu Costa a Costa, pensada como homenagem à cozinha portuguesa: escabeche de lírio curado, açorda de chawanmushi (um género de pudim flan de ovo, típico da culinária japonesa) de bacalhau e caldeirada de polvo. É também aqui que se percebe o ponto de encontro entre o que trouxe das viagens recentes por países asiáticos e a base portuguesa de sabores, produtos e receitas.
A construção dos pratos parte de uma premissa clara: "sem excessos nem artifícios". Um exemplo é o robalo corado na chapa com arroz de salsa, línguas de bacalhau e molho de açafrão - uma criação totalmente nova, intensa no sabor, a conversar com o azul marítimo que marca a identidade do novo espaço.
O espaço, a sala privada e a equipa jovem
O novo restaurante gerou alguma polémica na Gala Michelin de 10 de março, no Funchal, por ter mantido as duas estrelas apesar de ter mudado de morada e de nome, a 17 de fevereiro. A discussão prendeu-se com o facto de não ter havido tempo para os inspetores visitarem o restaurante antes do fecho da avaliação do guia. Admitindo que "em Portugal foi o primeiro caso", mas lembrando que "fora do país já aconteceu inúmeras vezes", o chef defende a continuidade da distinção com base no compromisso assumido: a manutenção da mesma equipa e do mesmo menu.
"Nesta abertura, quisemos dar um sinal de refinamento da experiência e dos pormenores, tanto do serviço como da cozinha, algo que creio que já conseguimos fazer nestes dois meses", nota Henrique Sá Pessoa. "Está a ser uma fase bastante introspetiva. Precisamos de tempo para sentirmos a dinâmica do novo espaço, afinar a luz e a acústica".
O interior - desenhado por Rebeca Perez, do Tabula Rasa Design Studio - destaca-se pelo azul escuro que cobre paredes e teto, e pela intervenção colorida da artista Kruella D'Enfer nas casas de banho. A sala é maior do que a do Alma e passa a receber 30 clientes.
Uma das novidades está na relação com uma sala privada, que pode ser reservada em exclusivo para 12 pessoas ou configurada para oito lugares. Pouco habitual na alta cozinha em Portugal, este espaço inclui uma bancada de cozinha e é, talvez, o lado mais pessoal do chef: por lá estão livros, prémios, a jaleca com que conquistou a primeira estrela Michelin em 2017 e t-shirts de jogadores de basquetebol - uma paixão antiga.
Sá Pessoa concretizou também um balcão de dois lugares em frente à cozinha, para permitir a quem se senta ali acompanhar o trabalho da equipa. O balcão terá ainda uma dimensão inclusiva e pedagógica, ao receber alunos de escolas de hotelaria, com acesso a uma experiência de alta cozinha por 75 euros. No essencial, a equipa mantém-se praticamente igual e muito jovem. Francisco de Melo Garrido destaca-se como sous-chef, assegurando consistência.
Menus de degustação, propostas à la carte e a carta de vinhos
A cozinha conserva a assinatura do chef, mas surge mais solta e adaptável, com três formatos de degustação. O Costa a Costa presta tributo aos peixes e mariscos da costa portuguesa. O Clássicos reúne pratos que representam a matriz do trabalho de Henrique Sá Pessoa. Já o Encontros - novidade - concentra o essencial da sua identidade, técnica e sabor, com uma entrada, um prato principal e uma sobremesa à escolha. A par destes menus, existem também sugestões à la carte.
Na componente vínica, o head sommelier Manuel Cambournac apostou sobretudo em vinhos nacionais. A carta chega às 242 referências, incluindo produtores internacionais e pequenos viticultores, e inclui harmonizações de sete vinhos desenhadas para acompanhar os menus.
Na sala, Miguel Lamy conduz o serviço com uma abordagem informal, sem abdicar do rigor. "Era o momento certo para criar um projeto inteiramente à minha imagem, que me representasse".
Henrique Sá Pessoa
Páteo Bagatela, Rua Artilharia 1, 51, Loja L, Lisboa
Tel.: 218 384 605
Web: henrique sapessoa.com
De quinta a sábado, das 12h às 15h e das 18h30 às 23h. Terça e quarta fecha ao almoço. Encerra domingo e segunda.
Menus de degustação: 140 euros (Encontros) e 220 euros (Clássicos e Costa a Costa), sem pairing de vinhos
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