Voltemos a junho de 1924. Estamos em Estocolmo, naquela fase do ano em que a capital sueca se mostra no seu melhor: as médias ultrapassam os 21°C e a luz do dia prolonga-se por mais de 12 horas - o oposto absoluto do solstício de inverno.
É neste contexto que dois amigos de longa data, Assar Gabrielsson e Gustav Larson, falam pela primeira vez sobre a hipótese de criarem uma marca de automóveis. Chamar-lhe apenas “conversa” talvez seja simplificar demasiado uma ideia tão grande… mas já lá vamos.
Dois meses depois desse primeiro contacto, a 24 de agosto, Assar e Larson voltam a sentar-se à mesa. O cenário? Uma marisqueira em Estocolmo.
Entre pratos de marisco - com uma lagosta a marcar o momento - nascia um compromisso que viria a deixar uma marca profunda na indústria automóvel, como se verá neste Especial 90 anos da Volvo.
Volvo em 1924: o encontro que mudou tudo
O início de uma amizade
Antes de avançarmos, vale a pena recordar onde se cruzaram os caminhos destes dois protagonistas. Assar Gabrielsson e Gustav Larson conheceram-se na Svenska Kullagerfabriken (SKF), empresa sueca de rolamentos.
Gabrielsson, formado pela Stockholm School of Economics, construiu uma carreira longa na SKF, chegando a diretor-geral de vendas.
Larson também passou pela SKF, mas enquanto engenheiro. Em 1919 saiu para integrar a AB GALCO, igualmente baseada em Estocolmo.
A ligação entre Gabrielsson e Larson ia além do simples conhecimento profissional: havia uma empatia genuína. E, além disso, as suas capacidades encaixavam na perfeição. Gabrielsson tinha a preparação económica e a capacidade de obter financiamento para lançar a Volvo; Larson dominava a vertente técnica - conceção e produção de um automóvel.
As (boas) intenções de Assar Gabrielsson
Com esta combinação de afinidade pessoal e complementaridade profissional, não surpreende que Assar Gabrielsson tenha escolhido Gustav Larson para o célebre almoço da “lagosta”.
Depois da primeira abordagem, Assar precisava de uma resposta clara: Gustav estaria disposto a assumir com ele um plano tão ambicioso quanto arriscado? Criar a primeira marca sueca de automóveis (a SAAB só apareceria em 1949).
Conta-se que a morte da esposa de Gabrielsson num acidente rodoviário terá sido o impulso emocional que faltava para avançar. Seja como for, Larson aceitou o desafio.
Relacionado: Especial Razão Automóvel - os 90 anos da Volvo
Foi nessa refeição entre dois amigos que ficaram definidos princípios para a futura marca (ainda sem nome nessa altura). E, passados mais de 90 anos, a Volvo continua associada a essa mesma base.
“O aço sueco é bom, mas as estradas suecas são más.” | Assar Gabrielsson no livro Os trinta anos da Volvo
Os automóveis teriam de ser fiáveis. Os modelos alemães, ingleses e americanos da época não tinham sido concebidos para as condições climatéricas exigentes da Escandinávia nem para as más estradas suecas.
E, além de fiáveis, teriam de ser seguros. A sinistralidade elevada nas estradas suecas durante os anos 20 era uma preocupação central para Gabrielsson e Larson - o que mostra como a segurança esteve presente desde o nascimento da Volvo.
Para ambos, se o automóvel era um símbolo de progresso e liberdade, então tinha também o dever de proteger quem o conduzia e quem nele viajava.
Da ideia ao contrato: a Volvo ganha forma
Das palavras à prática
Com o objetivo alinhado, no próprio dia do almoço da lagosta, Gabrielsson e Larson fecharam um acordo apenas verbal. O contrato formal só seria assinado mais de um ano depois, a 16 de dezembro de 1925 - o primeiro momento verdadeiramente solene.
Nesse documento ficava definido, entre outros pontos, o papel de cada um no projecto.
Gustav assumia a engenharia: teria de desenhar o primeiro modelo e preparar o plano de investimento para a futura fábrica. Havia, no entanto, uma condição importante: só seria remunerado se o plano tivesse êxito - e por êxito entenda-se produzir pelo menos 100 automóveis até 1 de janeiro de 1928. Um risco que aceitou porque, em paralelo, conseguiu manter o seu emprego na AB Galco.
Já Assar Gabrielsson ficava com o lado financeiro: colocou as suas poupanças no projecto, sem garantia de retorno.
Mesmo com riscos consideráveis, Assar também continuou na SKF. Björn Prytz, diretor-geral da SKF, não se opôs - desde que o novo projecto não prejudicasse o seu desempenho na empresa.
Não foi um impulso. Foi tudo pensado
Dois amigos, marisco e uma tarde de verão: à primeira vista, nada disto parece o início de um negócio. Mas seria uma leitura enganadora.
Como já se percebeu, a Volvo estava bem definida no produto (fiabilidade e segurança como prioridades). E o mesmo acontecia no plano empresarial (visão e estratégia).
Durante uma estadia em Paris, em 1921, Gabrielsson - então diretor comercial da SKF - notou um movimento relevante: empresas de rolamentos estavam a investir diretamente na indústria automóvel, comprando marcas. Assim, conseguiam influenciar a escolha de fornecedores e garantir volumes maiores de encomendas.
Entre 1922 e 1923, Gabrielsson propôs à SKF um modelo semelhante. O conselho de administração da empresa sueca recusou.
Tudo ou nada
O “obrigado, mas não” da SKF não diminuiu a ambição de Gabrielsson. Tanto assim foi que, em 1924, voltou ao tema com Gustav Larson - o tal encontro na marisqueira.
No livro “Os Trinta Anos de História da Volvo”, Gabrielsson descreve bem o quão difícil era encontrar financiamento para a ideia.
Os intervenientes da indústria automóvel mostravam algum interesse no nosso projecto, mas era um interesse meramente cordial. Ninguém se atrevia a investir numa marca de automóveis sueca.
Ainda assim, avançaram. Gabrielsson e Larson decidiram construir 10 protótipos, para depois regressarem à SKF com algo concreto para mostrar. Era, literalmente, o tudo ou nada.
Diz-se que optar por 10 protótipos - em vez de apenas um - funcionava também como uma espécie de salvaguarda. Se o projecto falhasse, Gabrielsson poderia tentar vender os componentes em quantidade, porque as empresas compram em volumes. Vender isoladamente uma caixa de velocidades, um motor ou um par de suspensões seria muito mais difícil.
Além disso, a dupla estava convencida de que, ao ver os primeiros protótipos do ÖV 4 (na imagem), a SKF acabaria por viabilizar o plano.
A confiança era tal que relatórios, esquemas e documentação interna seguiam já os procedimentos da SKF, para que, caso o negócio avançasse, a integração fosse mais rápida.
Mãos à obra!
Os primeiros 10 protótipos do ÖV 4 foram construídos sob a supervisão de Gustav Larson nas instalações da AB Galco - a empresa onde trabalhava, e que lhe permitia ter estabilidade financeira para continuar a dedicar-se ao projecto.
O espaço de desenvolvimento, esse, era bem mais improvisado: funcionava numa divisão do seu próprio apartamento. Era aí que Larson, depois do dia de trabalho na AB Galco, se reunia com outros engenheiros determinados para dar forma aos primeiros protótipos.
A “sede fiscal” também não era um edifício empresarial: era, neste caso, a casa de Gabrielsson. A opção servia para transmitir confiança aos fornecedores, até porque Gabrielsson era uma figura respeitada no sector. Como se percebe, vivia-se um autêntico ambiente de empresa nascente.
Da aprovação da SKF ao primeiro Volvo
Missão cumprida
O primeiro protótipo ficou concluído em junho de 1926. Assim que foi possível, Larson e Gabrielsson entraram no ÖV 4 e conduziram até Gotemburgo para apresentar à SKF o plano de investimentos. Uma entrada em grande - chegar no próprio automóvel. Brilhante, não é?
A 10 de agosto de 1926, o conselho de administração da SKF deu luz verde ao projecto de Gabrielsson e Larson. “Contem connosco!”
Apenas dois dias depois, era assinado um contrato entre a SKF e Assaf Gabrielsson, definindo a transferência dos 10 protótipos e de toda a documentação de suporte. Essa cedência seria feita a uma empresa chamada Volvo AB.
Sabias que? A palavra Volvo vem do latim e significa “Eu rodo”, numa alusão ao movimento giratório dos rolamentos. Registada em 1915, a marca Volvo pertencia originalmente à SKF e foi criada para identificar uma linha de rolamentos especiais para os EUA.
O acordo previa ainda que todo o investimento feito por Assar no projecto seria reembolsado. Gustav Larson também recebeu pagamento pelo trabalho desenvolvido. Tinham conseguido.
A 1 de janeiro de 1927, depois de três anos de trabalho intenso, Assar Gabrielsson foi nomeado presidente da Volvo. Gustav Larson, por sua vez, tornou-se vice-presidente e despediu-se da AB Galco.
A história começa aqui
Cinco meses mais tarde, pelas 10 horas da manhã, Hilmer Johansson, diretor de vendas da marca sueca, levou para a estrada o primeiro Volvo ÖV4 produzido em série.
O modelo ficaria conhecido como “Jakob”: um descapotável em azul-escuro, com guarda-lamas pretos, equipado com um motor de 4 cilindros - ver aqui.
É aqui que a história da Volvo começa, a sério - e ainda há muito para contar. Ao longo deste mês, na Razão Automóvel, vamos partilhar mais 90 anos de episódios: aventuras e contratempos, obstáculos e conquistas da Volvo.
Segue-nos para não perderes os próximos capítulos deste Especial dos 90 anos da Volvo.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário