Nos últimos dias, têm surgido nas notícias novas orientações sobre o que comer e beber quando se vive com obstipação crónica (de longa duração).
Grande parte da cobertura mediática das recomendações da Associação Britânica de Dietistas centrou-se no conselho de comer kiwi diariamente.
No entanto, outras indicações passaram mais despercebidas. Uma delas, em particular, assinala uma mudança na abordagem à obstipação crónica: as orientações não apontam, de forma generalista, para uma dieta rica em fibra.
A seguir, explicamos o que estas orientações referem que ajuda (e o que não ajuda) a aliviar a obstipação crónica.
O que foi analisado nas orientações?
Para elaborar recomendações sobre alimentos, bebidas e suplementos destinados a adultos com obstipação crónica, os investigadores analisaram 75 ensaios clínicos.
Como a qualidade dos estudos era desigual, foi necessário chegar a um consenso sobre a robustez dos dados disponíveis.
Tendo em conta que “obstipação” pode significar coisas diferentes consoante a pessoa, foi usada uma definição muito abrangente. Incluiu tanto o que os doentes entendiam como obstipação como as definições adoptadas nos ensaios clínicos. Em geral, fala-se de obstipação crónica quando alguém evacua poucas fezes, duras, durante pelo menos três meses.
No total, foram apresentadas 59 recomendações. Ainda assim, os próprios investigadores referiram que a maioria assentava em evidência de fraca qualidade.
Porque é que o kiwi? E quantos por dia?
Os investigadores aconselharam o consumo de dois a três kiwis por dia, durante pelo menos quatro semanas, para melhorar a obstipação. A evidência aponta para benefício tanto com kiwi verde como com kiwi dourado.
E porquê? Há várias explicações possíveis.
A fibra do kiwi, quando se mistura com água, aumenta bastante de volume - mais do que a fibra da maçã. Esse efeito ajuda a dar mais volume às fezes, facilitando a sua progressão ao longo do intestino.
Consumir o fruto inteiro, incluindo a casca, fornece mais fibra do que comer apenas a polpa, embora comer o kiwi sem casca seja totalmente aceitável.
O kiwi verde tem uma enzima chamada actinidina, que contribui para a digestão das proteínas no estômago e no intestino delgado. Isto pode ajudar na obstipação ao tornar as proteínas dos alimentos mais macias e, assim, potencialmente mais fáceis de atravessar o tubo digestivo.
Os kiwis também contêm um tipo de cristal chamado rafídeos. Acredita-se que estes possam aumentar a produção de muco no intestino, o que o “lubrifica” e pode facilitar a passagem das fezes.
Além disso, o consumo de kiwi pode associar-se a uma diminuição de espécies de bactérias produtoras de metano, que têm sido relacionadas com a obstipação.
Água mineral e magnésio
As orientações também referem benefícios com o consumo de água mineral. A sugestão foi beber 0,5–1,5 litros por dia (aproximadamente duas a seis chávenas) durante duas a seis semanas.
A razão prende-se com o facto de a água mineral conter, muitas vezes, magnésio, que tem um efeito laxante. Aliás, o óxido de magnésio é frequentemente utilizado como suplemento alimentar na obstipação crónica.
As recomendações confirmaram que o óxido de magnésio pode ajudar a amolecer as fezes e a aumentar a frequência das evacuações. Foi sugerida uma toma de 0,5–1,5 g por dia, durante pelo menos quatro semanas.
Ainda assim, esta opção pode não ser adequada para todas as pessoas. Por exemplo, quem tem doença renal deve ter cuidados acrescidos. Além disso, suplementos de magnésio podem interagir com outros medicamentos.
Pão de centeio
Foram citados estudos em que o pão de centeio aliviou a obstipação mais do que o pão branco ou do que laxantes comuns.
A recomendação proposta foi ingerir seis a oito fatias por dia de pão de centeio, durante pelo menos três semanas.
Contudo, para muitas pessoas, este nível de consumo não é realista. E, como o centeio contém glúten, não é indicado para quem tem doença celíaca.
Afinal, pode não ser necessária uma dieta rica em fibra
Houve um ponto particularmente inesperado nestas orientações.
Os investigadores referiram falta de evidência sólida a favor de dietas genericamente “ricas em fibra” para obstipação, quando as pessoas consomem pelo menos 25 g de fibra por dia.
A lógica apresentada foi a seguinte: os investigadores só encontraram um ensaio clínico aleatorizado e controlado - o padrão-ouro para testar intervenções, como alterações alimentares - em que se comparou uma dieta rica em fibra (25–30 g/dia) com uma dieta pobre em fibra (15–20 g/dia).
Nesse ensaio, não se observou benefício da dieta rica em fibra na melhoria da obstipação. As pessoas que seguiram a dieta pobre em fibra tiveram menos gases e menos inchaço abdominal do que as que consumiram mais fibra.
Isto não significa que a fibra não ajude na obstipação. Existe boa evidência de que aumentar a fibra através de suplementação pode ser útil na obstipação crónica.
Assim, em vez de colocar a tónica numa dieta rica em fibra para a obstipação, estas orientações recomendam tomar pelo menos 10 g por dia de um suplemento de fibra, como o psílio.
Uma alimentação rica em fibra costuma ser uma peça central das orientações alimentares nacionais. Por exemplo, as Dietary Guidelines for Americans recomendam que alguns adultos consumam pelo menos 28 g de fibra alimentar por dia. Há, de facto, benefícios para a saúde, como a redução do colesterol e da glicemia, associados a uma dieta rica em fibra.
Mas, segundo o que agora se sabe, isso não é indispensável para aliviar a obstipação crónica.
O que podemos retirar destas orientações?
Estas orientações apresentam aconselhamento alimentar mais personalizado e baseado em evidência, ajustado aos sintomas dos doentes, do que recomendações anteriores.
O kiwi é encarado como uma abordagem segura e eficaz para a obstipação crónica. A água mineral, os suplementos de magnésio e o pão de centeio também podem contribuir.
Ainda assim, pode ser sensato discutir o uso de suplementos de magnésio com um profissional de saúde, sobretudo se houver preocupações relacionadas com doença renal ou se estiver a tomar outros medicamentos.
Vincent Ho, Professor Associado e Gastroenterologista Académico Clínico, Western Sydney University
Este artigo foi republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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