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Arroz, trigo e milho podem fornecer mais proteína sem reduzir as colheitas

Pessoa com bata branca segura grãos de cereal numa mão, campo de arroz dourado ao fundo.

A investigação recente indica que o arroz, o trigo e o milho podem ser selecionados para conter mais proteína útil, sem comprometer as colheitas das quais dependem milhares de milhões de pessoas.

O estudo sugere que os cereais do dia a dia podem ajudar a atenuar as carências de proteína e a diminuir a dependência de alimentos de origem animal, associados a emissões mais elevadas.

Os cereais não têm proteína suficiente

As provas relativas ao arroz, ao trigo e ao milho revelam uma limitação clara dos alimentos mais comuns no mundo: fornecem calorias com facilidade, mas a qualidade da proteína é frequentemente insuficiente.

Ao acompanhar a forma como os cereais acumulam reservas alimentares no Instituto Internacional de Investigação do Arroz, a Dra. Nese Sreenivasulu demonstrou porque é necessário que os melhoradores direcionem mais azoto para a proteína da semente.

Esta limitação pode ser alterada quando o melhoramento aumenta simultaneamente a quantidade de proteína e os aminoácidos, os componentes básicos das proteínas.

Assim, os pratos diários de arroz ou milho passam a ser um objetivo nutricional, e não apenas uma fonte de energia barata.

Os cereais fornecem energia, mas pouca proteína

A maior parte das calorias dos cereais provém do amido, o hidrato de carbono de reserva que as plantas acumulam nas sementes para o crescimento futuro.

O corpo humano consegue utilizar esse amido como energia, mas não é capaz de produzir todos os componentes proteicos necessários ao crescimento.

“Mais de metade da população mundial alimenta-se de arroz, mas este cereal é naturalmente pobre em proteína (6%) e carece de aminoácidos essenciais fundamentais de que o nosso organismo necessita para o crescimento, a imunidade e a saúde em geral”, afirmou Sreenivasulu.

Uma estimativa global de 2019 calculou em 14,77 milhões os casos de malnutrição proteico-energética, uma carência de calorias e proteína.

Os genes ajudam a melhorar a proteína

No interior de um grão, os melhoradores enfrentam uma disputa simples entre o amido que fornece calorias e a proteína necessária ao crescimento.

Quando uma planta produz mais amido, sobra menos matéria para proteína, a menos que também aumente o fluxo de azoto.

Os genes benéficos regulam os transportadores de aminoácidos, proteínas transportadoras que levam os componentes proteicos até às sementes em desenvolvimento.

As variedades melhoradas precisam de elevar esse fluxo sem tornar os grãos mais pequenos, mais moles ou mais difíceis de cozinhar.

O arroz pode ter mais proteína

O arroz com elevado teor de proteína já demonstrou como um alimento básico pode ser transformado sem obrigar as famílias a mudar as suas refeições.

Um estudo anterior sobre arroz desenvolveu linhas com mais de 14% de proteína e um índice glicémico mais baixo, uma medida da resposta da glicemia.

A linha mais forte continha mais lisina, um aminoácido essencial utilizado no crescimento e na reparação, do que a proteína habitual dos cereais.

Picos menores de glicemia podem ser relevantes nas regiões onde o arroz é consumido regularmente e onde a diabetes e as carências de proteína frequentemente coexistem.

Os aumentos de proteína podem ter efeitos negativos se o grão perder demasiado amido ou se a planta produzir menos sementes. O trigo evidencia fortemente este compromisso, porque o enchimento do grão dilui muitas vezes a proteína à medida que o amido se acumula.

O arroz e o milho apresentam uma absorção de azoto mais flexível durante o enchimento, o que dá aos melhoradores maior margem de intervenção. Ainda assim, todas as linhas promissoras têm de provar que conseguem abastecer os mercados dos agricultores, e não apenas as bancadas dos laboratórios.

O clima pode alterar a proteína

A pressão climática acrescenta outro desafio, pois o calor e o dióxido de carbono podem afetar a qualidade dos grãos em sentidos opostos.

O aumento do dióxido de carbono, o gás que impulsiona grande parte do aquecimento atual, pode elevar o amido e reduzir a proteína no arroz e no trigo.

O calor pode aumentar a percentagem de proteína ao abrandar a formação de amido, mas também pode prejudicar a qualidade de cozedura e a textura.

Por isso, os melhoradores precisam de cereais que mantenham a nutrição estável perante o stress meteorológico, e não apenas em ensaios controlados.

As escolhas alimentares também contam

A melhoria da proteína dos cereais funciona melhor em conjunto com leguminosas, culturas como o feijão e a ervilha que já fornecem proteínas mais ricas em muitas dietas.

Um inquérito alimentar realizado na Índia concluiu que um maior consumo de hidratos de carbono aumentava os riscos para a saúde em 14-30%, enquanto a substituição de apenas 5% por proteína reduzia o risco de diabetes.

Ao analisarem as dietas no seu conjunto, os investigadores verificaram que as refeições centradas em alimentos vegetais também podem reduzir a poluição associada à produção alimentar.

Em alguns casos, estas alterações poderiam cortar as emissões em até 32%, mantendo ao mesmo tempo as necessidades nutricionais diárias das pessoas.

O melhoramento tem de proteger a qualidade

A adição de nutrientes por biofortificação, isto é, o melhoramento de culturas para terem mais nutrientes, não pode concentrar-se apenas na proteína.

Se os novos genes direcionarem demasiado azoto para a semente, a planta pode perder perfilhos, peso do grão ou qualidade alimentar.

O melhoramento moderno permite combinar alelos benéficos, versões úteis de genes, para melhorar várias características em simultâneo, em vez de as colocar em competição.

Esta combinação cuidadosa é importante porque os agricultores rejeitam culturas nutritivas que falham no campo ou na cozinha.

Os agricultores precisam de rentabilidade e produtividade

Os agricultores avaliarão estes cereais pela produtividade, pelo custo da semente, pela qualidade de moagem e pela capacidade dos compradores de pagar um valor suficiente.

Colheitas de arroz mais curtas, de cerca de 100-110 dias, podem ser úteis onde as épocas de cultivo são reduzidas.

As variedades com elevado teor de proteína também têm de conservar um sabor familiar, pois uma melhor nutrição não resulta se as famílias evitarem o alimento.

Uma implementação bem-sucedida dependerá de programas locais de melhoramento, de sistemas públicos de sementes e de preços que recompensem a adoção.

Os cereais ricos em proteína não substituirão dietas diversificadas, mas podem fazer com que as calorias diárias tenham maior valor onde as opções são limitadas.

As próximas etapas devem testar em conjunto a produtividade, o sabor, o custo e o desempenho climático, para que melhores cereais cheguem às pessoas sem criar novos encargos.

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