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Califórnia combate o desperdício alimentar com datas de validade padronizadas

Mulher a segurar garrafa de leite e saco com alimentos enquanto faz compras num supermercado.

Demasiados alimentos perfeitamente seguros acabam no lixo na Califórnia: muitos consumidores confiam em excesso no que vem impresso nas embalagens e interpretam as datas como se fossem um veredicto absoluto. O Estado decidiu que estava na hora de pôr fim a menções ambíguas que encurtam artificialmente a “vida” dos produtos vendidos nos supermercados.

Desperdício alimentar e a obsessão pelas datas na Califórnia

Nos Estados Unidos, os rótulos com datas estão entre as principais causas de desperdício alimentar nas casas e representam perto de 20% do desperdício nacional, segundo a FDA (Food and Drug Administration). Só na Califórnia, isso traduz-se em cerca de seis milhões de toneladas de alimentos ainda comestíveis deitadas fora todos os anos. Perante a “santa” ansiedade em torno da data de validade, a 1 de julho o Estado proibiu oficialmente as formulações vagas e passou a exigir um sistema de rotulagem normalizado.

Impacto ambiental: metano nas lixeiras e emissões

A medida deverá aliviar os aterros e, com o tempo, ajudar a cortar emissões de gases com efeito de estufa: privados de oxigénio sob camadas de resíduos, estes alimentos degradam-se e libertam metano, um gás com um poder de aquecimento cerca de 80 vezes superior ao do CO₂.

Mais de 50 formas de indicar “validade”: a confusão da rotulagem americana

Em França, perceber se um alimento ainda está bom para consumo ou não é relativamente simples, apesar de continuarmos a desperdiçar demasiada comida. Há a menção “a consumir até...” (a Date Limite de Consommation, DLC), destinada a produtos frescos e muito perecíveis, e “a consumir de preferência antes de...” (a Date de Durabilité Minimale, DDM), que surge em produtos secos ou pouco perecíveis. No primeiro caso, o mais sensato é não arriscar ao consumir algo com esse tipo de indicação; no segundo, não existe qualquer perigo para a saúde.

Do outro lado do Atlântico, a situação é quase absurda: existem mais de 50 formulações diferentes nas embalagens, num sistema largamente desregulado em que a esmagadora maioria dessas datas não está relacionada com segurança alimentar. O exemplo mais emblemático é “sell by”, uma indicação que serve, antes de mais, para dizer aos comerciantes até quando devem manter o produto na prateleira.

Para quem compra, o resultado é um quebra-cabeças: muitas pessoas interpretam essa data como um limite sanitário e acabam por deitar fora alimentos perfeitamente comestíveis. Na prática, o produto costuma manter-se bom por vários dias - e por vezes por várias semanas - após a data indicada.

Ao contrário de França e da União Europeia, onde a distinção entre DLC e DDM é rigorosa e harmonizada por lei, não existe nenhuma lei federal que imponha ou enquadre estas datas (com a exceção notável do leite artificial/fórmula para bebés); por isso, cada Estado define as suas próprias regras.

As duas menções padrão: “Best if Used By” e “Use By”

Com a nova reforma, a Califórnia decidiu ficar apenas com duas: “Best if Used By”, equivalente à DDM, e “Use By”, que corresponde à DLC.

Não precisamos de construir uma espécie de infraestrutura gigante ou investir toneladas de dinheiro para resolver este problema. Precisamos simplesmente de que as empresas usem as mesmas palavras de uma marca para a outra”, afirmou Nick Lapis, director de advocacy na Californians Against Waste, a organização que co-patrocinou o projecto de lei.

A Califórnia passa, assim, a ser o primeiro Estado norte-americano a legislar de forma tão rigorosa, banindo menções vagas e impondo uma rotulagem padronizada em todo o seu território. Nova Iorque acabou de aprovar um texto quase idêntico, ainda à espera da assinatura da governadora Kathy Hochul, e a pressão também aumenta a nível federal. O Food Date Labeling Act (o nome do projecto) é promovido por uma coligação bipartidária para pedir ao Congresso que a norma seja aplicada em todo o país. Dez anos depois das primeiras recomendações do Ministério da Agricultura, os Estados Unidos demoraram demasiado a inspirar-se no bom senso europeu.

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