As úberes doentes não são novidade numa exploração leiteira. Com alguma frequência, as vacas desenvolvem glândulas mamárias dolorosas e inchadas, e um veterinário consegue, na maioria das vezes, atribuir o problema a uma infeção bacteriana comum. Raramente há mistério.
No início de 2024, vários efetivos na região do Panhandle do Texas apresentaram essas mesmas inflamações nos úberes, mas todos os testes a bactérias davam negativos.
Havia algo mais estranho a passar de animal para animal - e só semanas depois teria um nome.
O suspeito errado
O diagnóstico óbvio foi mastite, pelo que os veterinários seguiram a pista dos agentes bacterianos habituais e não encontraram nada que encaixasse.
Só quando os investigadores olharam com mais detalhe é que as amostras começaram a contar outra história: primeiro um beco sem saída, depois uma pista.
O agente era a gripe das aves. Uma estirpe H5N1 tinha aparecido, pela primeira vez, em bovinos leiteiros. Esse salto era considerado improvável, e um relatório inicial descreveu como poderia ter chegado.
O Dr. Suresh Kuchipudi, que dirige a área de doenças infeciosas e microbiologia na Escola de Saúde Pública da Universidade de Pittsburgh, passou a carreira a estudar como os vírus da gripe escolhem os seus hospedeiros. O gado nunca tinha feito parte dessa lista.
Escondida no úbere
O que tornou este surto tão difícil de detetar foi a forma como se disfarçou. Noutros mamíferos, o H5N1 ataca com força os pulmões. Nas vacas, porém, poupou-os e foi diretamente ao úbere.
“Quando o verdadeiro culpado acabou por ser a gripe das aves, toda a gente no terreno foi apanhada completamente de surpresa”, afirmou Kuchipudi.
As vacas doentes libertavam o vírus diretamente no leite, o que levantou preocupações reais para os trabalhadores das explorações e para animais de companhia alimentados com leite cru em casa. Um estudo concluiu que alguns gatos que o beberam morreram mais tarde.
O leite pasteurizado manteve-se seguro, porque o calor elimina o vírus de forma fiável. O risco concentrava-se no leite cru e nas próprias explorações, onde a infeção circulou entre efetivos durante semanas antes de alguém saber o que procurar.
Os recetores certos
A capacidade de um vírus da gripe entrar numa célula depende do que existe à superfície dessa célula.
O vírus usa uma proteína para se ligar a um açúcar específico chamado ácido siálico; sem compatibilidade, não consegue entrar.
Os vírus adaptados a aves e os adaptados a humanos preferem versões ligeiramente diferentes desse açúcar.
A estirpe encontrada em bovinos comporta-se como um vírus clássico de aves, mostrando uma forte preferência pela versão do tipo aviário - como descreveu em detalhe um artigo sobre a sua estrutura.
Trabalhos anteriores tinham identificado alguns recetores do tipo aviário na traqueia da vaca, o que só aumentou o enigma.
As vias respiratórias pareciam ter aquilo de que o vírus precisava, e ainda assim os pulmões permaneciam limpos enquanto o úbere se degradava.
Mapear os tecidos
Para esclarecer a questão, os investigadores mapearam os açúcares em vários tecidos de vacas usando glicómica - um método para catalogar o conjunto completo destas moléculas.
Kuchipudi juntou-se à especialista Dra. Lauren E. Pepi, da Faculdade de Medicina de Harvard.
A equipa combinou mapeamento de açúcares, colorações que fazem os recetores “acender”, testes de ligação do vírus e técnicas de imagiologia de elevada potência.
Ao microscópio, os recetores que o vírus consegue utilizar surgiam como pontos amarelos brilhantes espalhados pelo tecido.
Ao comparar tecido do úbere com tecido das vias respiratórias das mesmas vacas, o grupo conseguiu finalmente ver que açúcares estavam em cada local. O padrão tornou-se inequívoco: a mesma vaca, resultados opostos.
O que revelaram os mapas
Até este estudo, ninguém tinha explicado de forma definitiva porque é que os pulmões eram poupados. O vírus da gripe só conseguia agarrar uma forma do açúcar - e essa forma era abundante no úbere, enquanto estava praticamente ausente nas vias respiratórias.
A traqueia da vaca continha açúcares, mas não do tipo de que o vírus precisava; por isso, os recetores observados anteriormente eram do tipo errado.
Essa falta de correspondência ajuda, provavelmente, a explicar porque é que as vias respiratórias se mantiveram “silenciosas”, apesar de parecerem um alvo plausível.
Para confirmar, a equipa construiu um vírus substituto inofensivo, capaz de se acoplar às células sem se replicar.
Num microscópio de alta potência, esse substituto aderiu ao revestimento do úbere e ignorou as vias respiratórias. O vírus vivo fez o mesmo.
Os investigadores concluíram que o úbere oferecia um terreno ideal para o vírus se multiplicar.
Outros grupos tinham contado recetores nas vias respiratórias e assumido que o vírus os poderia usar, mas a identificação do tipo exato de açúcar mostrou por que motivo não conseguia.
Um quadro preditivo
O mapeamento de recetores dá aos cientistas uma forma de colocar a mesma pergunta a qualquer animal.
Se se verificar que recetores de açúcar uma espécie tem - e onde se encontram - é possível estimar se o vírus poderia estabelecer-se e que órgão tenderia a atingir.
As espécies podem sofrer problemas respiratórios, infeções do úbere como as observadas em vacas leiteiras, ou doença neurológica.
Os sintomas dependem, em grande medida, de onde o vírus encontra os recetores de que precisa para entrar nas células.
A análise prévia de tecidos poderia sinalizar um hospedeiro vulnerável antes de um surto ganhar força, em vez de só depois de semanas de disseminação silenciosa.
Foi precisamente essa vantagem que faltou quando o vírus chegou pela primeira vez ao gado.
O que muda agora
Para agricultores e autoridades de saúde, este trabalho aponta um caminho para reconhecer mais depressa a próxima vez que o vírus surgir num contexto inesperado.
Se os veterinários souberem que tecidos vigiar, conseguem detetar uma infeção cedo - e não apenas após semanas de tentativas falhadas.
Com mais de 100 espécies de aves e mamíferos já afetadas em todo o mundo, o próximo salto parece ser uma questão de quando, e não de se.
Agora, os cientistas podem antecipar onde o vírus poderá atacar antes de chegar, em vez de serem apanhados desprevenidos como aconteceu no Texas.
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