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Havfarm: o “não-navio” de 385 metros que está a mudar a aquicultura do salmão

Técnico em fato laranja operando equipamento próximo a viveiros circulares de criação de peixes no mar aberto.

Do cais, a cena parece uma miragem. Uma estrutura comprida e baixa recorta-se sobre o mar cor de aço; das suas costas erguem-se gruas, e as gaivotas descrevem círculos como se tivessem dado com um novo continente. Nos barcos turísticos, as pessoas levantam os telemóveis, semicerram os olhos e repetem, quase sempre, a mesma pergunta: “Isso é… um navio?” O capitão sorri e nega com a cabeça. “Não”, responde. “É uma quinta.”

A Havfarm não se desloca. Quem se mexe são as ondas. O céu muda. E os peixes, esses, mexem-se de certeza. Já o enorme corpo metálico - 385 metros de engenharia norueguesa - fica ali, preso ao mar bravo.

O que está a ver não é um navio. Pode muito bem ser um vislumbre do futuro da alimentação.

Quando o “navio” no horizonte afinal é uma quinta

A primeira aproximação à Havfarm baralha o cérebro. Os olhos classificam aquilo como “petroleiro” ou “cargueiro”. O corpo sente a vibração do motor do barco em que segue. Mas a massa à frente permanece estranhamente imóvel. Não há esteira, não há corrente de âncora - apenas uma coluna vertebral de aço, enorme, suspensa acima da linha de água.

O comprimento é superior ao de quatro campos de futebol alinhados. De um extremo, mal se distingue o outro. O mar ondula por baixo, como se as próprias vagas fossem gado a atravessar um celeiro gigantesco ao ar livre.

A Havfarm pertence à empresa norueguesa Nordlaks e está ao largo da costa do norte da Noruega, onde o vento de Inverno não pede licença. A estrutura suporta seis jaulas colossais suspensas em mar aberto, cada uma com largura suficiente para “engolir” por inteiro uma exploração piscícola comum. Lá dentro: milhões de salmões do Atlântico, desenhando arcos de brilho quando o sol lhes acerta no ângulo certo.

Nada disto foi feito ao acaso, como quem atira um esqueleto metálico à água e espera pelo melhor. Foram analisadas correntes, padrões de ondulação, tempestades e comportamento dos peixes. O desenho permite uma renovação contínua da água - o mar atravessa as jaulas, “lavando” os viveiros com água fria e limpa e oferecendo aos salmões condições mais próximas do que teriam no seu habitat.

Há décadas que a Noruega cria salmão em fiordes abrigados, baías calmas e enseadas fotogénicas. Esse modelo ajudou a colocar salmão barato nas prateleiras de supermercados por todo o mundo, mas também trouxe sobrelotação, plumas de poluição e problemas de parasitas alimentados por ambientes apertados. Ao empurrar instalações como a Havfarm para águas mais duras e profundas, o sector tenta fugir a essas limitações.

A lógica é fácil de enunciar. Mais espaço, água mais limpa, correntes mais fortes, menos surtos de doença e menos resíduos a acumularem-se no fundo. Ao largo, a exploração passa a integrar um sistema maior e mais dinâmico, em vez de ficar presa a um canto estagnado de um fiorde. Pelo menos, é essa a esperança soldada em cada metro da estrutura de 385 metros.

Como é que se “cultiva” salmão em pleno mar?

Na Havfarm, o dia arranca com ecrãs. A sala de controlo brilha com vídeo em directo de câmaras subaquáticas: vê-se como os peixes se deslocam, como comem, como reagem quando a corrente muda. Os operadores ajustam a alimentação ao segundo, não à semana. Procuram sinais de stress com a atenção de um bom agricultor a observar o rebanho ao nascer do sol.

As jaulas descem muito abaixo da estrutura e ficam presas por cabos grossos. À medida que as vagas passam em cadência, a instalação cede um pouco, quase como uma cana metálica em câmara lenta. Sensores registam tudo - do oxigénio à temperatura e à altura das ondas - e enviam dados, continuamente, para terra.

Alimentar os salmões tem um rigor quase cirúrgico. Os pellets seguem por tubagens compridas até pontos específicos de cada jaula. Os computadores modulam o caudal conforme a voracidade do cardume. Se o apetite abranda, o fluxo reduz-se. Este detalhe conta: cada pellet que não é comido é dinheiro desperdiçado e poluição adicional.

Durante muito tempo, os mergulhadores foram os olhos e as mãos destas explorações. Hoje, grande parte do trabalho arriscado passa para robôs e veículos operados à distância. São eles que verificam redes, removem incrustações e confirmam que predadores, como focas, não abriram caminho a dentada. Assim, as equipas na Havfarm podem ficar ao seco, enquanto as máquinas enfrentam o pior do frio e da escuridão.

A ideia por trás da Havfarm é prática, não romântica. O apetite mundial por salmão continua a crescer e o espaço costeiro é limitado. Se quisermos peixe no prato sem esgotar as populações selvagens, as explorações têm de ser mais inteligentes, maiores e mais resistentes. Megaestruturas em mar aberto são uma das respostas.

Ao posicionar-se em águas mais profundas e em movimento, a Havfarm distribui o impacto por uma área muito mais ampla. Os resíduos dispersam-se com mais rapidez, os parasitas têm mais dificuldade em passar de peixe para peixe e as rotas de migração do salmão selvagem evitam as zonas de maior pressão. Ainda assim, os críticos mantêm preocupações com fugas e com a pegada ecológica a longo prazo. O princípio, porém, é criar de uma forma que imite o oceano mais do que o combata.

A esperança, as dúvidas e a verdade simples sobre quintas gigantes no mar

Em pé no convés, repara primeiro no detalhe: o cheiro da ração, o zumbido constante, o assobio do ar comprimido. Depois, apanha um salmão a saltar - prata viva sobre a água escura - e algo muda. De repente, isto deixa de ser um esquema abstrato sobre “sistemas alimentares globais”. É uma massa viva e pulsante de animais, criados para que alguém, algures, consiga jantar bem numa noite de terça-feira.

Depois de ver isto, torna-se difícil olhar para o peixe do supermercado da mesma maneira.

As discussões sobre projectos como a Havfarm aquecem depressa. Organizações ambientais apontam exemplos do passado: peixes fugidos a cruzarem-se com populações selvagens, surtos de piolhos-do-mar, montanhas de resíduos a assentarem no fundo. Do outro lado, a indústria responde com números sobre emprego, exportações e a necessidade de proteína numa população em crescimento. E quem está entre o balcão do peixe e o telemóvel fica a pensar em quem confiar.

Sejamos francos: quase ninguém lê todos os relatórios técnicos antes de comprar um filete. A maioria de nós orienta-se com meia-informação e instinto, tentando não transformar o jantar numa sessão de culpa.

“As explorações ao largo, como a Havfarm, são uma aposta”, diz um biólogo marinho que acompanha o projecto desde os primeiros tempos. “É uma aposta de que melhor engenharia e localizações mais exigentes conseguem reduzir os velhos problemas da criação costeira de salmão. Não vai ser perfeito. Mas não fazer nada, enquanto a procura explode, também é uma escolha. Estamos a decidir, enquanto espécie, como queremos alimentar-nos.”

  • Pergunte de onde vem o seu salmão – Os rótulos costumam indicar o país de origem e se é de aquicultura ou selvagem. Nessa pequena linha está escondida uma história inteira.
  • Consulte uma fonte independente – Uma ONG local, um relatório de um instituto marinho ou um guia de consumo dão contexto sem linguagem de marketing.
  • Aceite que todas as opções têm custos e compromissos – Selvagem, de aquicultura, ao largo, costeiro: cada um traz impactos ambientais, sociais e económicos.
  • Repare no que sente – Curiosidade, desconforto, fascínio: essas reacções ajudam a perceber o que valoriza nas escolhas alimentares.
  • Fale sobre o tema – Com amigos, filhos, colegas. Estruturas como a Havfarm existem, em parte, porque raramente questionamos a origem do jantar.

O que um “não-navio” de 385 metros diz sobre nós

Ver a Havfarm no horizonte é deslumbrante e, ao mesmo tempo, ligeiramente inquietante. Por um lado, é um monumento à criatividade humana: uma cidade flutuante para peixes, ancorada ao tempo cru do Atlântico Norte, a alimentar pessoas a milhares de quilómetros. Por outro, é um lembrete brutal de que já construímos infraestruturas à escala do oceano apenas para sustentar hábitos do dia-a-dia.

Toda a gente já passou por esse clique mental: perceber que algo dado por garantido - um filete de salmão barato, um rolo de sushi, uma sanduíche com salmão fumado - assenta em camadas de engenharia, política e risco em que nunca teve de pensar.

Projectos como a Havfarm não vão ficar isolados por muito tempo. Já existem conceitos semelhantes em pranchetas na China, no Chile e na Escócia, cada um a prometer ser mais limpo, mais seguro, mais inteligente. Uns vão resultar, outros vão falhar, e alguns poderão ser abandonados discretamente depois de uma tempestade de Inverno correr mal. O que deve permanecer é a trajectória: a produção de alimentos a avançar para mais longe da costa, mais dependente de dados, e mais enredada em ecossistemas complexos que não cabem em slogans.

Quer aplauda essa mudança, quer a tema, a vista a partir do cais já não é a mesma.

Da próxima vez que vir uma forma comprida e estranha no mar e alguém lhe chamar “um navio enorme”, talvez olhe duas vezes. Talvez imagine os salmões a rodopiar silenciosos sob a superfície, os engenheiros a verem as ondas num ecrã, as discussões a acontecerem em conselhos de administração e ministérios. Talvez até sinta uma pequena ligação entre o seu prato e aquela linha distante de aço.

O que está a ver não é um navio. É um ponto de interrogação, preso ao oceano, à espera de uma resposta de todos nós que comemos.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Megaquinta de salmão ao largo A Havfarm é uma estrutura de 385 metros que mantém milhões de salmões em jaulas de mar aberto Dá contexto quando ouvir falar da “maior quinta de salmão do mundo” nas notícias ou ao balcão do peixe
Porque é que as explorações estão a ir para o largo Correntes mais fortes e maior profundidade diluem resíduos, reduzem o risco de doença e aliviam a pressão sobre fiordes sobrelotados Ajuda a compreender as alegações ambientais associadas ao salmão de aquicultura e a avaliá-las com mais sentido crítico
O seu papel enquanto consumidor Acções simples: confirmar rótulos, consultar uma fonte neutra, aceitar compromissos, falar sobre a origem Transforma um projecto industrial distante em algo a que pode responder nas escolhas alimentares do dia-a-dia

Perguntas frequentes:

  • A Havfarm é mesmo maior do que um navio de cruzeiro? Em comprimento, sim: com cerca de 385 metros, a Havfarm é mais longa do que muitos grandes navios de cruzeiro, embora seja mais baixa e tenha sido concebida como uma plataforma de produção estacionária, e não como embarcação de passageiros.
  • Os salmões na Havfarm são selvagens ou de aquicultura? São de aquicultura. Começam a vida em maternidades em terra e, depois, são transferidos para as jaulas ao largo, onde crescem até ao tamanho de abate em água do mar filtrada e em circulação.
  • A criação de salmão ao largo é melhor para o ambiente? Pode reduzir alguns problemas observados em fiordes abrigados, como resíduos concentrados e parasitas, graças a correntes mais fortes e a mais espaço. Ainda assim, permanecem dúvidas sobre fugas, origem da ração e impactos a longo prazo nos ecossistemas.
  • É possível visitar a Havfarm como turista? A Havfarm é uma instalação industrial, não um parque temático. O acesso costuma estar limitado a trabalhadores, inspectores e investigadores, embora alguns operadores turísticos locais possam oferecer passeios de barco com observação à distância.
  • Comprar salmão de explorações ao largo custa mais? Em geral, os custos de produção ao largo são mais elevados devido à engenharia e à manutenção. Se paga mais ou não depende da marca, da concorrência no mercado e de como os retalhistas posicionam o produto nas prateleiras.

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