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Águas aromatizadas: o que realmente está dentro das garrafas?

Mulher a ler rótulo de bebida numa prateleira de supermercado com carrinho cheio de garrafas variadas.
Neste artigo
  1. Afinal, o que são águas aromatizadas?
  2. As águas aromatizadas recebem o mesmo tratamento da água da torneira?
  3. Açúcar: o convidado que passa despercebido
  4. Um negócio doce também para os municípios
  5. Como escolher águas aromatizadas de forma mais consciente
  6. Riscos, benefícios e possíveis cenários de consumo diário

As águas aromatizadas dão a impressão de ser apenas água, apresentam-se em sabores apelativos e ocupam cada vez mais espaço nas prateleiras.

Mas o que contêm, na realidade, estas garrafas?

Promovidas como uma alternativa “leve” aos refrigerantes, as águas aromatizadas recorrem a uma imagem de frescura e bem-estar. Contudo, por detrás dos rótulos coloridos, levantam-se questões sobre os tratamentos utilizados, o açúcar pouco evidente e até as repercussões económicas locais.

Afinal, o que são águas aromatizadas?

Apesar da designação, uma água aromatizada não corresponde a uma água mineral natural nem a uma água de nascente. Mesmo que tenha origem na mesma nascente, a legislação europeia e francesa enquadra este produto numa categoria jurídica distinta.

Na prática, esta diferença altera tudo. A água mineral natural, por exemplo, não pode ser sujeita a uma desinfecção química que modifique a sua composição de origem. Já uma água aromatizada pode receber tratamentos semelhantes aos aplicados à água da torneira, precisamente porque deixa de ser água “pura” e passa a ser uma bebida com ingredientes adicionados.

As águas aromatizadas são classificadas como bebidas, e não como águas minerais. Isto permite tratamentos e fórmulas muito mais flexíveis.

Incluem-se nesta categoria as garrafas com sabor a limão, frutos vermelhos, pêssego ou laranja, muitas vezes contendo corantes, aromas naturais ou artificiais, edulcorantes e, na maioria dos casos, açúcar.

As águas aromatizadas recebem o mesmo tratamento da água da torneira?

Assim que uma água recebe aroma, açúcar ou outros aditivos, passa a obedecer a regras mais próximas das aplicáveis aos refrigerantes e néctares do que às águas minerais. Isto quer dizer que:

  • pode ser filtrada e desinfectada de forma mais abrangente;
  • pode sofrer ajustes na composição, desde que estes estejam previstos na regulamentação;
  • é avaliada como bebida industrializada e não como água bruta engarrafada.

De acordo com especialistas ouvidos pela 60 Millions de consommateurs, a lógica é simples: ao acrescentar ingredientes, a indústria deixa de comercializar a água tal como saiu da nascente. A partir desse momento, são possíveis tratamentos destinados a assegurar estabilidade, segurança microbiológica e um prazo de validade mais prolongado.

Isto não quer dizer que todas as águas aromatizadas sejam automaticamente sujeitas a tratamentos intensivos, mas mostra que o enquadramento regulamentar admite intervenções muito mais amplas do que as permitidas para a água mineral natural.

O que não se vê na garrafa: transparência reduzida

Habitualmente, o consumidor encontra no rótulo poucos indícios claros sobre o tratamento específico aplicado à água de base. A legislação dá maior destaque à lista de ingredientes e ao teor de açúcares e edulcorantes do que aos processos usados no próprio líquido.

Na maioria das marcas, o rótulo especifica o sabor e as calorias, mas revela muito pouco sobre o tratamento da água antes de esta receber aroma.

Para quem procura uma opção o mais próxima possível de água pura, esta ausência de informação técnica pode transmitir uma sensação de pouca transparência.

Açúcar: o convidado que passa despercebido

Há uma confusão frequente: muitas pessoas assumem que uma água aromatizada é apenas água com “um toque” de sabor. Os valores mostram, porém, outra realidade. Dados reunidos pela 60 Millions de consommateurs indicam que a maior parte destes produtos contém quantidades relevantes de açúcar.

Em média, um copo de 200 ml destas bebidas fornece entre 5 e 10 gramas de açúcar. Em determinadas marcas, este valor alcança 15 ou 16 gramas, o equivalente aproximado a 2,5 cubos de açúcar.

Este nível aproxima-se do de várias limonadas e bebidas gaseificadas consideradas doces. Na prática, muitas destas águas têm um comportamento nutricional mais próximo de refrigerantes leves do que de água.

Tipo de bebida (200 ml) Açúcar aproximado
Água aromatizada “padrão” 5 a 10 g
Água aromatizada mais doce 15 a 16 g
Limonada comum 8 a 20 g

Este contributo pode ter peso no consumo diário. Alguns exemplos ajudam a percebê-lo:

  • 3 copos de água aromatizada com 10 g de açúcar cada totalizam 30 g num dia;
  • ao fim de uma semana, ultrapassam-se 200 g de açúcar apenas através desta bebida;
  • nas crianças, o efeito proporcional é ainda superior, uma vez que as recomendações de ingestão são mais baixas.

Um negócio doce também para os municípios

As águas aromatizadas acompanham a expansão do mercado da água engarrafada, que tem grande dimensão em França. As águas engarrafadas “puras” movimentam cerca de 2,5 mil milhões de euros por ano. Neste universo, as variantes aromatizadas representam, por si só, quase 200 milhões de euros em vendas entre maio de 2024 e maio de 2025, segundo o instituto Circana.

Mas as consequências ultrapassam largamente as receitas dos supermercados. As fontes e nascentes exploradas pelas grandes marcas geram receitas importantes para os municípios onde se situam. As empresas pagam uma taxa pelo volume extraído, que pode atingir 0,58 euro por hectolitro, sem incluir o que é exportado.

Há ainda uma contribuição adicional de 0,53 euro por hectolitro, destinada a financiar as reformas dos agricultores não assalariados. Com a soma destes montantes, algumas localidades passaram a depender fortemente destas receitas.

Volvic, Vittel, Évian-les-Bains e La Salvetat-sur-Agout recebem milhões de euros por ano apenas com a exploração das suas águas.

Em 2024, Volvic ficou em primeiro lugar, com cerca de 3,8 milhões de euros, seguindo-se Vittel, com 2,3 milhões, Évian-les-Bains, com 2 milhões, e La Salvetat-sur-Agout, com 1 milhão de euros. Estes valores ajudam a explicar por que motivo os debates sobre captação de água, tratamentos e rotulagem também envolvem pressões económicas locais.

Como escolher águas aromatizadas de forma mais consciente

Para quem aprecia o sabor, mas pretende diminuir os riscos e a ingestão de açúcar, algumas medidas simples podem ajudar:

  • ler atentamente o rótulo e procurar o teor de açúcar por 100 ml;
  • comparar marcas, pois as diferenças entre produtos são significativas;
  • privilegiar opções sem açúcar adicionado ou com baixo teor de açúcar;
  • verificar a lista de ingredientes e a ordem pela qual são apresentados;
  • alternar com água simples, para que a bebida aromatizada não se torne a única forma de hidratação.

Outra opção consiste em preparar em casa “falsas águas aromatizadas”: água filtrada com rodelas de citrinos, folhas de hortelã, gengibre ou chá frio. O resultado não é igual ao produto industrial, mas reduz consideravelmente tanto o açúcar como os aditivos, além de eliminar dúvidas sobre os tratamentos aplicados na fábrica.

Termos que merecem uma segunda leitura

Certas expressões presentes nos rótulos tendem a causar confusão:

  • “Aromas naturais”: indicam que as moléculas aromáticas têm origem em fontes naturais, não que o produto esteja livre de processamento industrial;
  • “Sem açúcar adicionado”: significa que não foram acrescentados sacarose, glucose, frutose ou semelhantes, mas não exclui açúcares naturalmente presentes em sumos concentrados;
  • “Light” ou “zero”: normalmente indica menos calorias devido ao uso de edulcorantes. Isto altera o impacto calórico, mas não esclarece as dúvidas relativas aos tratamentos da água.

Riscos, benefícios e possíveis cenários de consumo diário

No quotidiano, uma pessoa que substitui refrigerantes por águas aromatizadas tende, em média, a reduzir a ingestão de açúcar se escolher versões menos doces ou com edulcorante. Em contrapartida, quem troca a água simples por estas bebidas pode aumentar bastante a quantidade total de açúcares sem se aperceber.

Em matéria de risco, a principal preocupação apontada pelos especialistas continua a ser metabólica: uma ingestão elevada de açúcar, sobretudo entre crianças e adolescentes, aumenta a probabilidade de aumento de peso, alterações da glicemia e cáries. Já os tratamentos aplicados à água respeitam normas de segurança alimentar semelhantes às de outras bebidas industrializadas, embora o consumidor perca a noção de água “natural da nascente”.

Um caso prático permite visualizar este equilíbrio: uma pessoa que, num dia quente, bebe dois litros de água, sendo metade sob a forma de água aromatizada com 8 g de açúcar por 200 ml, termina o dia com 40 g de açúcar apenas por essa escolha. Consoante as recomendações individuais, este valor pode representar uma grande parte do limite diário considerado adequado.

Por outro lado, consumir uma garrafa de água aromatizada ocasionalmente - num lanche, piquenique ou evento - tem um impacto muito menor, sobretudo quando a restante hidratação ao longo da semana é feita com água sem adições.

Esta alternância, associada a uma leitura crítica dos rótulos, tende a ser mais realista do que imaginar que todas as pessoas passarão, de um momento para o outro, das bebidas aromatizadas para água sem sabor. Consumir de forma consciente implica perceber o que se está a comprar: uma bebida tratada, adoçada e colorida para proporcionar prazer, e não um simples substituto neutro da água filtrada.

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Inês Margarida Correia

Inês Margarida Correia é engenheira alimentar e consultora em processos de panificação e confeção em forno, com especialização em fornos tradicionais e controlo de temperatura e humidade. No sitiodoforno, partilha conhecimento sobre técnicas de cozedura, manutenção de fornos e receitas que valorizam a tradição portuguesa com rigor técnico. Interessa-se particularmente por fermentações, lenha e eficiência energética aplicada à cozinha.

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