As condições dentro de casa, o ambiente familiar e o contexto da comunidade onde alguém vive influenciam diretamente a capacidade de se manter saudável.
Ao estudarem estes determinantes sociais da saúde, os cientistas procuram perceber se é a genética (natureza) ou o ambiente (educação e experiências) que pesa mais na forma como uma pessoa consegue combater a doença.
Sou fisiologista do desenvolvimento e investigo de que maneira o consumo de bebidas alcoólicas afeta o desenvolvimento fetal e a saúde ao longo da vida.
Embora há muito tempo se saiba que o abuso de álcool por parte do pai prejudica a saúde mental e o desenvolvimento social dos filhos, não era claro se o consumo paterno deixava também efeitos biológicos duradouros na saúde física da descendência.
A investigação que o meu laboratório publicou recentemente indica que o consumo crónico de álcool por ambos os progenitores deixa marcas persistentes na geração seguinte, ao levar a que os filhos envelheçam mais depressa e fiquem mais vulneráveis a doenças.
Perturbações do espectro alcoólico fetal
De acordo com os National Institutes of Health, quase 11% dos adultos nos EUA têm uma perturbação por consumo de álcool. Beber em excesso está associado a vários problemas de saúde, como doença hepática, complicações cardíacas, declínio da função cognitiva e envelhecimento acelerado.
Os pais podem transmitir parte destes problemas aos filhos. As perturbações do espectro alcoólico fetal abrangem um conjunto alargado de défices físicos, do desenvolvimento e comportamentais relacionados com o álcool, que afetam até 1 em cada 20 crianças em idade escolar nos EUA.
As crianças com perturbações do espectro alcoólico fetal tendem a desenvolver mais cedo doenças típicas da idade adulta, incluindo diabetes tipo 2 e doença cardíaca. Nas pessoas com estas perturbações, a doença cardiovascular pode surgir logo na adolescência, enquanto na restante população costuma aparecer na casa dos 40 e dos 50 anos.
Além disso, estas crianças têm maior probabilidade de serem hospitalizadas e a sua esperança de vida é 40% mais curta do que a de crianças sem estas condições.
Ainda assim, permanecia a dúvida sobre se estes problemas de saúde resultam sobretudo das circunstâncias de vida - as pessoas com perturbações do espectro alcoólico fetal apresentam taxas elevadas de perturbações psiquiátricas, o que gera stress e aumenta a suscetibilidade ao envelhecimento e à doença - ou se o consumo de substâncias por parte dos pais causa, por si só, efeitos negativos duradouros na saúde.
Ou, dito de outra forma: poderá o abuso de álcool de um progenitor, antes da conceção, influenciar diretamente a saúde física e a longevidade dos filhos?
Consumo de álcool da mãe e do pai
No nosso estudo, eu e os meus colegas recorremos a um modelo em ratinho para avaliar de que forma o consumo de álcool por parte da mãe, do pai, ou de ambos, na fase em torno da conceção, afeta o envelhecimento e a doença crónica na descendência. Os ratinhos decidiram por si quando beber e em que quantidade.
Verificámos que tanto o consumo paterno como o materno provocam alterações prejudiciais nas mitocôndrias dos filhos. As mitocôndrias - frequentemente descritas como "a bateria da célula" - regulam muitos aspetos do envelhecimento e da saúde. Tal como acontece com a bateria de um telemóvel, as mitocôndrias degradam-se com o tempo, e essa deterioração faz com que as células percam capacidade de reparar danos e de controlar o metabolismo.
Os nossos ensaios em ratinhos mostram que o consumo de álcool pelo pai origina um defeito no funcionamento mitocondrial que aparece pela primeira vez durante o desenvolvimento fetal e se mantém na vida adulta, levando a que a descendência envelheça mais rapidamente.
Por exemplo, a exposição paterna ao álcool esteve associada a um aumento para o dobro da doença hepática relacionada com a idade, o que sugere que o consumo de álcool dos pais - em particular o do pai - pode ter implicações relevantes no envelhecimento e nas doenças associadas ao envelhecimento.
De forma importante, também observámos que, quando ambos os progenitores consumiam álcool, os efeitos nos filhos eram mais graves do que quando apenas um deles bebia. Por exemplo, verificámos um aumento para o triplo da cicatrização hepática relacionada com a idade quando os dois pais consumiam álcool.
Tratar a síndrome alcoólica fetal
As pessoas com síndrome alcoólica fetal enfrentam dificuldades ao longo de toda a vida, incluindo problemas de coordenação óculo-manual e desafios ao nível da memória e da atenção.
Intervenções educativas precoces para crianças com perturbações do espectro alcoólico fetal - como privilegiar materiais visuais e auditivos em vez de texto impresso - podem acrescentar estrutura e facilitar a aprendizagem.
Apesar de a minha equipa e eu termos analisado a exposição crónica ao álcool, não sabemos se o consumo moderado também provoca problemas mitocondriais.
Também não é claro se estes mesmos efeitos surgem em pessoas que não foram diagnosticadas com perturbações do espectro alcoólico fetal, mas cujos pais beberam muito. Se o consumo paterno influencia o desenvolvimento embrionário humano continua por esclarecer, embora estudos mais recentes estejam a começar a indicar que sim.
O passo seguinte é investigar se intervenções centradas na saúde mitocondrial, como o exercício e determinadas dietas específicas, conseguem melhorar os resultados de saúde em pessoas com perturbações do espectro alcoólico fetal.
Michael Golding, Professor de Fisiologia, Texas A&M University
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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