As ostras têm uma reputação bem consolidada. Vivem discretamente no fundo, a filtrar algas e nutrientes em excesso, ajudando a evitar que as baías costeiras se transformem numa “sopa” verde.
Durante anos, esse serviço de filtragem foi a principal razão para tanta gente defender o regresso das ostras.
Mas há indícios de que as ostras podem estar a desempenhar outra função igualmente importante: também parecem limpar a água de agentes causadores de doença.
Se isto se confirmar, o impacto pode ser significativo para os animais que partilham o mesmo habitat - incluindo um dos residentes mais valiosos da Baía de Chesapeake, o caranguejo-azul.
Um parasita com um historial mortal
O parasita chama-se Hematodinium perezi. Desenvolve-se em águas costeiras quentes e salgadas e afecta de forma particularmente intensa os caranguejos-azuis juvenis durante o verão.
Em algumas baías, no pico da época, quase todos os caranguejos jovens podem acabar infectados por este parasita. Depois da infecção, muitos não sobrevivem.
O estudo analisou o que acontece quando os caranguejos partilham a água com ostras.
Jeffrey Shields, professor na Escola Batten de Ciências Costeiras e Marinhas e VIMS, da William & Mary, trabalhou no estudo com estudantes de mestrado e licenciatura.
“Sabemos que as ostras e os recifes de ostras proporcionam uma variedade de benefícios ecológicos, e que os caranguejos são atraídos por eles para alimentação e protecção, mas a sua capacidade de remover agentes patogénicos do ambiente não tem sido bem estudada”, afirmou o professor Shields.
Ostras postas à prova no meio natural
Para perceber se as ostras influenciam realmente a disseminação da doença, os investigadores realizaram experiências de campo na Costa Oriental da Virgínia.
Em dias quentes de verão - quando o parasita está mais activo - a equipa colocou caranguejos-azuis juvenis não infectados em baías costeiras onde o Hematodinium é comum.
Alguns caranguejos foram posicionados no meio de ostras vivas. Outros ficaram junto de conchas vazias de ostras. Um terceiro grupo não teve qualquer protecção.
Os resultados foram marcantes. Os juvenis colocados perto de ostras vivas tiveram cerca de um terço menos probabilidade de ficar infectados do que os caranguejos instalados sem ostras.
As conchas vazias não tiveram qualquer efeito. A diferença surgiu apenas com ostras vivas, o que indica que o impacto resulta da filtragem activa e não apenas da estrutura física de um recife.
O que se observou no laboratório
A equipa testou a mesma ideia em condições controladas no Laboratório de Investigação em Água do Mar da Escola Batten e do VIMS. Aí, expuseram as ostras a dinosporos, a fase infecciosa e livre-nadadora do parasita.
As ostras removeram rapidamente os parasitas da água. Em média, eliminaram mais de 60% dos parasitas no espaço de uma hora. A taxa de remoção foi semelhante à forma como filtram outros plânctones que normalmente consomem.
Os cientistas também registaram menos mortes de caranguejos nos tratamentos com ostras, embora tenham sublinhado a necessidade de prudência. Há demasiados factores a influenciar a sobrevivência para atribuir esse resultado apenas às ostras.
Padrões inesperados em caranguejos juvenis
O estudo revelou ainda um resultado surpreendente. Embora fosse esperado que os caranguejos mais pequenos fossem os mais vulneráveis, os investigadores observaram, com o passar do tempo, mais novas infecções em juvenis de maior tamanho.
“Isto é algo que não tinha sido documentado anteriormente, e tem implicações interessantes porque a pescaria remove aproximadamente 40% dos caranguejos adultos do sistema anualmente”, disse Shields.
“Os caranguejos juvenis têm de preencher esse vazio, no entanto são altamente susceptíveis, por isso precisamos de pensar em como tudo isto se conjuga para aumentar ou diminuir a disseminação da doença.”
Esse equilíbrio entre a pressão da pesca, a sobrevivência dos caranguejos e a doença pode moldar as futuras populações de caranguejo de formas que os gestores ainda não consideraram plenamente.
Protecção à escala de pescarias inteiras
Este trabalho insere-se numa colaboração mais ampla que combina estudos de campo, experiências laboratoriais e modelação matemática.
O objectivo é perceber de que forma a filtragem das ostras pode afectar a doença à escala de pescarias inteiras, e não apenas em pequenas áreas de teste.
“Este estudo faz parte de uma colaboração maior com o objectivo final de modelar estas interacções parasita-hospedeiro à escala das pescarias”, afirmou o autor principal do estudo, Xuqing Chen.
“Gostaria de ver mais atenção dada à dinâmica das doenças nos ecossistemas marinhos, porque são complexas e podem ter um enorme impacto nas nossas pescarias.”
Esses modelos poderão ajudar a prever quando a filtragem das ostras consegue, de forma relevante, abrandar a disseminação da doença - sobretudo à medida que as águas costeiras aquecem e os parasitas ganham vantagem.
Restaurar as populações de ostras
“Embora tenhamos feito progressos importantes no restauro de ostras na Baía, sabemos que as populações continuam muito abaixo dos níveis históricos. Isto representa uma redução significativa da capacidade de filtragem”, disse Shields.
“Uma das características bonitas da modelação matemática é permitir-nos escalar este efeito por ordens de grandeza. É para aí que vamos a seguir – tentar determinar se conseguimos influenciar este efeito de forma significativa para benefícios globais do ecossistema e das pescarias.”
A mensagem é simples: as ostras não são apenas “limpadoras” de água. Podem também estar a gerir discretamente a doença, protegendo espécies próximas de formas que os cientistas só agora começam a quantificar.
Num oceano em aquecimento, esse serviço menos visível pode vir a ser mais valioso do que se imaginava.
O estudo completo foi publicado na revista Ecology.
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