Muitas pessoas, um pouco por todo o mundo, trocaram os refrigerantes por água com gás sem açúcar. Esta alternativa não tem açúcar, mantém a efervescência e, à primeira vista, não parece causar danos evidentes aos dentes.
A sensação de “gás” vem do dióxido de carbono. Ao dissolver-se na água, forma ácido carbónico, o que torna a bebida ligeiramente ácida.
E é essa acidez - e não o açúcar - que pode, com o tempo, contribuir para o desgaste do esmalte dentário.
Wajiha Zulfiqar é estudante de pós-graduação no Departamento de Ciência da Nutrição da Purdue University.
Em colaboração com Cordelia Running, Zulfiqar decidiu analisar de que forma a água com gás sem açúcar altera a acidez dentro da boca.
Para isso, a equipa avaliou alterações na saliva após quatro bebidas diferentes: um refrigerante adoçado com açúcar, uma água com gás sem açúcar, uma segunda água com gás enriquecida com cálcio e água simples.
Quando comparadas com a água simples, tanto o refrigerante como a água com gás tornaram o ambiente oral mais ácido. A diferença principal entre as duas foi a duração desse efeito.
Água com gás e esmalte dentário
A acidez é medida através do pH. Quanto mais baixo é o pH, maior é a acidez de uma substância.
A partir de cerca de pH 5,5, o ácido começa a dissolver os minerais do esmalte dentário. Esse processo chama-se desmineralização.
Os investigadores partiram de algo já bem estabelecido: refrigerantes adoçados com açúcar podem contribuir para a erosão dentária ao reduzirem o pH da boca abaixo desse limite.
Já sobre a água com gás sem açúcar existia menos informação - e foi precisamente isso que procuraram quantificar.
Primeiro as bebidas, depois as pessoas
Antes de qualquer participante beber, os investigadores abriram cada bebida e mediram o seu pH no momento da abertura e, novamente, aos 2, 5, 10 e 20 minutos.
O refrigerante foi o mais ácido. De seguida surgiu a água com gás sem cálcio, depois a versão enriquecida com cálcio, e a água simples foi a menos ácida das quatro.
Esta ordem manteve-se em todas as medições.
Depois, a equipa passou a medir a acidez na saliva. Adultos entre os 18 e os 50 anos, todos com boa saúde, fizeram quatro visitas cada um, bebendo 12 ounces (355 ml) de uma bebida ao longo de 10 minutos em cada visita.
Cada participante ingeriu as quatro bebidas numa ordem aleatória, o que permite que as comparações sejam feitas dentro da mesma pessoa em vez de entre pessoas diferentes. Como as bocas não são todas iguais, o desenho do estudo teve isso em conta.
Em cada visita foram recolhidas cinco amostras de saliva: uma antes do primeiro gole, duas durante o consumo, uma no final da bebida e a última aos 20 minutos.
O processo de selecção excluiu participantes com doença dentária, tratamento dentário recente, diabetes tipo 1 ou tipo 2, gravidez ou uso de qualquer medicação.
O efeito do refrigerante prolongou-se mais do que os restantes
O refrigerante foi o que gerou a saliva mais ácida entre tudo o que os voluntários beberam. Aos dois minutos, a saliva após o refrigerante era mais ácida do que após a água simples - e aos 20 minutos continuava a ser.
Em ambos os casos, as diferenças foram grandes demais para que a explicação mais provável fosse o acaso.
No caso da água com gás sem cálcio, a saliva ficou mais ácida do que com água simples apenas num único momento: aos dois minutos.
Já a água com gás enriquecida com cálcio mostrou essa descida aos cinco minutos. Aos 20 minutos, a saliva após ambas as águas com gás estava próxima do valor em que tinha começado nessa visita.
Em todas as bebidas, incluindo o refrigerante, a saliva manteve-se acima de 5,5.
Questionada sobre o que estes resultados significam para quem já trocou refrigerantes por água com gás, Zulfiqar disse ao Earth.com: “No nosso estudo, a água com gás causou uma diminuição temporária do pH salivar imediatamente após o consumo; a saliva neutralizou rapidamente a acidez e voltou em direcção ao valor de base.”
“Isso sugere que, quando consumida com moderação, a água com gás sem açúcar pode representar um desafio ácido de curto prazo menor do que o refrigerante, embora manter uma boa higiene oral e cuidados dentários regulares continue a ser importante.”
A saliva e o que significa “tamponar”
O que mais surpreendeu Zulfiqar não foi nenhuma bebida em particular. “Um dos resultados mais interessantes foi perceber quão eficaz é a saliva a proteger a boca”, afirmou.
“Mesmo após o consumo de bebidas ácidas, o pH salivar recuperou em direcção ao valor de base em cerca de 10 minutos para todas as bebidas que testámos.”
“Isto realça a notável capacidade tampão da saliva e reforça o seu papel essencial como uma das defesas naturais do corpo contra a exposição a ácidos.”
Um tampão é qualquer coisa que resista a alterações de acidez. A saliva é um exemplo - e faz esse trabalho sem necessidade de escova de dentes ou bochecho.
“Uma conclusão importante é que a acidez de uma bebida, por si só, não conta a história toda”, disse Zulfiqar.
“A saúde oral depende não só do que bebemos, mas também de factores como a produção de saliva, os hábitos de consumo, a higiene oral e a frequência com que se consomem bebidas ácidas.”
Na leitura de Zulfiqar, os resultados também apontam para uma oportunidade na indústria das bebidas: reformular produtos ácidos de modo a que sejam menos erosivos.
São necessárias algumas clarificações
O trabalho de Zulfiqar ainda não foi revisto por pares nem publicado numa revista científica.
Nenhum dos investigadores observou directamente os dentes. Apenas a saliva foi medida, e as medições terminaram 20 minutos após o primeiro gole.
O grupo de participantes era pequeno e foi seleccionado com base numa boa saúde oral, o que excluiu pessoas cujo esmalte já esteja desgastado.
Zulfiqar sublinhou que o estudo avaliou apenas o que acontece ao pH salivar imediatamente após beber. A equipa referiu que, na vida real, o potencial de danos no esmalte depende da duração de cada exposição e da quantidade de açúcar envolvida.
Não surgem nomes de marcas em parte alguma, e não é indicado se as águas com gás eram aromatizadas ou simples.
Zulfiqar disse ao Earth.com que espera prolongar a investigação por mais tempo e focar-se noutros problemas orais que possam resultar do consumo habitual de água com gás.
“Estamos interessados em perceber como o consumo habitual de água com gás sem açúcar influencia resultados como erosão do esmalte, acidez da placa bacteriana, o microbioma oral e o risco de cáries ao longo de meses ou anos”, concluiu.
A investigação foi apresentada no NUTRITION 2026, o principal encontro anual da American Society for Nutrition (ASN).
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