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A comida lixo na infância pode alterar o cérebro a longo prazo

Jovem na cozinha a escolher entre batatas fritas e comida saudável, com ilustração do cérebro e intestino ao fundo.

A maioria de nós cresceu a ouvir que a comida lixo conduz directamente ao aumento de peso. Come os legumes, evita os doces e não peças doses maiores.

A ideia parecia linear: entra comida pouco saudável, saem quilos a mais. No entanto, uma investigação recente indica que a realidade pode ser menos directa.

Os cientistas verificaram que uma alimentação rica em gordura e açúcar nos primeiros anos de vida pode deixar marcas duradouras no próprio cérebro - alterações capazes de persistir mesmo depois de os hábitos alimentares melhorarem e o peso corporal voltar ao normal.

Os resultados indicam que a alimentação na infância pode influenciar a forma como o cérebro controla a fome e os desejos por comida muito depois de a comida lixo desaparecer.

O cérebro recorda a comida lixo

Em experiências com ratinhos, a equipa analisou de que modo a exposição precoce a uma dieta rica em gordura e açúcar afectava o cérebro ao longo do tempo.

Descobriram que o hipotálamo - a região que funciona como o termóstato da fome do organismo - continuava alterado mesmo depois de os animais regressarem a uma dieta mais saudável.

Os sinais que habitualmente ajudam a regular a fome e a saciedade continuaram a falhar, o que sugere que o cérebro se ajustou à alimentação inicial de formas difíceis de reverter.

Por outras palavras, o efeito persistente não ficou armazenado na gordura corporal: foi inscrito nas ligações do cérebro.

Segundo os cientistas, isto pode ajudar a explicar por que razão os hábitos alimentares precoces moldam a relação com a comida a longo prazo, mesmo quando a pessoa melhora posteriormente a sua dieta.

O peso pode ocultar alterações no cérebro

Grande parte do debate público sobre a alimentação infantil centra-se na obesidade - se uma criança tem peso a mais ou se os valores estão a evoluir na direcção errada. Esta investigação sugere que esse enquadramento deixa muito de fora.

“O que comemos nos primeiros anos de vida é realmente importante”, afirmou a Dra. Cristina Cuesta-Martí, autora principal do estudo e investigadora da University College Cork.

“A exposição alimentar precoce pode deixar efeitos ocultos e duradouros no comportamento alimentar, que não são imediatamente visíveis apenas através do peso.”

Uma criança pode aparentar estar perfeitamente saudável segundo todas as medidas habituais e, ainda assim, apresentar alterações cerebrais que aumentam o risco futuro de obesidade.

Os micróbios intestinais influenciam a fome

O estudo não se limitou a identificar o problema - também apontou para uma possível forma de o enfrentar, vinda de uma direcção inesperada: o intestino.

Os investigadores testaram dois tipos de intervenção. Um consistia numa estirpe probiótica específica, Bifidobacterium longum APC1472.

O outro recorria a uma combinação de fibras prebióticas - fruto-oligossacáridos e galacto-oligossacáridos - presentes naturalmente em alimentos como cebola, alho, alho-francês, espargos e bananas, além de disponíveis em suplementos.

Ambas revelaram potencial para prevenir ou inverter as alterações cerebrais provocadas pela alimentação precoce. O probiótico gerou melhorias claras no comportamento alimentar, com perturbação mínima do microbioma intestinal mais amplo.

Em contrapartida, a combinação de prebióticos provocou alterações mais abrangentes na composição global do intestino.

Sinais entre o intestino e o cérebro

Para os investigadores que estudam o eixo intestino-cérebro - a rede de comunicação entre o sistema digestivo e o cérebro - nada disto é totalmente inesperado.

Acontece que o que se passa no intestino não fica por lá. Influencia o humor, o comportamento e, como este estudo vem acrescentar às evidências existentes, a relação do cérebro com a comida.

“Actuar sobre a microbiota intestinal pode atenuar os efeitos a longo prazo de uma dieta precoce pouco saudável no comportamento alimentar posterior”, afirmou a investigadora principal do estudo, Dra. Harriet Schellekens.

“Apoiar a microbiota intestinal desde o nascimento ajuda a manter comportamentos mais saudáveis relacionados com a alimentação nas fases posteriores da vida.”

Novas pistas para tratamentos futuros

Os investigadores salientaram que estudos deste tipo demonstram como a investigação científica fundamental pode apontar para novas soluções perante grandes desafios de saúde pública.

Ao mostrar como as escolhas alimentares nos primeiros anos moldam as vias cerebrais que regulam a alimentação, a investigação evidencia de que forma a dieta pode influenciar o comportamento alimentar a longo prazo.

As conclusões poderão também abrir caminho a intervenções baseadas na microbiota que ajudem a promover hábitos mais saudáveis mais tarde na vida.

A ciência continua em desenvolvimento. Ainda assim, vale a pena reflectir sobre a questão levantada: se temos avaliado a saúde infantil apenas pelo peso, que mais poderemos estar a ignorar?

O estudo completo foi publicado na revista Nature Communications.

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