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O fim da era da fritadeira de ar e o novo aparelho com nove funções

Mulher preocupada na cozinha, olhando para uma panela elétrica e uma fritadeira sem óleo sobre a bancada.

A fritadeira de ar parece uma pequena nave espacial pousada num canto da bancada, com o cesto antes brilhante agora baço, cheio de migalhas e do entusiasmo que ficou pelo caminho. Há um ano, era a salvadora dos jantares a meio da semana, a estrela das receitas do TikTok e a promessa de batatas fritas estaladiças sem culpas. Hoje, funciona como meia torradeira, meio colector de pó, e, num bom período, talvez seja ligada duas vezes por semana.

Basta percorrer qualquer rede social para encontrar a próxima melhoria de cozinha “indispensável”: um aparelho volumoso e multifunções, com nove métodos de cozedura e um preço à altura. Vaporizador, grelhador, forno, desidratador, iogurteira, fritadeira de ar 2.0 - tudo reunido num cubo elegante.

Quase se ouve o suspiro colectivo das tomadas eléctricas por todo o lado.

A pergunta que paira sobre esta nova vaga de entusiasmo é desconfortavelmente conhecida.

De máquina milagrosa a tralha dispendiosa

A mais recente geração de multicozedores promete fazer tudo o que a fritadeira de ar fazia, e ainda mais. As marcas destacam funções nove-em-um, predefinições em ecrã táctil e “resultados de nível profissional” em casa. Os vídeos promocionais são sedutores: frango dourado, lasanha a borbulhar e legumes reluzentes sob luzes de estúdio.

No papel, parece a progressão natural após o sucesso das fritadeiras de ar. Um único aparelho capaz de grelhar, cozinhar a vapor, assar, cozer no forno, selar, reaquecer, desidratar, cozinhar lentamente e fritar a ar. Porém, muitos especialistas defendem que estamos a cair exactamente na mesma armadilha.

Ao conversar com quem cozinha em casa, começa a repetir-se a mesma história. Sophie, de 37 anos, comprou um destes gigantes com nove funções depois de a sua fritadeira de ar lhe ter “mudado a vida” durante o confinamento. Na primeira semana, experimentou todas as funções e publicou orgulhosamente no Instagram: salmão à segunda-feira, chips de banana à terça e um frango inteiro à quarta.

Três meses depois, admite que, na maioria das vezes, carrega apenas num botão. “Uso a função de fritar a ar e a de reaquecer”, ri-se. “Quanto às outras? Já me esqueci das regulações. Continuo a fazer bolos no forno e a cozer massa no fogão.”

É precisamente isso que irrita os especialistas em cozinha. Vêem famílias a pagar £250 ou mais por uma máquina que muitas vezes repete aquilo que já têm: um forno, uma placa de cozinha e talvez até uma panela eléctrica de cozedura lenta ou um vaporizador. As alegações de eficiência energética são frequentemente exageradas, e a vida útil pode ser surpreendentemente curta quando comparada com boas panelas ou um forno fiável.

Sejamos francos: numa terça-feira agitada, ninguém usa realmente nove métodos de cozedura. Com o tempo, o efeito de novidade desaparece, as predefinições tornam-se complicadas e a alegada revolução acaba por ser apenas mais um electrodoméstico a ocupar espaço valioso na bancada.

O novo “indispensável” que esvazia discretamente a carteira

Se este aparelho brilhante e tudo-em-um lhe desperta interesse, os especialistas aconselham um exercício simples e pouco glamoroso. Durante uma semana, anote tudo o que realmente cozinha e a forma como o faz. Legumes assados no forno? Salteados na placa? Torradas no grelhador? Sobras aquecidas numa frigideira? No fim da semana, assinale os métodos de cozedura que utilizou mais de três vezes.

Essa lista mostra como é, de facto, a sua cozinha quotidiana. Não a versão fantasiosa de um brunch de domingo com amigos - mas a real, quando está cansado, atrasado e a olhar distraidamente para o telemóvel enquanto o jantar fervilha.

O apelo emocional é forte. Todos conhecemos aquele momento em que vemos um vídeo de alguém a retirar costelas perfeitas e brilhantes de um aparelho futurista e pensamos: “Talvez eu também cozinhasse assim se tivesse isto.” Os profissionais de marketing conhecem bem essa sensação. Não vendem apenas o aparelho: vendem a promessa de uma versão sua mais tranquila, organizada e impressionante.

O que raramente surge no anúncio é a curva de aprendizagem, o tempo adicional de limpeza, as tentativas e erros com legumes mal cozinhados ou peixe borrachudo e o cálculo silencioso da factura de electricidade quando a novidade se desvanece.

É aqui que os especialistas começam a falar de forma mais directa. Para muitos agregados familiares, esta unidade de nove funções aproxima-se mais de um brinquedo de luxo do que de uma necessidade verdadeira. Se já possui um forno decente e algumas panelas, a sobreposição é enorme. As alegadas poupanças de energia aplicam-se muitas vezes apenas a situações muito específicas, não à cozinha do dia a dia.

Há uma frase sem rodeios que os consultores de consumidores repetem: um aparelho que não substitui nada e pouco altera é apenas um ornamento caro. Retirando a interface reluzente, sobram técnicas básicas de cozinha que provavelmente já consegue executar com os utensílios que possui.

Como ignorar o entusiasmo e proteger a cozinha (e o orçamento)

Há uma forma mais serena de encarar esta nova vaga de tecnologia de cozinha. Antes de comprar, escolha três refeições que prepara frequentemente - não receitas aspiracionais. Para cada uma, pergunte-se: este novo aparelho cozinha-a mais depressa, melhor ou mais barato do que aquilo que uso agora? Se não conseguir responder claramente que sim a pelo menos duas destas perguntas, os especialistas dizem que estará provavelmente a pagar pelo marketing, e não por uma melhoria real.

Outra recomendação é pedir emprestado antes de comprar. Muitas cozinhas de escritórios, vizinhos ou familiares já têm uma destas máquinas e quase não a utilizam. Cozinhar com uma unidade emprestada durante um fim de semana revela muito mais do que qualquer vídeo de um influenciador.

Um erro habitual é assumir que mais predefinições significam maior facilidade. Na prática, um excesso de opções pode bloqueá-lo. Em vez de colocar legumes num tabuleiro e levá-los ao forno, fica diante de um ecrã iluminado a perguntar-se se deve escolher “assar”, “grelhar”, “crocante a ar” ou “combinado”. Essa hesitação consome tempo e energia.

Os especialistas alertam também para o custo do espaço. Um aparelho grande na bancada empurra outros utensílios para armários, onde acabam esquecidos. O equipamento que esperava que simplificasse a sua vida pode, por vezes, complicá-la, simplesmente por interferir com os seus hábitos naturais de cozinhar.

Muitos profissionais soam quase protectores quando falam desta tendência. Vêem famílias a reduzir a compra de ingredientes frescos para poderem pagar uma máquina que não faz nada que as suas panelas e o forno não façam.

“Há pessoas que me dizem que não conseguem justificar a compra de boas facas ou azeite de qualidade porque acabaram de investir num ‘robot de cozinha inteligente’”, afirma uma nutricionista radicada em Londres. “No entanto, as suas refeições do dia a dia não melhoraram nada. O dinheiro foi para o invólucro, não para a substância.”

  • Pergunte o que substitui realmente - Se não permitir vender, oferecer ou arrumar pelo menos outro electrodoméstico grande, é um sinal de alerta.
  • Avalie a sua utilização real.
  • Some todos os custos - preço de compra, electricidade, tempo de limpeza, espaço na bancada e reparações.
  • Comece pelas competências, não pelas máquinas - uma faca afiada e uma boa frigideira permitem preparar mais receitas do que qualquer cubo com nove modos.
  • Espere 30 dias - se continuar a pensar nisso após um mês, o desejo poderá ser genuíno e não impulsivo.

Talvez a próxima grande novidade seja… não haver novidade alguma

Está a surgir actualmente nas cozinhas um discreto movimento contrário. Depois de anos a perseguir o próximo aparelho - cortadores em espiral, máquinas de sumos, batedeiras, fritadeiras de ar e, agora, torres multimodo - algumas pessoas estão a recuar. Retiram as panelas pesadas do lugar onde estavam guardadas, aprendem uma ou duas técnicas sólidas com frigideira e descobrem, de repente, que o jantar se torna menos stressante, e não mais.

Muitos especialistas concordam: a era da fritadeira de ar ensinou-nos algo. Mostrou-nos a rapidez com que algo que “muda as regras do jogo” pode tornar-se apenas mais uma ficha na tomada. As novas máquinas com nove funções correm o risco de repetir a história, mas com preços mais elevados e promessas maiores. Isso não significa que ninguém deva comprar uma. Num apartamento pequeno sem forno, ou para alguém com mobilidade reduzida, este tipo de aparelho pode ser extremamente útil.

A verdadeira mudança pode ser tão simples quanto isto: comece pela sua vida, não pelo anúncio. Observe a sua cozinha como se fosse alguém de fora. Que utensílios estão sempre à vista, são sempre usados e nunca ganham pó? Quais o fazem sentir-se mais calmo enquanto cozinha? Esses são os heróis discretos - muitas vezes básicos, frequentemente sem marca, raramente virais.

Talvez o fim da era da fritadeira de ar não passe por abandonar os aparelhos por completo, mas por recusar que determinem a forma como comemos. Da próxima vez que um cubo iluminado prometer ser a resposta para tudo, talvez valha a pena parar, abrir o armário e fazer a pergunta em voz alta: preciso mesmo de mais uma caixa ou apenas de uma forma melhor de usar aquilo que já tenho?

Ponto essencial Pormenor Valor para o leitor
Questione a promessa nove-em-um A maioria dos agregados usa regularmente, no máximo, apenas duas ou três funções Ajuda a evitar pagar por funcionalidades que ficarão sem utilização
Parta dos seus hábitos reais Registe uma semana de cozinha efectiva antes de comprar seja o que for Mostra se um aparelho resolve problemas concretos ou apenas vende um sonho
Dê prioridade às competências, não às máquinas Utensílios básicos e algumas técnicas fiáveis resistem mais tempo às tendências Poupa dinheiro e melhora verdadeiramente as refeições quotidianas

Perguntas frequentes:

  • Estes novos aparelhos com nove funções são melhores do que uma fritadeira de ar? Não necessariamente. Disponibilizam mais modos, mas muitas pessoas acabam por usá-los sobretudo como uma fritadeira de ar sofisticada ou um miniforno, o que raramente justifica o preço mais alto.
  • Os aparelhos multimodo poupam mesmo energia? Por vezes, em pequenas porções ou para reaquecer rapidamente. Em refeições maiores ou cozeduras demoradas, a poupança pode diminuir ou desaparecer quando comparada com um forno ou placa de cozinha convencional.
  • O que devo ter antes de pensar num multicozedor? Uma frigideira decente, uma panela resistente, uma faca afiada e um forno ou placa de cozinha fiável cobrem a maioria das necessidades diárias. Depois de ter esses elementos, poderá perceber se existe realmente alguma lacuna.
  • Há quem beneficie verdadeiramente destes aparelhos? Sim: pessoas com espaço muito limitado, sem acesso a um forno completo ou com problemas de mobilidade que dificultem baixar-se ou levantar panelas pesadas podem considerá-los extremamente úteis.
  • Como evito comprar por impulso o próximo aparelho da moda? Aplique a regra dos 30 dias, peça emprestado ou experimente o aparelho de um amigo e compre apenas se este substituir claramente algo volumoso ou melhorar de facto uma refeição que cozinha todas as semanas.

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