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Os noruegueses vivem aquecidos no inverno, mas não por causa de radiadores milagrosos: as suas casas funcionam como um termo

Mão a aplicar fita isolante cinza numa janela com gotas de chuva no vidro e tesoura na superfície branca.
Neste artigo
  1. O segredo não está no aquecedor, mas no "termo"
  2. Por onde foge o calor numa casa portuguesa
  3. Passo a passo: transformar a casa num termo sem obras
  4. Ventilar sem criar correntes de ar
  5. Aquecer melhor, não aquecer mais
  6. A salamandra como plano B
  7. Quanto se pode poupar: um exemplo simples
  8. Erros comuns que deve evitar
  9. Por onde começar este outono

Quando se pensa na Noruega, vêm logo à cabeça a neve, as noites intermináveis e temperaturas muito abaixo de zero. Seria de esperar um aquecimento potentíssimo em cada casa. A verdade é mais simples: os noruegueses começam por garantir que o calor não foge.

Em Portugal, o inverno é muito mais ameno, mas muitas casas parecem mais frias por dentro do que lá fora. Janelas de alumínio com vidro simples, portas com frestas e um aquecedor a trabalhar horas a fio para pouco resultado. A lição nórdica é clara: muitas vezes, o aquecimento mais caro não é o que tem a tarifa mais alta, mas sim aquele cujo calor se escapa pelas janelas, pelo telhado e pelas frinchas.

O segredo não está no aquecedor, mas no "termo"

Um termo mantém o café quente durante horas sem qualquer fonte de calor. Não produz energia: limita-se a não a deixar sair. As casas norueguesas mais recentes funcionam com a mesma lógica. Paredes, telhado, janelas, portas e até as pequenas fissuras são tratados como um único sistema. De pouco serve uma janela nova se a porta da rua deixar entrar uma corrente de ar por baixo.

Nas construções norueguesas modernas é comum encontrar paredes e telhado com isolamento espesso, vidro duplo ou triplo e caixilhos bem vedados. Uma casa que já está quente mantém-se quente com muito menos energia.

Antes de comprar um aquecedor novo, convém descobrir por onde é que o calor está a sair. Caso contrário, o aparelho novo limita-se a aquecer a rua.

Por onde foge o calor numa casa portuguesa

Nas casas portuguesas, sobretudo nas mais antigas, os pontos fracos repetem-se. Faça uma pequena "inspeção" num dia de vento:

  • Janelas: passe a mão junto ao caixilho e às juntas. Se sentir ar frio, há fuga. Condensação frequente nos vidros e nos perfis é sinal de superfícies frias, pouco isolantes, e de humidade elevada dentro de casa.
  • Portas: a porta da rua e a da varanda costumam ter uma fresta generosa na parte de baixo.
  • Caixas de estore: esquecidas e, muitas vezes, quase ocas.
  • Telhado: nos últimos andares e moradias, um teto frio ao toque indica pouco isolamento.
  • Lareira: aberta e sem comporta, é um tubo direto para o exterior.

Uma dica simples: acenda um pau de incenso e aproxime-o devagar das juntas. Se o fumo oscilar, encontrou uma fuga. Se usar uma vela, afaste antes cortinas e estores, nunca a deixe sem vigilância e apague-a logo a seguir. Em alternativa, sem chama, use uma tira de papel fino ou a mão ligeiramente húmida.

Passo a passo: transformar a casa num termo sem obras

Nem todos podem isolar paredes ou trocar janelas este ano, mas muito se faz numa tarde, com material de lojas de bricolage como Leroy Merlin, AKI ou Bricomarché.

1. Vedar janelas e portas

Aplique fita de vedação autoadesiva (espuma ou borracha) nos batentes das janelas de abrir; nas de correr de alumínio, há escovas e perfis próprios para as calhas. Limpe e seque bem a superfície antes de colar. Atenção:

  • Não tape os orifícios de drenagem na calha inferior das janelas de correr nem as entradas de ar autorreguláveis que algumas janelas têm no caixilho.
  • Em cozinhas ou divisões com esquentador ou caldeira de exaustão natural, não vede tudo: estes aparelhos precisam de entrada de ar para funcionar em segurança.

2. Tapar a fresta da porta

Um vedante de porta (escova ou perfil de borracha) ou um simples "chouriço" de tecido cheio de areia encostado à porta faz uma diferença imediata nas correntes de ar. Evite o arroz junto a portas de varanda, porque pode ganhar humidade.

3. Tratar as caixas de estore

Coloque placas isolantes próprias no interior da caixa e vede as frestas da tampa com fita.

4. Cortinas, estores e tapetes

De dia, deixe entrar o sol; ao fim da tarde, feche estores e cortinas grossas. Em pisos frios, um tapete ajuda.

5. Fechar a lareira quando não está em uso

Se tiver lareira aberta, feche a comporta da chaminé sempre que não estiver acesa (e só depois de as brasas estarem totalmente apagadas).

Ventilar sem criar correntes de ar

Uma casa vedada também tem problemas: a humidade de cozinhar, tomar banho e secar roupa acumula-se, surge condensação e, pouco depois, bolor. Os noruegueses resolvem isto com ventilação controlada, muitas vezes com recuperação de calor: o ar quente que sai aquece o ar fresco que entra.

Numa casa portuguesa, a solução prática é mudar de hábitos:

  • Em vez de deixar uma janela entreaberta durante horas, abra janelas opostas de par em par durante 5 a 10 minutos, uma ou duas vezes por dia.
  • Areje depois do banho e enquanto cozinha, e use o exaustor.
  • Não tape as grelhas de ventilação existentes, sobretudo em divisões com esquentador, caldeira ou fogão a gás.

Arejar pouco tempo e com força renova o ar sem arrefecer paredes e móveis. Uma janela sempre entreaberta faz exatamente o contrário.

Aquecer melhor, não aquecer mais

Só depois de "fechar o termo" é que entra o aquecimento. Na Noruega, a eletricidade é a principal fonte de energia nas habitações, graças à energia hidroelétrica, e as bombas de calor ar-ar tornaram-se muito populares.

  • Um aquecedor elétrico comum (termoventilador, radiador a óleo, convector) transforma 1 kWh de eletricidade em cerca de 1 kWh de calor.
  • Uma bomba de calor transporta calor do exterior para o interior: consoante o aparelho e o tempo, 1 kWh de eletricidade pode render 2 ou mais kWh de calor.

Em Portugal, a bomba de calor ar-ar mais comum é o ar condicionado com modo de aquecimento. Quem já tem um pode usá-lo em vez de um aquecedor elétrico tradicional e obter mais calor pelo mesmo consumo.

A salamandra como plano B

Na Noruega, a salamandra a lenha não é decoração: nas noites mais frias, quando a bomba de calor perde rendimento, assume parte do trabalho, e garante calor se faltar a luz.

Em Portugal, salamandras e recuperadores de calor são comuns, sobretudo no interior. Para funcionarem bem e em segurança:

  • Limpe a chaminé antes de cada época de aquecimento.
  • Use apenas lenha bem seca; lenha húmida aquece pouco e suja a chaminé.
  • Instale um detetor de monóxido de carbono na divisão.
  • Nunca deixe a salamandra a arder sem vigilância nem a use para queimar lixo, plásticos ou madeira tratada.

Quanto se pode poupar: um exemplo simples

Imagine uma moradia em que, numa noite fria, 1,5 kW de aquecedores elétricos ficam ligados 5 horas: são 7,5 kWh. Com o ar condicionado em modo de aquecimento, que pode render 2 a 3 kWh de calor por cada kWh consumido, o mesmo calor gasta cerca de 2,5 a 4 kWh, ou seja, poupa cerca de 3,5 a 5 kWh por noite. Com a eletricidade a cerca de 0,16 a 0,22 euros por kWh, consoante o tarifário:

  • Por noite: cerca de 0,55 a 1,10 euros
  • Em 30 noites: cerca de 17 a 33 euros
  • Em 5 meses de frio: cerca de 85 a 165 euros

Com a salamandra, a fatura da luz baixa mais, mas é preciso descontar o custo da lenha. É apenas um exemplo ilustrativo: a poupança real depende do tarifário, da casa e dos hábitos. Ainda assim, ao longo de um inverno, pode chegar a dezenas ou mesmo mais de uma centena de euros.

Erros comuns que deve evitar

  • Comprar primeiro, vedar depois: é dinheiro a sair pela janela.
  • Vedar tudo e deixar de arejar: é o caminho mais rápido para condensação e bolor.
  • Tapar grelhas de ventilação: com aparelhos a gás, há risco de monóxido de carbono.
  • Confiar no piso radiante como solução milagrosa: é confortável, mas numa casa mal isolada o calor continua a fugir pelo telhado, pelas paredes e pelas janelas.

Por onde começar este outono

A ordem norueguesa é esta: vedar janelas e portas, tratar as caixas de estore, arejar de forma rápida e intensa e só depois pensar em aquecimento. Se puder investir mais tarde, isolar o telhado e trocar as janelas por vidro duplo são as melhorias com mais impacto; informe-se sobre os apoios públicos à eficiência energética disponíveis.

Os noruegueses não vivem aquecidos por terem o aquecedor no máximo, mas porque não deixam o calor fugir. Com uma tarde de trabalho e alguns euros em fita de vedação, a sua casa pode começar já este inverno a funcionar um pouco mais como um termo.

Neste momento

Inês Margarida Correia

Inês Margarida Correia é engenheira alimentar e consultora em processos de panificação e confeção em forno, com especialização em fornos tradicionais e controlo de temperatura e humidade. No sitiodoforno, partilha conhecimento sobre técnicas de cozedura, manutenção de fornos e receitas que valorizam a tradição portuguesa com rigor técnico. Interessa-se particularmente por fermentações, lenha e eficiência energética aplicada à cozinha.

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