Muitas pessoas aproveitam o início de um novo ano para pensar na sua relação com o álcool. As orientações governamentais recentemente divulgadas dão agora aos norte-americanos mais um motivo para ponderarem um «janeiro sem álcool».
Nas últimas décadas, a acumulação de evidência científica demonstrou que bastam 1-2 bebidas alcoólicas por dia para aumentar a probabilidade de vários tipos de cancro.
Foi isso que levou o cirurgião-geral dos Estados Unidos, Dr. Vivek Murthy, a publicar, em 3 de janeiro de 2025, um novo aviso do Surgeon General sobre a ligação entre o álcool e o cancro. O documento sublinhou as provas disponíveis e defendeu a criação de novos rótulos de advertência sobre cancro nas bebidas alcoólicas.
A relação entre o álcool e o cancro não é propriamente recente - os cientistas tentam esclarecê-la há décadas -, mas a maioria das pessoas desconhece estes perigos e pode associar o consumo de bebidas apenas a doenças hepáticas, como a cirrose. Num inquérito de 2019 do American Institute for Cancer Research, menos de metade dos norte-americanos apontou o álcool como fator de risco de cancro.
Nos Estados Unidos, o álcool é a terceira causa de cancro mais evitável, ficando apenas atrás do tabaco e da obesidade.
Conforme salienta o relatório do cirurgião-geral, o álcool está associado a cerca de 100.000 casos de cancro e 20.000 mortes por cancro todos os anos. Tem um papel em casos de cancro da mama, do fígado, colorretal, da boca, da garganta, do esófago e da laringe. Anualmente, as mortes por cancro induzido pelo álcool ultrapassam as mortes em acidentes rodoviários associados ao álcool.
O relatório propõe ainda a inclusão de avisos nas bebidas alcoólicas, semelhantes aos já obrigatórios nos produtos de tabaco - outra substância de abuso reconhecida por causar cancro.
Enquanto neurocientista especializada nos efeitos neurobiológicos do consumo de álcool e do consumo episódico excessivo, considero positiva esta chamada à ação para reduzir o consumo de álcool nos Estados Unidos.
Principais conclusões do relatório sobre álcool e cancro
Perante o reduzido número de pessoas que conhece as ligações entre o consumo de álcool e diferentes tipos de cancro - e tendo em conta que a grande maioria bebe algum tipo de álcool todas as semanas -, é fácil perceber por que razão o cirurgião-geral apela a uma maior consciencialização.
O relatório, com 22 páginas, apresenta o que a ciência sabe sobre a relação entre álcool e cancro, além de propor medidas para o futuro. Entre elas está a alteração dos rótulos das bebidas alcoólicas, que não são atualizados desde a sua criação, em 1988.
De forma particularmente marcante, o cancro da mama representa uma grande parcela deste risco, algo especialmente preocupante num contexto de aumento do consumo de álcool entre as mulheres.
Estes dados não dizem respeito apenas a pessoas que bebem muito. Embora beber menos seja preferível, 25% destes casos de cancro ocorreram em pessoas classificadas como consumidoras moderadas, que bebiam, em média, menos de duas bebidas por dia. Isto significa que qualquer pessoa que consuma álcool regularmente, mesmo em pequenas quantidades, deve conhecer e compreender os riscos.
Os avisos do cirurgião-geral são o principal meio pelo qual o Department of Health and Human Services, onde está sediado o Office of the Surgeon General, comunica ao público questões de saúde de grande relevância.
Estes avisos do cirurgião-geral não correspondem necessariamente a notícias de última hora, mas constituem uma oportunidade para chamar a atenção do público para a ciência relacionada com grandes questões de saúde pública.
A ciência por trás da ligação entre álcool e cancro
Para os cientistas, a relação entre álcool e cancro é evidente há décadas. Aliás, já tinha sido mencionada num relatório do cirurgião-geral de 2016, centrado de forma mais ampla na dependência.
O novo documento descreve os diversos tipos de evidência que sustentam esta ligação. Um deles provém da ciência epidemiológica, que procura compreender os padrões e as relações entre as taxas de cancro e a quantidade de álcool consumida pelas pessoas.
Outra fonte são os estudos experimentais em animais, que permitem aos cientistas perceber os mecanismos e a causalidade destas relações em tipos específicos de cancro. Em conjunto, os estudos demonstram de forma conclusiva uma ligação e uma via entre o consumo de álcool e o cancro.
O relatório do cirurgião-geral identifica quatro vias principais pelas quais o álcool pode provocar cancro. Em grande medida, estas dizem respeito às formas como o álcool pode afetar negativamente o ADN, os elementos fundamentais das células. Embora as células saudáveis do organismo se dividam continuamente, o seu crescimento anormal pode ser impulsionado por fatores aberrantes, como os danos no ADN provocados pelo álcool.
Esses danos no ADN conduzem a um crescimento descontrolado de tecido, em vez de um crescimento saudável e normal. Esse crescimento anormal de tecido é o cancro. As quatro vias destacadas no relatório pelas quais o álcool pode levar ao cancro são:
- O organismo decompõe naturalmente o álcool em acetaldeído. O acetaldeído pode danificar e quebrar o ADN, provocando reorganizações cromossómicas e tumores. A ligação é tão forte que o acetaldeído é classificado como cancerígeno desde 1999.
- O álcool produz espécies reativas de oxigénio. As espécies reativas de oxigénio, por vezes designadas «radicais livres», são moléculas instáveis que contêm oxigénio e podem causar mais danos no ADN, nas proteínas e nas gorduras.
- O álcool pode influenciar hormonas, como o estrogénio. Pode aumentar a quantidade de estrogénio no organismo, o que poderá explicar a sua ligação ao cancro da mama. Este aumento de estrogénio pode afetar o tecido mamário ao provocar - adivinhou - danos no ADN.
- O álcool é um solvente, o que significa que outras substâncias se podem dissolver nele. Isto facilita a absorção pelo organismo de substâncias cancerígenas provenientes de outras fontes - como cigarros e cigarros eletrónicos - quando ambas são consumidas em simultâneo.
Existe alguma quantidade de álcool segura?
A maior dúvida das pessoas neste momento será provavelmente «quanto álcool posso beber em segurança?», e a resposta poderá desiludi-las: provavelmente, nenhuma quantidade.
O consumo de álcool continua a ser um dos fatores de risco de cancro mais evitáveis. Mesmo o consumo moderado - uma bebida ou menos por dia - pode aumentar o risco de alguns tipos de cancro, como o da mama, da garganta e da boca.
Contudo, nenhum destes estudos consegue determinar qual é o risco individual de cancro de cada pessoa. A relação entre álcool e cancro pode ser influenciada pelos genes, incluindo aqueles que controlam as enzimas que metabolizam o álcool, e por outros fatores de estilo de vida que afetam as taxas de cancro de forma mais geral, como a alimentação e a inflamação.
Todos estes fatores relacionados com o estilo de vida e a saúde pessoal podem determinar o nível de risco que o consumo de álcool representa para si.
Os Centers for Disease Control and Prevention indicam que, se decidir beber, deve considerar limitar-se a menos de uma dose-padrão de álcool por dia, no caso das mulheres, ou duas, no caso dos homens - quantidades que podem ser menores do que imagina - e não praticar consumo episódico excessivo de álcool.
O cirurgião-geral também sugere que estas orientações sejam repensadas, incluindo limites atualizados para o consumo diário de álcool e maiores esforços de educação sobre a ligação entre álcool e cancro.
O National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism apresenta recomendações semelhantes para limitar o consumo de álcool e aconselha que, para as pessoas que optam por beber álcool, «quanto menos, melhor».
No seu sítio Web, o instituto disponibiliza sugestões para gerir o consumo de álcool ou deixar totalmente de beber. Entre elas estão encontrar passatempos e atividades alternativas, identificar o que desencadeia a vontade de beber e ter um plano para lidar com esses impulsos, bem como definir uma estratégia para dizer «não» a uma bebida alcoólica em situações sociais.
Nikki Crowley, Professora Assistente de Biologia, Engenharia Biomédica e Farmacologia, Penn State
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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