Chegou a época das festas de Natal no trabalho e dos encontros com família e amigos. É possível que, numa dessas ocasiões, acabe por beber bastante de uma só vez.
Depois, pode sentir o coração a bater depressa ou de forma irregular. Talvez note uma palpitação no peito ou no pescoço. Pode também sentir tonturas ou falta de ar. A preocupação pode ser tal que acaba por ir às urgências.
Após alguns exames, dizem-lhe que tem uma “arritmia auricular induzida pelo álcool”. Em linguagem simples, trata-se de um batimento cardíaco irregular desencadeado por consumo excessivo de álcool - sobretudo por bebedeiras (binge drinking).
Esta situação é frequente nesta altura do ano. Por isso, é também conhecida como “coração de férias”.
O que é o coração de férias?
Em cada época festiva, os serviços de urgência recebem mais pessoas com problemas relacionados com o álcool e com alterações do ritmo cardíaco.
Muitas pessoas aparecem com batimentos acelerados ou irregulares associados a episódios de consumo excessivo, comer em demasia, desidratação e maior stress nesta altura - factores que, em conjunto, contribuem para o problema.
O coração de férias (ou síndrome do coração de férias) é conhecido há quase 50 anos. Na década de 1970, foi descrito como um ritmo cardíaco anormal (uma arritmia) em pessoas saudáveis, sem doença cardíaca, após ingerirem grandes quantidades de álcool de uma vez. Os médicos observavam isto com frequência após fins de semana e feriados, incluindo o período festivo.
Ainda assim, uma arritmia associada ao álcool não acontece apenas em férias, fins de semana ou feriados. Também a vemos em pessoas que fazem bebedeiras em qualquer altura do ano, bem como em quem bebe de forma pesada durante muitos anos.
O que a provoca? Como é diagnosticada?
O álcool influencia o coração, os vasos sanguíneos, o sangue e o sistema nervoso de várias formas.
Por exemplo, quando o álcool interfere com o sistema nervoso, pode favorecer desidratação e inflamação. Por sua vez, isso pode perturbar o sistema eléctrico do coração e desencadear um batimento irregular.
As pessoas podem ir ao hospital por causa de palpitações, dor no peito, desmaios ou perda de consciência (síncope) e falta de ar (dispneia). No entanto, um ritmo irregular também pode surgir sem sintomas e só ser detectado quando se investigam outros problemas de saúde.
Se tiver sintomas, dirija-se às urgências ou ao seu médico de família. É provável que os profissionais de saúde realizem exames para confirmar alterações do ritmo cardíaco.
Entre esses exames está a monitorização do ritmo com um ECG (eletrocardiograma). Este teste é simples e não invasivo: colocam-se eléctrodos no peito, braços e pernas para registar, num gráfico, os sinais eléctricos do coração.
Os clínicos costumam prestar especial atenção à “onda P”, que corresponde à activação eléctrica das câmaras superiores do coração.
Pode também ser necessário um exame de sangue para avaliar os níveis de electrólitos (minerais essenciais no sangue). O exame pode ainda pesquisar marcadores de coagulação e inflamação, além de avaliar a função renal e hepática.
Porque é que isto nos preocupa?
A grande maioria das pessoas diagnosticadas com coração de férias recupera, sobretudo se houver tratamento precoce ou se deixarem de beber álcool, ou reduzirem o consumo.
Apesar disso, algumas pessoas acabam por receber o diagnóstico de fibrilhação auricular - a perturbação do ritmo cardíaco mais comum em adultos na Austrália, afectando 1.4-5.5% da população.
Nesses casos, pode ser necessário recorrer a medicamentos para recuperar um ritmo regular (o que se designa por cardioversão), à cardioversão eléctrica (com um desfibrilhador que aplica um choque eléctrico no coração) ou a um procedimento chamado ablação cardíaca.
Se a fibrilhação auricular não for tratada, aumenta o risco de formação de coágulos, acidente vascular cerebral (AVC) e enfarte.
Como pode prevenir?
Não existe um número definitivo de bebidas que se saiba desencadear o coração de férias. Por isso, o melhor conselho para o evitar é não fazer bebedeiras. As orientações australianas recomendam que mulheres e homens limitem o álcool a não mais de dez bebidas padrão por semana e não mais de quatro bebidas padrão num único dia.
Também recomendamos beber água entre as bebidas alcoólicas. Isto pode ajudar a reduzir os efeitos desidratantes do álcool e a diminuir o risco de complicações do ritmo cardíaco induzidas pelo álcool.
Depois, faça o possível por reduzir o stress, manter o exercício físico e seguir uma alimentação benéfica para o coração - recomendações gerais para cuidar da saúde cardíaca, beba ou não beba álcool.
Adoptar estas medidas ajuda a reduzir o risco de coração de férias e a manter o coração saudável nesta época festiva.
Caleb Ferguson, Professor de Enfermagem e Director de Inovações em Saúde, Universidade de Wollongong, e Sabine Allida, Investigadora (Ciência da Implementação), Universidade de Wollongong
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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